Uma armadura com rachadura por dentro. A imagem é precisa demais para ser ignorada.
Leandro Paredes jogou a final da Copa do Mundo de 2026 com uma fissura nas costelas. Não uma suspeita, não um desconforto vago — uma fratura confirmada, gerenciada com antiinflamatórios, tratamento diário e uma dose considerável de silêncio. A revelação veio quatro dias depois da derrota para a Espanha em New Jersey, na zona mista de La Bombonera, após a vitória do Boca Juniors por 1 a 0 sobre o O'Higgins do Chile pela Copa Sudamericana. O mesmo jogador que mal conseguia respirar fundo durante o torneio entrou em campo pelos 90 minutos e ainda deu a assistência para o gol de Miguel Merentiel. Mas o que ficou do lado de fora do campo é mais pesado do que qualquer resultado.
A fissura que Paredes escondeu durante o Mundial
A lesão surgiu durante a fase de grupos, com o impacto mais agudo sentido logo após o duelo contra o Egito.
"Os primeiros dias foram duros porque tinha uma fisurita, mas agora estou melhor. O dolor forte chegou depois do jogo com o Egito. A partir daí fomos levando bem, com traumatologistas e antiinflamatórios, para aguentar o máximo que podia", detalhou Paredes à ESPN. A equipe médica da Argentina administrou o quadro ao longo de semanas, permitindo que o volante de 32 anos completasse a campanha até a decisão — mas a um custo físico que só ele e o staff conheciam com precisão.
O impacto dessa condição sobre a final não é especulação. Paredes é um dos jogadores mais dependentes da mobilidade de tronco no elenco argentino: sua capacidade de girar rapidamente, absorver pressão e distribuir em curto espaço é o que define seu jogo. Com uma fissura nas costelas, cada disputa de bola vira uma equação de risco. Que ele tenha completado os 90 minutos em New Jersey diz mais sobre determinação do que sobre condições ideais de jogo.
Isso não explica a derrota. Mas contextualiza.
A Espanha foi superior e Paredes não deixou espaço para narrativas alternativas
Nas horas seguintes à final, as redes sociais argentinas fermentaram teorias conspiratórias sobre o resultado — árbitros, irregularidades, contexto político. Paredes não teve paciência para nenhuma delas.
"Se é por tudo o que escuto, tenho que enlouquecer. Tudo o que se disse antes, durante e depois do Mundial... Nada. A Espanha fez um grande jogo, foi superior a nós na final e é um justo campeão", afirmou com a mesma objetividade que usa para dar um passe em pressão. E foi além:
"Nós não temos que esclarecer nada. Jogamos uma final de Copa do Mundo e repito: a Espanha foi superior, fez melhor, é justa campeã".
A postura é relevante porque contrasta com o silêncio coletivo que tomou conta da delegação argentina imediatamente após o apito final em New Jersey. O único que falou à imprensa naquele momento foi o técnico Lionel Scaloni. Os jogadores optaram por redes sociais e silêncio. Paredes, quatro dias depois, escolheu a transparência — sobre a lesão, sobre a superioridade espanhola, sobre o que vem a seguir.
O que vem a seguir é a parte que mais interessa ao futebol argentino agora.
O futuro de Paredes na Albiceleste e o ciclo que pode estar no fim
Scaloni já havia colocado em dúvida sua própria continuidade além de dezembro de 2026. Nicolás Otamendi confirmou que seu ciclo na seleção chegou ao fim. Lionel Messi ainda não se pronunciou publicamente — e o fato de não ter se despedido no vestuário é lido como sinal positivo por parte do entorno da seleção, mas não é garantia de nada. Paredes entrou nessa lista de incertezas com uma declaração direta:
"Para muitos vai ser o momento de pensar a decisão de continuar ou não. Foi um processo lindo e espetacular, mas vai ser muito difícil manter o nível e que o grupo continue funcionando da mesma maneira".
Quando perguntado diretamente sobre sua posição pessoal, o volante não fugiu: "Não sei se vou continuar na seleção. É um processo, tem que ser digerido, pensado com calma, e haverá que falar com o treinador." A frase tem o peso de quem passou oito anos construindo algo raro — uma seleção que ganhou a Copa América de 2021, a Finalíssima de 2022, o Mundial do Qatar em 2022 e chegou à final novamente em 2026 — e agora olha para esse ciclo com a consciência de que replicar esse nível de coesão é estruturalmente improvável.
Paredes completou os 90 minutos contra o O'Higgins na quinta-feira, deu uma assistência que ele mesmo brincou ter aprendido com Messi após 50 dias de convivência, e recebeu ovação da torcida do Boca antes e depois do jogo. A Copa Sudamericana segue: o Boca enfrenta o O'Higgins na partida de volta no dia 29 de julho, em Santiago, com a vantagem do resultado de La Bombonera. Se Paredes vai carregar a camisa da Albiceleste novamente depois disso, a resposta chegará até dezembro de 2026.









