Se você cobrisse a partida apenas pelos primeiros 60 minutos, concluiria que a Argentina tem dois camisa 10 — e que o de número reserva é assustadoramente bom. Lionel Messi ficou no banco enquanto Leandro Paredes tomava conta do jogo contra a Jordânia com uma autoridade que lembrava, em textura e ritmo, aqueles Redondos e Valderramas que dominaram os anos 90 europeus sem precisar correr mais do que o necessário. A Argentina venceu por 3 a 1, fechou a fase de grupos com 9 pontos em 9 disputados e mandou um recado ao mata-mata que vai além do placar.
O momento em que Paredes parou de ser volante e virou maestro
Há uma cena específica que define o jogo. Aos 34 minutos, com a Argentina já vencendo, Paredes recebeu a bola de costas para o gol, girou sobre o eixo esquerdo como uma pião em câmera lenta e lançou um passe de 40 metros que cortou três linhas de marcação jordaniana — a trajetória da bola era curva, quase preguiçosa, do tipo que os italianos chamam de pallonetto e que Andrea Pirlo transformou em marca registrada entre 2006 e 2012. O estádio reagiu antes mesmo do receptor tocar na bola. Esse passe, mais do que qualquer estatística, explica por que o volante da Roma terminou o jogo como MVP da partida.
Tecnicamente, Paredes operou como um regista clássico — aquele pivô de distribuição que a Itália dos anos 80 e 90 produzia em série, de Ancelotti a Albertini, passando pelo próprio Pirlo. A diferença é que o argentino acrescenta uma agressividade posicional que os europeus raramente combinavam com tanta elegância de passe. Nas palavras do portal espanhol Marca, que acompanhou o jogo de perto, Paredes "tomou as rédeas do meio-campo e com seu jogo encantou a Seleção Argentina rumo a uma vitória fácil, mas com muita vistosidade" — descrição que, traduzida ao contexto histórico, equivale a dizer que ele jogou como um Zidane funcional, sem a genialidade do francês mas com eficiência superior.
"Quase nem se viu errar em nenhuma tomada de decisão", registrou a análise da Marca, resumindo em uma frase o que separa um bom jogo de um jogo de referência.
Messi em 30 minutos e o gol que ninguém esperava deixar de comemorar
O paradoxo da noite foi este: Messi entrou aos 60 minutos, jogou apenas meia hora e ainda assim quase roubou o holofote de Paredes. Não porque o jogo precisasse dele — o placar já estava construído — mas porque Messi é Messi, e Messi cobrou falta. A bola foi para o ângulo com aquela curvatura característica que oito Bolas de Ouro ajudaram a mitificar. Gol. Terceiro gol pessoal dele nesta Copa do Mundo, todos em menos de 90 minutos acumulados em campo.
Esse tipo de rendimento por minuto jogado não tem paralelo histórico recente. Na Copa de 1986, Diego Maradona jogou todos os minutos disponíveis e marcou cinco gols — média de 0,045 gols por minuto. Messi, nesta fase de grupos de 2026, opera em ritmo superior a isso com carga de trabalho deliberadamente reduzida por Scaloni. A gestão é cirúrgica: poupar o corpo para o mata-mata, manter o ritmo de gol para não enferrujar o instinto. Trinta minutos por jogo quando o resultado já está encaminhado é uma estratégia que o Barcelona de Guardiola usava com Messi em 2010 e 2011, quando o catalão entendia que preservar era tão importante quanto escalar.
O que a campanha perfeita revela sobre a Argentina que vai ao mata-mata
Nove pontos em três jogos não é, por si só, uma raridade para a Argentina em Copas. O que chama atenção em 2026 é a qualidade coletiva revelada justamente nos jogos em que Messi não foi titular ou foi poupado. Nas edições de 1998 e 2006, a Argentina também fez campanha perfeita na fase de grupos — e em ambas as ocasiões entrou no mata-mata como favorita, caindo nas quartas de final. A diferença estrutural desta equipe é a profundidade do elenco: Paredes, nesta Copa, demonstrou que a Albiceleste não colapsa sem o camisa 10. Ela simplesmente muda de textura.
A atuação do volante funcionou como uma corrente de ar quente que sobe devagar mas aquece tudo ao redor — imperceptível nos primeiros minutos, inevitável quando você olha para o resultado final. Cada passe de fantasia que ele executou foi precedido por um posicionamento discreto, quase invisível, que só se torna óbvio quando você assiste o lance de novo. Isso é inteligência tática de alto nível, o tipo que a Bundesliga dos anos 2000 — com Ballack e Schweinsteiger — produzia sistematicamente e que raramente aparece em volantes sul-americanos com tanta clareza.
"Exteriores, passes de fantasia... um repertório que o camisa 10 da campeã do mundo desfrutou do banco", descreveu a cobertura espanhola, sintetizando o que foi, na prática, uma transferência temporária de protagonismo.
A Argentina estreia no mata-mata nas oitavas de final no próximo sábado, dia 4 de julho, contra o segundo colocado do Grupo K — adversário que ainda será definido na última rodada da fase de grupos. Scaloni terá Messi descansado, Paredes em alta e um elenco que acabou de provar, por 60 minutos contra a Jordânia, que sabe jogar sem depender de ninguém específico. Isso, mais do que qualquer 9/9, é o dado que os adversários do mata-mata deveriam perder o sono estudando.










