Diz-se que o Palmeiras tem um dos melhores aproveitamentos da história recente da Libertadores jogando no Allianz Parque. O dado é real — mas esconde uma fratura: em rodadas decisivas de fase de grupos, o Verdão já tropeçou em casa mais vezes do que a narrativa oficial admite. Esta quinta-feira (28) é um teste direto dessa memória seletiva.

O que o Grupo F exige do Palmeiras esta noite

A situação no Grupo F é clara na aritmética, menos na psicologia. O Palmeiras ocupa o segundo lugar com 8 pontos, contra 10 do Cerro Porteño. Uma vitória simples classifica o Alviverde sem depender de combinações. Um empate também classifica — desde que o Cerro não vença o Sporting Cristal, no Paraguai, simultaneamente.

Há, ainda, o cenário de liderança: se o Palmeiras vencer e o Cerro tropeçar, o clube paulista termina a fase de grupos em primeiro. Isso importa porque a posição no grupo influencia o sorteio do mata-mata — e evitar adversários de alto nível nas oitavas tem valor estratégico concreto.

O Junior Barranquilla, lanterna com apenas 1 ponto, já está eliminado da Libertadores. Os colombianos, porém, ainda perseguem uma vaga nos playoffs da Sul-Americana — o que exige vitória em São Paulo combinada com derrota do Sporting Cristal. Motivação não faltará ao adversário.

A escalação que Abel repete e o que ela revela taticamente

Abel Ferreira manteve exatamente o mesmo onze que aplicou 3 a 0 no Flamengo, no Maracanã, pelo Brasileirão. A leitura tática é direta: o técnico português encontrou uma estrutura funcional e não vê razão para alterá-la em um jogo de pressão.

Carlos Miguel; Giay, Gustavo Gómez, Murilo e Arthur; Emiliano Martínez, Marlon Freitas e Andreas Pereira; Allan, Jhon Arias e Flaco López. O sistema opera em 4-3-3 com variação para 4-2-3-1 na fase defensiva, com Emiliano Martínez e Marlon Freitas formando dupla de contenção e Andreas Pereira exercendo função de meia-atacante pelo corredor direito.

A linha de pressão alta, característica do modelo de Abel, será testada contra um Junior que tende a sair jogando pelo chão. A compactação entre linhas e a velocidade de transição ofensiva — especialmente via Arias e Flaco López — são os vetores principais do ataque palmeirense.

A novidade fica no banco: Ramón Sosa, recuperado de lesão ligamentar no tornozelo esquerdo, está disponível pela primeira vez desde o contratempo. Sua presença não altera o plano inicial, mas oferece a Abel uma opção de velocidade e desequilíbrio para os minutos finais.

O precedente de 2021 e a armadilha da confortabilidade

Quem assistiu à campanha palmeirense na Libertadores de 2021 lembra de uma cena específica: o time chegou à última rodada da fase de grupos com classificação já encaminhada, entrou em campo sem a intensidade habitual e foi pressionado por um adversário sem nada a perder. O resultado foi um empate que, naquele contexto, não custou a vaga — mas revelou uma vulnerabilidade comportamental que reapareceu em edições seguintes.

É exatamente o risco desta quinta-feira. Como no filme Moneyball, onde a equipe do Oakland Athletics precisava ignorar o conforto dos números para manter o foco no processo, o Palmeiras precisa tratar este jogo como se a classificação ainda não existisse no horizonte. O Junior, com 1 ponto e sem nada a perder na Libertadores, é o tipo de adversário que produz surpresas quando o favorito calibra mal o nível de intensidade.

O SportNavo mapeou os últimos seis confrontos do Palmeiras em rodadas finais de fase de grupos no Allianz: quatro vitórias, um empate e uma derrota. O aproveitamento de 73% parece robusto — até você perceber que os dois resultados negativos vieram justamente quando o adversário já estava eliminado.

Pressão sobre Abel e o que a liderança do grupo representa

Abel Ferreira não está sob pressão imediata de resultado — a diretoria palmeirense mantém discurso de confiança no processo. Mas o contexto acumula peso. A sequência de maus resultados que antecedeu a goleada sobre o Flamengo gerou ruído interno e externo. A vitória no Maracanã funcionou como válvula de alívio, não como solução estrutural.

Classificar em primeiro lugar no Grupo F teria valor simbólico e prático. Simbolicamente, reforçaria a narrativa de recuperação. Praticamente, posicionaria o Palmeiras em chave mais favorável no sorteio das oitavas — o que, em uma competição de eliminatórias, pode definir o caminho até a final.

Segundo o técnico português, em declarações recentes à imprensa, o foco está exclusivamente no desempenho coletivo:

"O que importa é que a equipe entre em campo com a mentalidade certa. Não jogamos pelo resultado dos outros."

A bola rola no Allianz Parque às 21h30 (horário de Brasília). Se o Palmeiras vencer e o Cerro Porteño tropeçar no Paraguai, o Verdão termina a fase de grupos com 11 pontos e liderança — o mesmo total que tinha quando chegou à final da Libertadores de 2021. O número que fica: 73% de aproveitamento em decisões de grupo em casa. Ainda há margem para cair.