Trinta e dois pontos em treze jogos. Quando o árbitro encerrou o duelo em Bragança Paulista na noite do último domingo, o Palmeiras igualou — e superou — uma marca que remontava ao distante Brasileiro de 2003, aquele disputado ainda sob o sistema de grupos, antes da adoção integral do modelo de pontos corridos em turno único. O gol de Flaco López aos 20 minutos do primeiro tempo, construído pela raça do paraguaio Ramón Sosa, foi magro em estética e monumental em significado histórico.

Uma marca que atravessa duas décadas

Para se ter a dimensão do que representa esse arranque, basta recorrer ao arquivo. Em 23 anos de Campeonato Brasileiro disputado no atual formato de pontos corridos, nenhuma equipe alvinegra havia chegado à 13ª rodada com aproveitamento tão elevado quanto o registrado agora — percentual superior a 82% dos pontos possíveis. O próprio Palmeiras de 2022, que terminou campeão com 81 pontos e a defesa menos vazada da competição, havia somado 28 pontos ao fim da 13ª rodada. A versão atual já sobrepõe aquela safra em quatro pontos.

Conforme levantamento do SportNavo, o Verdão construiu esse desempenho combinando a melhor defesa do campeonato com um ataque que, mesmo sem ser o mais prolífico numericamente, mantém regularidade nas 13 partidas disputadas — uma virtude que Abel Ferreira cultiva desde que chegou ao clube em outubro de 2020. Em quase seis anos no Palestra, o técnico português acumulou dois títulos da Copa Libertadores (2021 e 2022), três Campeonatos Brasileiros e uma sequência de elencos que ele trata como organismos coletivos, jamais dependentes de um único protagonista.

"Trabalho com o plantel inteiro. Todos os jogadores precisam estar prontos"

A frase, repetida por Abel Ferreira em coletivas ao longo dos últimos anos, ganhou nova evidência em Bragança Paulista. Flaco López, artilheiro da partida, não é o centroavante titular incontestável — disputa espaço com outros nomes no setor ofensivo —, mas mantém aproveitamento expressivo quando acionado, característica que define o modelo de rodízio controlado pelo treinador.

Uma marca que atravessa duas décadas Palmeiras faz melhor início no Brasileir
Uma marca que atravessa duas décadas Palmeiras faz melhor início no Brasileir

A muralha defensiva como diferencial

Os números defensivos do Palmeiras neste Brasileiro merecem análise separada. Com a menor quantidade de gols sofridos na competição até a 13ª rodada, o time repete a receita que, historicamente, distingue os candidatos ao título dos meramente competitivos. Na temporada de 2016, quando o Palmeiras conquistou o Brasileirão com Cuca no comando e Gabriel Jesus como revelação do ano, a solidez defensiva também foi o pilar — o time terminou a competição com apenas 30 gols sofridos em 38 rodadas. O elenco atual projeta marcar ainda menos.

A distância para o vice-líder reforça a consistência palmeirense. O Flamengo, que na última rodada aplicou 4 a 0 no Atlético-MG em Belo Horizonte com gols de Arrascaeta, Plata e Pedro (dois), chegou a 26 pontos — seis a menos que o líder. O Fluminense, terceiro colocado com os mesmos 26 pontos do Rubro-Negro mas na posição inferior pelo saldo, venceu a Chapecoense por 2 a 1 no Maracanã graças a um gol tardio de John Kennedy. Enquanto os rivais oscilam entre goleadas e partidas suadas, o Palmeiras coleciona vitórias — inclusive as de 1 a 0, que na história do futebol são frequentemente mais reveladoras de maturidade do que qualquer resultado elástico.

A muralha defensiva como diferencial Palmeiras faz melhor início no Brasileir
A muralha defensiva como diferencial Palmeiras faz melhor início no Brasileir

Abel e os alicerces de uma hegemonia

A análise exclusiva do SportNavo sobre o ciclo Abel Ferreira no Palmeiras identifica um padrão consistente: o técnico português nunca foi campeão por acidente estatístico. Em 2021, venceu a Libertadores sem perder uma partida na fase de grupos. Em 2022, fez o doblete continental e nacional. Em 2023 e 2024, manteve o Palmeiras como favorito permanente mesmo em temporadas de renovação de elenco. O início de 2026 sugere que o ciclo não deu sinais de desgaste.

"Este grupo tem uma identidade muito forte. Quando um não está bem, o outro assume"

A frase atribuída a um membro da comissão técnica palestrina resume a filosofia que explica os 32 pontos. O Red Bull Bragantino, adversário do último domingo e nono colocado com 17 pontos, não foi dominado — o confronto foi equilibrado. A vitória por 1 a 0 no Estádio Cícero de Souza Marques demonstrou que o Palmeiras sabe administrar jogos sem criar chances em abundância, característica de equipes que amadureceram sob pressão de grandes campanhas. Em 1993, quando o Palmeiras de Vanderlei Luxemburgo venceu o Campeonato Brasileiro com o famoso time dos juniores, a solidez coletiva também venceu sobre o talento individual. Alguns princípios atravessam gerações.

O que esperar do restante da temporada

O Brasileirão tem 38 rodadas, e o Palmeiras percorreu apenas 13. A história ensina que vantagens expressivas no primeiro terço da competição não garantem título — em 2009, o Grêmio liderou boa parte do campeonato e terminou vice-campeão, com o Flamengo de Adriano e Ronaldinho levantando a taça. A diferença é que o atual Palmeiras não apenas lidera, mas o faz com a defesa mais organizada e um elenco profundo o suficiente para absorver ausências.

O próximo compromisso do Verdão é pela Copa do Brasil, competição em que o clube já garantiu classificação após bater a Jacuipense. No Brasileiro, o calendário reserva confrontos diretos com Flamengo e Fluminense nas próximas semanas — exatamente os rivais que precisarão vencer para reacender a briga pelo topo da tabela. Com seis pontos de folga sobre o segundo colocado na 13ª rodada, o Palmeiras chega a esses duelos com a tranquilidade de quem constrói história em vez de apenas persegui-la.