"Todo jogo é uma guerra." A frase é de Pedro, atacante do Flamengo, dita na noite de quarta-feira (20) depois de marcar o gol que classificou o Rubro-Negro para as oitavas da Libertadores. Ele falava do duelo contra o Estudiantes, mas a sentença soou como uma profecia para o que acontecia simultaneamente do outro lado da cidade — ou melhor, do outro lado do continente. No Allianz Parque, o Palmeiras descobria que 17 jogos sem perder não garantem a décima oitava.
O que a sequência de 17 jogos escondia sobre o Palmeiras
Invencibilidades longas têm uma característica traiçoeira: elas mascaram fragilidades que só aparecem quando o adversário certo bate à porta. O Milan de Sacchi foi invicto por 58 partidas entre 1991 e 1993 — mas quando o Marseille encontrou a brecha na Champions daquele ano, a série caiu de uma vez. O Palmeiras de 2026 não chegou perto desse número, mas os 17 jogos sem derrota criaram uma aura de solidez que o Cerro Porteño despedaçou em menos de dois minutos de segundo tempo.
O dado concreto que a sequência escondia estava no próprio jogo desta quarta: o Verdão criou ao menos seis chances claras ao longo dos 90 minutos — Flaco López acertou a trave aos 30 minutos do primeiro tempo, Jhon Arias foi travado pelo goleiro Martín Arias em pelo menos duas finalizações, e Luighi ficou cara a cara dentro da área aos 88 minutos, sendo salvo pelo impedimento antes mesmo de o goleiro precisar agir. Domínio territorial sem eficiência é uma conta que, cedo ou tarde, vence o credor.
Historicamente, times que chegam à quinta rodada de grupos da Libertadores invictos e com folga na tabela costumam relaxar no controle das transições defensivas — exatamente o que aconteceu aos 47 minutos. Pablo Vegetti, ex-Vasco, aproveitou um contra-ataque preciso do Cerro para tocar na saída de Carlos Miguel e marcar o único gol da partida. Um gol que, em termos de volume de jogo, foi quase injusto. Mas o futebol não distribui pontos por domínio.
Como um gol de Vegetti mudou a leitura do Grupo F
Antes da rodada, o Palmeiras estava na liderança do Grupo F com oito pontos. Depois da derrota, o Cerro Porteño chegou aos dez e assumiu o topo. O Verdão caiu para segundo, ainda com oito — mas agora sob pressão para a última rodada. A situação lembra o que o Valencia viveu no Grupo H da Champions 2001/02: entrou na última rodada acreditando que a classificação era protocolar e precisou de um resultado específico em outro jogo para avançar. O futebol de grupos é impiedoso com quem perde o controle da própria chave.
O placar de 1 a 0 também revelou um problema tático que o SportNavo já havia mapeado nas rodadas anteriores: a equipe de Abel Ferreira tem dificuldade em variar o ataque quando o adversário fecha os espaços centrais. Arias foi o jogador mais ativo, mas abusou dos cruzamentos errados na segunda etapa — um padrão que o Cerro explorou ao se fechar com duas linhas de quatro e esperar o erro para sair em velocidade. A parede de ferro paraguaia funcionou até o apito final.
A torcida que foi ao Allianz Parque esperando comemorar a classificação antecipada saiu vaiando. O contexto importa: não é a primeira vez que um time grande perde em casa para um adversário sul-americano considerado menor e paga um preço caro na tabela. O São Paulo de 2005 perdeu para o Once Caldas no Morumbi e quase ficou fora das oitavas. A história do continente é cheia desses episódios que ensinam mais do que qualquer vitória confortável.
O que o Palmeiras precisa resolver antes da última rodada
A pergunta que o torcedor alviverde carrega agora é direta: o Palmeiras ainda se classifica? A resposta é sim — mas com condicionantes. O Verdão precisa vencer na última rodada e torcer por um tropeço ou não-vitória do Cerro Porteño. A aritmética ainda é favorável, mas a margem de erro zerou.
Há um agravante no horizonte imediato: no sábado (23), o Palmeiras enfrenta o Flamengo pelo Brasileirão, no Maracanã — um duelo entre vice-líder e líder do campeonato nacional. Pedro, autor do gol contra o Estudiantes, já projetou o confronto com clareza:
"Todo jogo é uma guerra, né? No Flamengo, a exigência é muito grande pelo elenco e pela grandeza do clube. Então, encaramos cada partida como uma guerra, e sábado, contra o Palmeiras, será mais uma."O Rubro-Negro chega embalado, classificado com antecipação e com R$ 11,6 milhões já faturados nesta edição da Libertadores — entre vitórias na fase de grupos e a premiação pelas oitavas.
Para o Palmeiras, o sábado é um teste de caráter. Times que sofrem derrotas que encerram longas sequências invictas costumam reagir de duas formas: ou entram em colapso de confiança, ou usam o baque como combustível. O Barcelona de Guardiola perdeu para o Rubin Kazan em 2009 — primeira derrota europeia em 18 partidas — e venceu os seis jogos seguintes. A resposta do Verdão ao Cerro dirá mais sobre o grupo do que qualquer sequência de 17 jogos sem perder.
O Palmeiras volta a campo neste sábado (23) contra o Flamengo, às 21h, no Maracanã, pelo Brasileirão — e a última rodada da fase de grupos da Libertadores, que definirá se o Verdão avança ou não às oitavas, ainda aguarda data confirmada. "Todo jogo é uma guerra" — e o Palmeiras acaba de perder a primeira batalha da temporada.










