Era impossível sorrir. Essa frase, dita por um atleta de elite no auge da carreira, resume um período que vai muito além de qualquer polêmica burocrática. Lucas Paquetá, meia da Seleção Brasileira e do West Ham, revelou no documentário Convocadas, da TV Globo, que a investigação aberta pela Federação Inglesa de Futebol (FA) em 2023 causou danos que nenhuma absolvição apaga completamente.

"Era uma coisa que me afetava mais profissionalmente, mas que acabava afetando totalmente a nossa relação. Era difícil dar um sorriso, brincar com as crianças. Isso me matava. Esse momento machucou muito."

A fala de Paquetá não é retórica. O meia descreveu um colapso emocional que se infiltrou em cada cômodo da vida doméstica — e que, segundo sua esposa Duda Fournier, ultrapassou qualquer dimensão que pessoas de fora consigam calcular.

A cronologia de uma investigação que durou quase dois anos

A FA iniciou as apurações em 2023, a partir da suspeita de que Paquetá teria forçado cartões amarelos para beneficiar apostadores. O processo formal de acusação foi lavrado em 2024. A absolvição, finalmente, veio em julho de 2025 — cerca de 24 meses depois do início das investigações. Para se ter uma ideia da extensão temporal desse calvário: dois anos representam o mesmo ciclo de uma Copa do Mundo completa, da abertura à final.

Durante esse intervalo, o Manchester City encerrou as negociações com o jogador. O clube de Pep Guardiola demonstrava interesse concreto na contratação antes da abertura do caso, mas recuou diante da incerteza jurídica. Para Duda Fournier, esse episódio específico simboliza a dimensão da perda.

"Ele perdeu a chance de ir para o time dos sonhos dele. O sonho dele era jogar no Manchester City. Isso mexeu muito com a cabeça dele. As pessoas podem até ter noção do quanto foi ruim, mas eu e o Lucas sempre falamos que ninguém vai saber o que a gente passou. Ninguém nunca vai entender. Nem as pessoas mais próximas conseguem ter dimensão do que sentíamos todos os dias", afirmou Duda, emocionada.

A diferença entre jogar no Manchester City — clube que nos últimos dez anos acumulou seis títulos da Premier League e uma Liga dos Campeões — e seguir no West Ham não é apenas de prestígio. É da ordem de dezenas de milhões de euros em salário, exposição e legado. Uma distância comparável, em termos de impacto na trajetória de um atleta, à que separa Recife de Porto Alegre: geograficamente mensurável, mas imensurável quando sentida no cotidiano.

A cronologia de uma investigação que durou quase dois anos Paquetá revela que in
A cronologia de uma investigação que durou quase dois anos Paquetá revela que in

Absolvido, mas não inteiramente poupado

A decisão da FA em julho de 2025 foi de absolvição das acusações principais — Paquetá não foi considerado culpado de manipulação de apostas. Contudo, a federação inglesa aplicou uma penalidade secundária: o meia foi condenado a pagar 10% dos valores do processo por não ter colaborado suficientemente com as investigações. Trata-se de uma distinção importante do ponto de vista jurídico, mas que não apaga o estigma que acompanhou dois anos de especulação pública.

Do ponto de vista histórico do futebol brasileiro, casos de jogadores submetidos a investigações de longa duração raramente terminam sem consequência reputacional, mesmo quando a absolvição é plena. Romário enfrentou impasses com a CBF em 1998 que custaram sua presença na Copa da França — um exemplo distinto em natureza, mas análogo no padrão de como o ambiente extrajurídico prejudica atletas antes de qualquer veredicto formal. Paquetá viveu algo estruturalmente semelhante: a punição pelo simples fato de estar sob suspeita.

O custo invisível na saúde mental de um titular da Seleção

O depoimento mais revelador do documentário não é sobre futebol. É sobre paternidade. Paquetá descreveu a incapacidade de brincar com os filhos, de manter a leveza que o convívio familiar exige. Esse tipo de comprometimento emocional tem consequências mensuráveis no rendimento esportivo — estudos da UEFA sobre bem-estar de atletas de elite indicam que transtornos de ansiedade prolongados reduzem em até 18% a capacidade de tomada de decisão em campo.

Duda Fournier resumiu o sentimento de encerramento com precisão cirúrgica: "Saiu um elefante das costas. O medo que carregamos por muito tempo, a vergonha pelo julgamento das pessoas… Nos unimos muito. Nosso laço sempre foi forte, mas ficou ainda mais." A imagem do elefante é precisa — um peso que não some com uma notícia, mas que vai sendo descarregado aos poucos, semana após semana.

Na temporada 2024/2025 da Premier League, Paquetá manteve regularidade no West Ham mesmo sob pressão do processo. Foram 28 partidas disputadas, número que demonstra resiliência técnica, mas que não traduz o custo emocional descrito pelo próprio jogador. Há uma dissociação entre o atleta que aparece nos dados estatísticos e o homem que relata dificuldade de sorrir dentro de casa.

Paquetá na Copa do Mundo 2026 e o que a absolvição abre de perspectiva

Com o caso encerrado, Paquetá está entre os convocados de Carlo Ancelotti para a Copa do Mundo de 2026. Trata-se de sua segunda participação em um Mundial — ele esteve no Qatar em 2022, quando o Brasil foi eliminado pela Croácia nos pênaltis nas quartas de final, em 9 de dezembro daquele ano, com placar de 1 a 1 no tempo normal e 4 a 2 nas penalidades. Naquela ocasião, Paquetá marcou o gol brasileiro na prorrogação.

A Copa de 2026 representa, portanto, uma chance de reescrita narrativa. O meia chega ao torneio com 27 anos, no pico técnico, e com um peso burocrático que finalmente foi retirado de suas costas. Ancelotti o escalou em posição de protagonismo no meio-campo, ao lado de Casemiro e com liberdade para chegar à área — o mesmo papel que exerceu com eficácia no West Ham quando a cabeça estava mais leve. O Brasil estreia no Mundial em junho de 2026, e Paquetá deve ser titular na primeira partida da fase de grupos.