É um relógio suíço com pavio curto.
A imagem serve para a Copa do Mundo de 2026 como poucas: a Alemanha de Julian Nagelsmann funciona com precisão mecânica no ataque — 10 gols em três partidas, melhor marca da fase de grupos — mas carrega uma instabilidade que a derrota por 2 a 1 para o Equador, na última rodada do Grupo E, tornou impossível ignorar. O Paraguai, por sua vez, é o pavio: lento, comprimido, aparentemente inofensivo, mas capaz de explodir no momento errado para o adversário.
A volta do Paraguai 16 anos depois
A última vez que o Paraguai disputou um mata-mata de Copa do Mundo foi em 11 de julho de 2010, na África do Sul, quando perdeu para a Espanha por 1 a 0 nas quartas de final — gol de David Villa. Aquela geração, liderada por Roque Santa Cruz e Salvador Cabañas (que havia sofrido um atentado a bala em janeiro daquele ano e mesmo assim integrou o grupo), foi a mais longeva da história paraguaia em Mundiais. Passaram-se quatro Copas até o retorno às oitavas.
A campanha de 2026 na fase de grupos não inspira romantismo estatístico. A seleção de Gustavo Alfaro estreou com uma goleada sofrida de 4 a 1 diante dos Estados Unidos, anfitrião do torneio, e precisou de duas reações consecutivas para sobreviver: vitória por 1 a 0 sobre a Turquia e empate sem gols com a Austrália. Dois gols marcados em três jogos — um dos menores índices ofensivos entre os 32 classificados. A classificação veio como um dos melhores terceiros colocados, não pelo mérito de liderar um grupo.
Nas palavras do técnico Alfaro, a identidade do time é clara: intensidade física e organização sem bola. O Paraguai registrou a maior média de duelos do torneio — 121 por partida — e 95 posses de bola por jogo, a marca mais alta do Mundial. A proposta é sufocante, mas depende de um adversário que perca o ritmo.
A Alemanha dos extremos e a fragilidade que o Equador expôs
Há uma distância abissal entre a Alemanha que goleou Curaçao por 7 a 1 na estreia e a que foi derrotada por 2 a 1 pelo Equador na terceira rodada. O placar da estreia, curiosamente, evoca o 7 a 1 histórico sobre o Brasil em Belo Horizonte, no dia 8 de julho de 2014 — mas desta vez sem o peso emocional daquela semifinal. Contra o Equador, o time de Nagelsmann mostrou que a solidez defensiva ainda é um ponto de atenção.

O destaque individual da fase de grupos foi Deniz Undav, reserva que acumulou três gols e duas assistências em apenas 86 minutos de jogo — rendimento por minuto que poucos atacantes titulares da Copa podem igualar. Leroy Sané e Jamal Musiala também marcaram. A profundidade ofensiva alemã é real; a questão é se o sistema aguenta a pressão física que o Paraguai promete impor no Gillette Stadium, em Foxborough, na segunda-feira, dia 29 de junho.
"Temos de manter o nível alto, independentemente do adversário. Cada jogo no mata-mata é uma final", afirmou Nagelsmann, segundo fontes coletadas pelo SportNavo, antes do confronto.
O histórico entre Alemanha e Paraguai em Copas do Mundo
Os dois países se enfrentaram uma única vez em Copas do Mundo: nas quartas de final do Mundial de 2010, na África do Sul. A Alemanha venceu por 1 a 0, com gol de Thomas Müller — o mesmo Müller que, naquela edição, terminou artilheiro com cinco gols e venceu a Bola de Bronze. O Paraguai havia eliminado o Japão nas oitavas, em disputa por pênaltis, após 0 a 0 no tempo normal. A eliminação para os alemães encerrou a melhor campanha da história paraguaia.
Em termos de retrospecto geral em Copas, a Alemanha acumula 67 vitórias em 109 jogos disputados, com 224 gols marcados e quatro títulos (1954, 1974, 1990 e 2014). O Paraguai tem 17 vitórias em 37 jogos, com 50 gols marcados e nenhum título. A diferença de escala histórica é evidente, mas Copas do Mundo já demonstraram repetidamente que o mata-mata tem lógica própria.
"O Paraguai nunca foi uma equipe de belas estatísticas ofensivas. Somos uma equipe de resultados", declarou um integrante da comissão técnica de Alfaro, em entrevista reproduzida pela imprensa sul-americana.
O expected goals (xG) paraguaio na fase de grupos está entre os mais baixos do torneio — sinal de que as chances criadas foram poucas e de baixa qualidade. Para eliminar a Alemanha, Alfaro precisará que sua proposta de intensidade física produza erros alemães em transições, e que o goleiro e a defesa repitam as atuações sólidas das últimas duas partidas. A Alemanha, por sua vez, entra como favorita clara, mas carrega a memória recente da derrota para o Equador como prova de que o pavio ainda está aceso — e pode queimar nos momentos mais inconvenientes. O jogo acontece no dia 29 de junho, no Gillette Stadium, às 16h (horário de Brasília) — e uma derrota alemã seria a maior surpresa das oitavas de final desta Copa.










