25 anos separam a última Copa do Mundo em que o Brasil disputou uma fase final sem um camisa 10 de referência — era 1998, quando Ronaldo Nazário carregou o peso sozinho antes de desabar na decisão contra a França. Desde então, a seleção sempre teve um articulador de prestígio no miolo do ataque. Hoje, no centro de treinamento do Brasil na Copa do Mundo de 2026, Neymar voltou a pisar no gramado junto com os companheiros pela primeira vez, e o efeito foi imediato no vestiário.
O retorno que o elenco esperava desde a convocação
Antes desta sessão de domingo (21), Neymar vinha trabalhando em separado, longe dos olhos do grupo. A reintegração ao coletivo, ainda que parcial, foi suficiente para alterar o humor do elenco. Lucas Paquetá, que havia sido um dos destaques da vitória por 3 a 0 sobre o Haiti na sexta-feira (19) com uma assistência, não escondeu o entusiasmo na coletiva deste domingo.
"Estamos todos muito felizes com a volta dele, é um cara muito importante para a história da seleção. Esperamos que ele possa estar em campo para nos ajudar o quanto antes", declarou Paquetá.
A frase tem peso histórico. Neymar soma 79 gols pela seleção — o maior artilheiro da história da amarelinha, à frente de Pelé, que marcou 77 em jogos oficiais. Qualquer reintegração sua ao time titular não é apenas um ajuste tático; é uma decisão que carrega o peso de uma trajetória de 15 anos vestindo a camisa verde-amarela.
O dilema tático que Ancelotti não pediu mas vai ter que resolver
A sessão de domingo contou com apenas três titulares do jogo contra o Haiti: Paquetá, Alisson e Vinícius Jr. A ausência mais preocupante foi a de Raphinha, que deixou o campo ainda no primeiro tempo da partida com lesão no músculo posterior da coxa direita — o mesmo tipo de problema que já tirou jogadores de torneios inteiros ao longo da história das Copas. Se o diagnóstico confirmar um afastamento prolongado, Carlo Ancelotti precisará reorganizar o setor ofensivo com urgência.
Paquetá foi questionado sobre assumir a faixa de Raphinha no ataque. A resposta foi de capitão.
"Eu sempre me coloco à disposição para ajudar e fazer o melhor, mas essa é uma dúvida para o professor. É ele quem decide. Mas com certeza todo mundo está preparado para entrar e fazer o seu melhor", disse o meio-campista do West Ham.
Aqui reside o paralelo mais interessante com o passado. Em 2014, quando Neymar saiu lesionado nas quartas de final contra a Colômbia, Felipão não tinha um substituto natural. O Brasil perdeu 7 a 1 para a Alemanha. A situação atual é inversa: Neymar pode entrar, não sair. Mas o princípio é o mesmo — a seleção precisa de um plano B que funcione independentemente de quem estiver disponível.
Como Neymar pode ser encaixado no esquema de Ancelotti
A questão que os analistas debatem é onde o camisa 10 se encaixa no 4-2-3-1 que Ancelotti vem testando. Com Vinícius Jr. consolidado na esquerda e Rodrygo como opção pela direita, Neymar disputaria espaço justamente na posição de Raphinha — ala direita ou meia-atacante centralizado. Curiosamente, é uma posição que o próprio Neymar ocupou com frequência no PSG entre 2017 e 2019, quando Mbappé chegou e deslocou o brasileiro do eixo.
Há algo de O Retorno do Rei nessa narrativa — não pela grandiosidade épica, mas pela ambiguidade: o rei voltou, mas o reino se reorganizou na ausência dele. Ancelotti precisará decidir se Neymar entra como protagonista ou como peça de um sistema já montado.
O Brasil estreou empatando em 1 a 1 com Marrocos, resultado que gerou comparações desfavoráveis com outras seleções que venceram com folga na abertura. Paquetá rebateu com pragmatismo.
"A gente sabe que as expectativas foram um pouco quebradas no primeiro jogo. Trabalhamos e melhoramos. Temos que focar no que a gente pode fazer. Somos a seleção brasileira e trabalhamos para conquistar o objetivo de vencer mais uma Copa. Se no final o objetivo for alcançado, nenhuma comparação vai importar", afirmou.
O que os próximos dias vão revelar sobre o futuro de Neymar na Copa
A vitória sobre o Haiti por 3 a 0 deu fôlego ao grupo, mas não apagou a fragilidade exposta no empate com Marrocos. O Brasil precisa de pelo menos mais uma vitória para garantir a classificação às oitavas de final com tranquilidade, e a presença ou ausência de Neymar no time titular moldará completamente a identidade ofensiva da equipe.
Historicamente, o camisa 10 demora entre 10 e 14 dias de treinos coletivos para recuperar ritmo de jogo após uma pausa longa. A reintegração ao grupo neste domingo é o ponto zero desse cronômetro. Ancelotti terá os próximos dias de treinamento para avaliar se Neymar está apto a começar jogando — ou se a Copa de 2026 será, como aconteceu em 2014 e em 2022 por razões diferentes, mais uma edição em que o maior artilheiro da história da seleção precisará correr contra o próprio relógio.

O próximo compromisso do Brasil na Copa do Mundo é contra a Escócia, partida que definirá o caminho do grupo. Neymar treina; Ancelotti observa; o Brasil aguarda com os olhos em campo.








