Sorriu. E esse sorriso, relatado por Neymar ao companheiro Lucas Paquetá durante o amistoso contra o Panamá, no Maracanã, no domingo 31 de maio, diz mais sobre o momento da Seleção Brasileira do que qualquer análise tática poderia revelar. O camisa 10 não entrou em campo — lesão na panturrilha o impediu — mas permaneceu no banco durante os 90 minutos em que o Brasil goleou por 6 a 2, e sua presença foi suficiente para gerar um dos momentos mais comentados da preparação para a Copa do Mundo.

A narrativa do Neymar dispensável e o que os números contradizem

Circula, desde a convocação, uma leitura apressada: a de que Neymar, aos 34 anos e com uma panturrilha comprometida, seria um peso para o grupo, um nome de prestígio que ocupa vaga de atleta mais produtivo. Essa narrativa ignora dados que qualquer historiador do futebol brasileiro conhece de cor. Neymar é o maior artilheiro da história da Seleção, com 79 gols em 128 jogos. Na Copa de 2014, marcou quatro gols antes de se machucar na quinta partida, contra a Colômbia, e a Seleção, sem ele, levou 7 a 1 da Alemanha. Em 2022, no Catar, mesmo sofrendo lesão no tornozelo na estreia contra a Sérvia, voltou a jogar e marcou nas quartas de final contra a Croácia — partida que o Brasil perdeu nos pênaltis. A correlação entre sua presença e o desempenho coletivo não é sentimento: é estatística.

Quando está em campo, ele libera espaços que nenhum outro jogador do elenco atual consegue criar com a mesma consistência. Quando está fora, o Brasil precisa redistribuir funções que foram construídas em torno dele ao longo de quase duas décadas.

O que Paquetá viu no banco muda a leitura sobre o grupo

A cena relatada por Paquetá ao portal GE é, do ponto de vista psicológico, reveladora. O meia do West Ham — que, aliás, marcou um dos seis gols brasileiros na noite, ao lado de Vinícius Júnior, Casemiro, Rayan, Igor Thiago e Danilo Santos — descreveu um Neymar que sorria no banco, não por conformismo, mas por gratidão genuína de estar convocado.

A narrativa do Neymar dispensável e o que os números contradizem Paquetá revela
A narrativa do Neymar dispensável e o que os números contradizem Paquetá revela
"A gente estava no banco ali e foi legal, porque ele ficou sorrindo e eu perguntei: 'O que foi, cara?' e ele disse: 'Estou muito feliz de estar aqui'. Então, ele é um cara que merece muito respeito por tudo que ele fez pelo futebol, pela seleção, o maior artilheiro da seleção. É um cara que faz muito por essa camisa, ajudou muito a minha chegada aqui, todos os outros jogadores jovens, então é um cara que representa muito e com certeza dentro de campo, quando ele melhorar, ele vai ajudar bastante a seleção", disse Paquetá.

Quando um jogador experiente transmite calma ao grupo em momentos de incerteza, ele exerce uma função que não aparece na súmula. Quando um jovem como Rayan — 17 anos, estreia pelo Brasil naquele mesmo domingo — olha para o banco e vê o maior artilheiro da história sorrindo, o efeito sobre a confiança coletiva é mensurável, mesmo que não seja quantificável em estatísticas convencionais. No Brasil de 1994, Mazinho e Mauro Silva raramente eram titulares absolutos, mas sua presença no vestiário foi citada por Romário como determinante para o equilíbrio emocional do grupo campeão em Pasadena.

O goleiro Weverton também ficou fora do amistoso — mas por opção técnica de Carlo Ancelotti, não por lesão. A diferença entre os dois casos é estrutural: Weverton poderá ser acionado a qualquer momento; Neymar depende da evolução da contusão na panturrilha para ganhar condições de jogo na Copa.

O papel histórico dos líderes lesionados em Copas do Mundo

No futebol brasileiro, há um ditado que se aplica com precisão cirúrgica a este momento: quem não tem cão caça com gato. Ancelotti, sem seu principal articulador em campo, precisou redistribuir responsabilidades — e o resultado de 6 a 2 contra o Panamá sugere que o elenco tem qualidade para funcionar sem Neymar. Mas funcionar sem ele em amistoso preparatório é diferente de funcionar sem ele em fase eliminatória de Copa do Mundo.

A história registra casos emblemáticos. Em 1962, no Chile, Pelé se machucou na segunda partida e o Brasil, mesmo assim, foi campeão — mas tinha Garrincha, que assumiu a liderança técnica e marcou dois gols na semifinal contra o Chile e dois na quartas contra a Inglaterra. Em 2002, Ronaldo chegou ao Japão e Coreia do Sul com a saúde em dúvida após as convulsões de 1998 e um período longo sem ritmo de jogo, e foi artilheiro do torneio com oito gols, incluindo dois na final contra a Alemanha. O padrão histórico indica que líderes lesionados, quando voltam, frequentemente produzem acima da média — o que torna a recuperação de Neymar um dos fatores mais relevantes da preparação brasileira.

A Seleção embarcou para os Estados Unidos na segunda-feira, 1º de junho, com Neymar no grupo. O próximo teste será no sábado, 6 de junho, em Cleveland, contra o Egito, às 19h (horário de Brasília), com transmissão da TV Globo. A estreia na Copa do Mundo está marcada para 13 de junho, contra Marrocos, em Nova Jersey — e a condição física do camisa 10 até lá será o termômetro mais observado por Ancelotti e pela comissão médica chefiada por Rodrigo Lasmar.