O clima no Barradão mudou. Quando Sérgio Papellin chegou ao Vitória em janeiro de 2026, substituindo Gustavo Vieira, encontrou um elenco que havia sobrevivido à Série A por margem mínima — na última rodada — pela segunda temporada consecutiva. A tensão acumulada era palpável nas entrevistas, nos treinos, na postura coletiva. Hoje, o clube está em 11º no Brasileirão, nas semifinais da Copa do Nordeste e eliminou o Flamengo na Copa do Brasil.

Mudou.

O que Papellin disse e o que os números confirmam

O diagnóstico do diretor foi direto na apresentação: o grupo precisava de jogadores com fome, não de nomes consolidados com salários pesados. Em cinco meses, ele fechou 15 contratações. Entre elas, dois nomes que disputavam a Série D — o lateral Renê e o atacante Zé Vitor — além dos zagueiros Ricielli e Caio Marcelo e do lateral-direito Mateuzinho.

"Quando cheguei, achei o pessoal muito inseguro, preocupado como o Vitória terminou o campeonato ano passado, de não repetir o sofrimento. Tinha uma base muito boa. Fui pegando algumas peças para encaixar. Aos poucos a equipe foi se encaixando", afirmou Papellin em entrevista ao Globo Esporte BA.

O desempenho coletivo corrobora a percepção. O Vitória passou a apresentar maior compactação defensiva no bloco médio, com linha de pressão posicionada entre os 35 e 40 metros do campo adversário — padrão que reduz espaços nas transições ofensivas do oponente. A eliminação do Flamengo na Copa do Brasil não foi acidente tático: foi produto de uma equipe que aprendeu a defender organizada.

O que Papellin disse e o que os números confirmam Papellin chegou ao Vitória com
O que Papellin disse e o que os números confirmam Papellin chegou ao Vitória com
"Equipe está mais encorpada, briga mais. Um pessoal bem unido. Dificilmente o Vitória vai ser batido em casa. Vai ter que jogar muito para vencer o Vitória aqui dentro", completou o dirigente.

Papellin chegou ao clube com currículo construído no Fortaleza, onde acumulou 13 títulos. A metodologia de recrutamento que aplicou no Tricolor cearense — priorizar atletas em ascensão, com contrato acessível e alto potencial de valorização — foi transplantada para Salvador com ajustes pontuais ao orçamento rubro-negro.

A equação financeira antes da segunda janela

A segunda janela de transferências abre em 20 de julho. Papellin quer 4 ou 5 reforços, mas o caminho até lá passa por uma operação de limpeza na folha salarial. O raciocínio é linear: sem saídas, não há entradas viáveis dentro do limite orçamentário.

"Temos que ter três peças no máximo para suprir algumas deficiências. Mas vai depender de quem vai sair. Se tirar algum jogador, você vai repor na medida do possível. A preocupação nossa agora é liberar atletas para buscar no mercado", declarou o diretor.

Dois casos concentram atenção: Renzo e Kike, ambos com contrato próximo do vencimento. A situação dos dois jogadores é o principal nó a ser desatado antes de qualquer movimentação no mercado. Renovar ou liberar — cada decisão tem custo financeiro e custo tático. Renzo, quando acionado, funciona como pivô de ligação entre a saída de bola e o terço final; Kike oferece mobilidade nas transições ofensivas pelo corredor direito. Perder os dois sem reposição adequada comprime as opções do técnico em sistemas com três atacantes.

A avaliação do SportNavo aponta que as posições mais carentes no atual sistema do Vitória são o meio-campo de contenção — onde o clube opera com cobertura limitada quando o titular é desfalcado — e o setor ofensivo, que depende de poucos nomes para criar desequilíbrio individual.

Papellin descartou publicamente a contratação do zagueiro Arboleda, do São Paulo, indicando que o perfil buscado segue sendo o de atletas com menor custo de aquisição e maior margem de crescimento. No mercado internacional, o diretor sinalizou abertura para opções pontuais — especialmente para posições onde o mercado nacional não oferece alternativas dentro do orçamento disponível.

O que os próximos meses vão exigir do Vitória

O contrato de Papellin com o clube tem duração de um ano, com renovação automática condicionada à permanência na Série A. A cláusula transforma cada rodada do Brasileirão em dado relevante para a continuidade do projeto. Com o clube em 11º lugar, a distância da zona de rebaixamento precisa ser monitorada rodada a rodada — o histórico recente mostra que o Vitória já esteve nessa posição antes de mergulhar em turbulência nas etapas finais.

Há também o fator Copa do Nordeste. Nas semifinais da competição, o clube tem a chance de chegar à final e disputar um título que fortaleceria o ambiente interno e geraria receita adicional — recurso que poderia flexibilizar as negociações da janela de julho.

A dívida do Grêmio referente à compra de Wagner Leonardo é outro ponto pendente na gestão financeira do clube, com impacto direto na capacidade de investimento a curto prazo.

O Vitória volta a campo pelo Brasileirão no fim de semana. Vale acompanhar o desempenho defensivo do time — especialmente a organização do bloco médio nas transições — para entender quais posições Papellin tem pressa em reforçar antes de 20 de julho.