O ar era pesado — não de emoção, mas de altitude. A 2.500 metros acima do nível do mar, no Estádio Banco Guayaquil, em Quito, os jogadores do Palmeiras respiravam com dificuldade nos primeiros 35 minutos diante do Independiente del Valle, enquanto o placar marcava 0 a 2 e Abel Ferreira, do lado de fora, reconheceu depois que chegou a temer um nocaute. O que aconteceu a seguir entrou imediatamente para o repertório de noites épicas da Libertadores 2024.

A virada que Abel comparou a um nocaute no 12º round

Tensão máxima antes de qualquer bola rolada. O Independiente del Valle abriu o placar aos 12 minutos com um chute colocado do equatoriano de 16 anos Kendry Páez, e ampliou aos 38 com Michael Hoyos, assistido pelo próprio Páez. Era um cenário que remetia àquelas noites sombrias de brasileiros na altitude andina — como o próprio Palmeiras havia vivido em Quito contra a LDU em anos anteriores, ou como o São Paulo foi eliminado pelo Deportivo Quito nos anos 2000, incapaz de recuperar fôlego e posse de bola no segundo tempo.

Antes do intervalo, porém, Endrick diminuiu e recolocou o Verdão no jogo. Na segunda etapa, Lázaro empatou, e nos instantes finais, Fernando não foi o nome do roteiro — foi Luis Guilherme, com um chute de qualidade rara, que virou para 3 a 2 e manteve o Palmeiras na liderança do Grupo F, com sete pontos.

"Os primeiros 35 minutos nos colocou nas cordas, não fez o KO, mas em determinado momento pensei que sofreríamos um nocaute. Soubemos esperar e no 12º round demos um nocaute no adversário", disse Abel Ferreira ao fim da partida.

O treinador português foi além na coletiva e atribuiu a virada a um esforço coletivo que começa muito antes do apito inicial: nutricionistas, psicóloga, equipe do Núcleo de Saúde e Performance e a estrutura proporcionada pelo clube. Quem acompanha o futebol europeu reconhece o modelo — é o mesmo que o Bayern de Munique dos anos 2000 e o Chelsea de Mourinho em 2004-05 aplicavam para reduzir variáveis fora de campo antes de jogos decisivos. Abel não inventou a roda, mas rodou ela com precisão em Quito.

"Ficamos em um hotel extraordinário, temos tudo do bom e melhor. O clube nos proporciona isso, temos de ir para o campo e todos juntos nos esforçar pelo resultado", completou o técnico alviverde.

Tite em La Paz e a lógica da gestão de carga

A 3.600 metros de altitude, no Estádio Hernando Siles, em La Paz, o cenário foi diferente — e a derrota do Flamengo para o Bolívar por 2 a 1 abriu um debate que o futebol brasileiro trava há décadas. O Bolívar marcou logo no primeiro minuto, com Chico da Costa de cabeça após cruzamento de Bruno Sávio. Matías Viña empatou aos cinco minutos, mas o mesmo Bruno Sávio recolocou os bolivianos na frente aos 62, em contra-ataque.

Fernando Diniz não estava no banco naquela noite — era Tite, que optou por poupar titulares diante da sequência de jogos e da viagem de retorno longa, com partida pelo Brasileirão no domingo seguinte. A decisão gerou críticas, mas o treinador apresentou sua argumentação com clareza técnica.

"A responsabilidade é minha, porque a definição da equipe é minha, mas eu tenho muita lucidez de não estourar um atleta numa sequência de jogos e perdê-lo na sequência. A qualidade técnica começa a se perder, começa a errar passe. Esses são todos os indícios", afirmou Tite, que ainda citou Pep Guardiola e o caso de Erling Haaland para ilustrar a importância da ciência do esforço no futebol moderno.

O argumento de Tite não é novo. Nos anos 90, o próprio Arrigo Sacchi no Milan e o Alex Ferguson no Manchester United já rotacionavam elencos em jogos considerados de menor risco — e pagavam o preço pontual para colher dividendos físicos em fases mais avançadas. A diferença é que La Paz não é um jogo qualquer: a altitude boliviana é historicamente o maior algoz dos times brasileiros na Libertadores, com aproveitamento historicamente inferior a 30% para visitantes do Brasil. O Flamengo ficou na segunda posição do Grupo E, com quatro pontos, podendo ainda ser ultrapassado pelo Millonarios.

A virada que Abel comparou a um nocaute no 12º round Palmeiras vira em Quito enq
A virada que Abel comparou a um nocaute no 12º round Palmeiras vira em Quito enq

Dois clubes, duas filosofias e o mesmo desafio andino

O que separa as noites de Palmeiras e Flamengo nesta 3ª rodada não é apenas o resultado — é a abordagem. O Verdão chegou a Quito com estrutura de hospedagem cuidada, equipe multidisciplinar mobilizada e um elenco que, mesmo sufocado nos primeiros 35 minutos, manteve a coesão para virar o jogo. O Mengão chegou a La Paz com um time misto por escolha técnica deliberada, pagando o preço imediato de uma derrota, mas apostando na preservação física para uma sequência longa de competições.

Ambas as estratégias têm precedente histórico no futebol sul-americano. O Santos de Pelé nos anos 60 enfrentava a altitude sem qualquer protocolo científico — e ainda assim chegou a duas Libertadores consecutivas. O Grêmio campeão de 1983 e o Nacional uruguaio dos anos 80 tampouco tinham nutricionistas de altitude. Hoje, como o SportNavo tem acompanhado ao longo desta fase de grupos, a altitude deixou de ser apenas um fator geográfico para se tornar uma variável tática que técnicos de alto nível precisam incluir no planejamento com a mesma seriedade de uma análise de adversário.

Tite em La Paz e a lógica da gestão de carga Palmeiras vira em Quito enquanto Fl
Tite em La Paz e a lógica da gestão de carga Palmeiras vira em Quito enquanto Fl

O Palmeiras volta à Libertadores no dia 9 de maio, diante do Liverpool-URU, no Uruguai, já como líder do Grupo F com sete pontos. O Flamengo, por sua vez, visita o Palestino no Chile no dia 7 de maio, ainda com a chance de segurar a segunda posição do Grupo E — e com Tite sabendo que, desta vez, não haverá altitude para justificar uma escalação experimental. É o mesmo cenário que o Boca Juniors viveu em 2004, quando administrou mal a altitude na fase de grupos e pagou caro nas oitavas — só que agora a aposta é diferente, e o futebol brasileiro tem mais ferramentas para não repetir o erro.