Lucas Paquetá perdeu o melhor contrato da carreira no mesmo fim de semana em que foi à igreja agradecer por ele. Domingo de culto em Londres, gratidão no coração, e na segunda-feira uma carta da FA — a Federação Inglesa de Futebol — dizendo que ele estava sendo investigado por manipulação de cartões amarelos. O acerto com o Manchester City, que parecia blindado, evaporou em 72 horas.

O jantar de comemoração que antecedeu o colapso

A sequência de eventos tem precisão de roteiro. Na quinta-feira anterior à carta, Paquetá saiu para jantar com pessoas próximas para celebrar o que parecia certo: a transferência do West Ham para o City estava praticamente fechada após a Copa do Mundo de 2022. No sábado, ele ainda atuou normalmente pelo West Ham. No domingo, a missa. Na segunda, o fim.

"Eu recebi uma proposta do Manchester City, que era o clube dos meus sonhos. Estive muito próximo de me transferir. Lembro que numa quinta-feira a gente saiu para jantar para comemorar porque estava praticamente tudo certo", revelou Paquetá.

A investigação não era sobre futebol — era sobre caráter. A FA apontou suspeita de que Paquetá teria induzido cartões amarelos próprios em quatro partidas para beneficiar apostas de terceiros. O meia, que havia encerrado a Copa de 2022 como um dos jogadores mais valorizados da Premier League, viu seu nome associado a esquemas que ele nega categoricamente ter integrado.

Três meses que quase consumiram o jogador e a família

O impacto não ficou dentro dos campos. Paquetá descreveu os meses seguintes como os piores da vida adulta — uma espiral de choro, paralisia e incerteza que atingiu toda a família. Seu advogado foi direto: esqueça o City.

"Ele me ligou e falou: 'Esquece o Manchester City, porque isso acabou'. Fiquei desesperado. Mexia com meu sonho, com meu caráter e com a minha dignidade", desabafou o meia.

Os conselheiros jurídicos chegaram a alertar que, estatisticamente, quando a FA abre processo contra alguém, raramente erra. Para Paquetá, ouvir isso equivalia a uma sentença antes do julgamento. O caso se arrastou por mais de dois anos — um período em que o jogador seguiu atuando pelo West Ham, mas com a carreira suspensa em um limbo institucional.

O "e se" que Guardiola nunca precisou responder

A questão tática tem substância. Em 2023 e 2024, o City de Pep Guardiola perdeu Ilkay Gündogan para o Barcelona e viu Kevin De Bruyne desgastar-se progressivamente. Paquetá — meia com 31 desarmes e 8 assistências na temporada 2022/2023 pelo West Ham, números que o colocavam entre os cinco meias mais produtivos da Premier League naquele ciclo — preenchia exatamente o perfil de transição e criação que o sistema de Guardiola exige entre linhas. Não é especulação sentimental: o City chegou a formalizar o interesse, e o West Ham aceitou negociar.

Em vez disso, o desfecho chegou apenas no segundo semestre de 2025. Paquetá foi absolvido das acusações mais graves e escapou de suspensão ou banimento. A FA aplicou uma reprimenda formal, advertência sobre condutas futuras e exigiu o pagamento parcial das custas processuais — punição administrativa, não esportiva.

Paquetá no Flamengo e a Copa do Mundo como destino final

Com o caso encerrado, o Flamengo entrou em campo. Em janeiro de 2026, o clube carioca anunciou a contratação do meia por 42 milhões de euros — aproximadamente R$ 263 milhões — tornando-a a maior transferência da história do futebol brasileiro. O retorno ao Brasil, portanto, não foi uma retirada: foi o maior negócio já feito por um clube nacional.

Agora, Paquetá figura entre os cotados para a seleção brasileira na Copa do Mundo de 2026, torneio que será disputado em junho e julho nos Estados Unidos, Canadá e México. O Brasil estreia em 15 de junho, e o meia tem pela frente as próximas semanas no Flamengo para consolidar sua posição na lista do técnico Carlo Ancelotti.