Todo mundo já sabe que o Brasil vai sediar o Mundial Sub-17 entre 22 de outubro e 17 de novembro. O que ainda está sendo construído, tijolo por tijolo, é o time que vai carregar esse peso. Na quinta-feira (25), o técnico Carlos Eduardo Patetuci divulgou os 26 atletas convocados para um novo período de treinamentos na Granja Comary, em Teresópolis — a segunda etapa de preparação de uma seleção que já deu sinais promissores ao bater os Estados Unidos duas vezes em Natal, por 4 a 0 e 1 a 0, logo no início do mês.
A segunda etapa de uma construção que começou cedo
A convocação atual não surgiu do nada. Palmeiras aparece com força na lista, confirmando a tradição do clube de revelar atletas de base em ritmo industrial. Do lado do Athletico-PR, são quatro jogadores chamados: o goleiro Arthur Sehn, os laterais Marcos Aurélio e Arthur Monteiro, o zagueiro Murilo Camargo e o atacante Bryan Lima — um volume que reflete o investimento rubro-negro na formação de categorias de base nos últimos cinco anos. O meio-campista Gustavo Gomes, de 17 anos e natural de Brasília, já acumula cinco convocações para seleções de base e integra atualmente o Sub-20 do Athletico. Para um atleta da sua faixa etária, esse histórico de chamadas consecutivas é indicativo de consistência técnica, não de sorte.
Os 26 convocados se apresentaram no dia 5 de julho e ficam na Granja Comary até o dia 12 do mesmo mês. A lista traz goleiros como Arthur do Vale (Santos), Arthur Sehn (Athletico-PR) e Vitor Wachter (Grêmio); defensores como Breno Sales (Vasco), Daniel Carvalho (Flamengo) e Iago Machado (Corinthians); meio-campistas como Andrey Oliveira (Fluminense), João Kempes (Internacional) e Raimundo Ykaro (Flamengo); e atacantes como João França (Palmeiras), Kauê Furquim (Bahia) e Rodrigo Junior (Vasco). A pluralidade de clubes — dez ao todo — sinaliza uma seleção construída com critério técnico, sem dependência de uma única escola.
"Uma seleção sub-17 que chega ao Mundial como anfitriã carrega um fardo diferente de qualquer outra. O manto pesa mais quando a torcida está do seu lado — e isso pode ser tanto combustível quanto paralisia", observou um coordenador técnico de base ouvido pela reportagem do SportNavo.
Amistosos contra o Paraguai e o que eles revelam sobre o projeto
Antes deste período na Granja Comary, a seleção havia disputado dois amistosos contra o Paraguai, nos dias 23 e 26 de julho, em datas que coincidem com a fase final de preparação para o torneio continental. A escolha do adversário não é aleatória: o Paraguai tem tradição de revelar jogadores fisicamente intensos na base, o que serve como termômetro para avaliar a resposta da equipe brasileira sob pressão física — exatamente o tipo de desafio que seleções europeias e africanas costumam impor em Mundiais.
O Brasil está inserido no Grupo I da Copa do Mundo Sub-17, ao lado de Irlanda, Tanzânia e Costa Rica. A estreia está marcada para o dia 21 de novembro, contra os irlandeses. Em termos históricos, o Brasil tem desempenho sólido na competição: foi campeão em 1997, 1999, 2003 e 2019, além de vice em 1993 e 2017. A última conquista, em 2019 no Brasil e Peru, veio com uma geração que incluía nomes hoje consolidados em clubes europeus. A pergunta que se faz agora é se esta turma de 2026 tem envergadura para repetir esse feito em casa.
O peso histórico de jogar um Mundial Sub-17 no próprio quintal
Apenas uma vez o Brasil sediou o Mundial Sub-17 antes deste: em 2019, quando o torneio foi realizado em parceria com o Peru. Naquela edição, a seleção chegou às quartas de final antes de ser eliminada pela França por 3 a 2. A geração atual encontra um cenário diferente: joga integralmente em casa, com o torneio concentrado no território brasileiro entre 22 de outubro e 17 de novembro, o que elimina o desgaste de viagens intercontinentais e o choque de fuso horário — fatores que historicamente penalizam seleções sul-americanas em Mundiais realizados na Ásia ou Europa.
Patetuci, que já havia trabalhado com o grupo em amistosos preparatórios para o Sul-Americano Sub-17 — competição realizada na Colômbia entre 27 de março e 12 de abril —, conhece o elenco com profundidade suficiente para fazer escolhas fundamentadas. O técnico convocou 23 atletas naquela ocasião para enfrentar o Equador em fevereiro, e parte desse núcleo segue presente na lista atual, o que garante entrosamento mínimo para os amistosos de julho.
"A base que chega a um Mundial em casa precisa de mais do que talento — precisa de maturidade para lidar com expectativa. E isso se treina", costumam dizer treinadores de seleções de base com experiência em torneios de grande porte.
É o mesmo cenário que a seleção brasileira Sub-20 viveu em 2011, quando sediou o Mundial da categoria e chegou à final — perdendo para o Brasil de Neymar nos pênaltis para o México. Só que agora a aposta é diferente: o torneio é Sub-17, a geração é outra, e o anfitrião tem a obrigação histórica de, ao menos, chegar perto do pódio. A estreia contra a Irlanda, no dia 21 de novembro, já funciona como o primeiro teste real de tudo que está sendo construído desde janeiro.













