Perder de 6 a 1 e comemorar como se tivesse ganho um título. Esse é o paradoxo que o Panamá protagonizou na Copa do Mundo de 2026 — e ele só faz sentido quando você entende o que aquele único gol representou para um país inteiro.

O gol que valeu mais do que o placar

Quando Baloy — ex-Grêmio, para quem não lembra — descontou para o Panamá na Copa de 2018, a cena que rolou no estádio e nas telas do mundo todo virou referência sobre o que o futebol pode causar numa torcida. Em 2026, a história se repetiu com uma potência ainda maior: oito anos depois da estreia histórica na Rússia, o Panamá voltou ao Mundial e voltou a marcar. O gol saiu com a Inglaterra já em 6 a 0, mas não importou. A torcida panamenha foi às lágrimas, abraços e saltos como se aquele fosse o gol do título.

Tadeu Schmidt, no Fantástico, capturou bem o momento: segundo o programa, jogadores e torcedores "estavam orgulhosos da participação na Copa do Mundo" — uma frase simples que diz tudo sobre a escala de expectativas de uma seleção que estreou no torneio há menos de uma década.

O que os números revelam sobre a diferença de nível

Olhando pelo lado tático, a goleada não surpreende quem trabalha com dados. A simulação pré-jogo do ChatGPT, citada em matéria do SportNavo, projetava vitória inglesa com 71% de posse e 18 finalizações contra apenas 6 do Panamá — e o resultado real ficou ainda mais desequilibrado.

Para contextualizar com métricas contemporâneas:

  • xG (expected goals) — métrica que mede a qualidade das chances criadas com base em localização, ângulo e tipo de finalização. Num jogo com esse padrão de posse, o xG inglês provavelmente ultrapassou 4.0, enquanto o Panamá dificilmente chegou a 0.5 antes do gol marcado.
  • PPDA (passes permitidos por ação defensiva) — indica a intensidade da pressão alta. O Panamá, que se fechou em duas linhas e apostou no contra-ataque, certamente apresentou um PPDA alto, ou seja, pressionou pouco no campo adversário. A Inglaterra explorou exatamente esse espaço.
  • Progressive passes — passes que avançam ao menos 10 metros em direção ao gol adversário. Harry Kane, com hat-trick e três gols nos dois primeiros jogos da Copa, foi o principal beneficiário dessas progressões pelo corredor central inglês.

Esses três indicadores pintam o mesmo quadro: o Panamá não tinha como competir estruturalmente com uma Inglaterra que dominou posse, progressão e criação de chances do primeiro ao último minuto.

O precedente de 2018 e o que mudou em oito anos

A Copa de 1982 tem um paralelo interessante aqui. A Argélia estreou naquele torneio com uma vitória histórica sobre a Alemanha Ocidental — campeã do mundo em 1974 e favorita ao título — e mesmo assim foi eliminada nos critérios de classificação, num esquema que ficou conhecido como o "Pacto de Gijón". Aquele resultado, 2 a 1 para os argelinos, é até hoje lembrado como um dos maiores feitos de uma estreante na história dos Mundiais. A alegria foi enorme apesar da eliminação.

O Panamá de 2018 não venceu nenhum jogo — perdeu para a Bélgica por 3 a 0, para a Inglaterra por 6 a 1 e para a Tunísia por 2 a 1 —, mas o gol de Baloy contra os ingleses entrou imediatamente no folclore do futebol panamenho. Em 2026, a seleção voltou ao Mundial — desta vez no Grupo L, ao lado de Inglaterra, Gana e Croácia — sem pontos após duas rodadas, repetindo o roteiro difícil. Mas a presença já era, por si só, uma conquista.

A diferença de contexto entre as duas participações é importante: em 2018, era a estreia absoluta, a emoção inaugural. Em 2026, o Panamá retornou com a consciência de quem sabe o que é estar ali — e isso transformou o orgulho em algo ainda mais consciente e celebrado.

Por que torcedores de seleções menores vivem a Copa de outro jeito

Existe uma pressão invisível que pesa sobre torcidas de seleções tradicionais que nunca aparece nos relatórios táticos. Um torcedor inglês — com toda a história dos Três Leões, o trauma de 1966 como único título, as eliminações dolorosas nas penalidades — entra em cada jogo carregando décadas de expectativa acumulada. A vitória por 6 a 1 sobre o Panamá foi recebida com alívio e satisfação, não com euforia descontrolada.

A torcida panamenha, por outro lado, opera em outra frequência emocional completamente. Cada gol marcado — mesmo com o placar em 6 a 0 — é um marco histórico para um país que só descobriu o sabor de uma Copa há poucos anos. A comemoração não é irracional: ela é proporcional à história de cada nação com o torneio.

"O Panamá protagonizou um dos momentos mais bonitos dessa Copa. E na hora da comemoração do primeiro gol, a Inglaterra já goleava." — Bom Dia Brasil, Globo

A frase resume com precisão o contraste. Não há derrota no gesto de uma torcida que chora de alegria enquanto o placar marca 6 a 1 contra ela. Há, na verdade, uma clareza sobre o que significa participar — algo que seleções com histórico pesado às vezes perdem pelo caminho.

"Mesmo sofrendo goleada em jogo contra a Inglaterra, time e torcedores estavam orgulhosos da participação na Copa do Mundo." — Tadeu Schmidt, Fantástico

O Panamá encerra sua participação na Copa do Mundo 2026 sem pontos no Grupo L, mas com ao menos um gol que será contado e recontado por gerações. A seleção disputa a última rodada da fase de grupos contra a Tunísia, com a Inglaterra — que assegurou vaga nas oitavas — fechando o grupo contra Gana ou Croácia. Para os panamenhos, o objetivo agora é a primeira vitória em Copas, o único capítulo que ainda falta nessa história.