Se o Brasileirão Série B de 2026 parasse agora, Patrick Bezerra do Nascimento já teria justificado cada quilômetro da viagem de volta ao futebol nacional. Trinta e um jogos disputados com a camisa 8 do Remo — número que, para um meia de 33 anos que atravessou a segunda divisão de volta depois de noites europeias, significa muito mais do que aparenta na tabela. Mas o campeonato não para, e a história de Patrick ainda está sendo escrita nas margens do Baenão.
O dia em que tudo mudou
O ano de 2022 foi o divisor de águas que poucos esperavam que viesse de um meia de físico mediano — 176 cm, 81 kg — que nunca havia sido tratado como estrela absoluta em nenhum clube que passou. No São Paulo, Patrick encontrou o melhor futebol de sua carreira registrada em números: 31 jogos na Série A com cinco gols e quatro assistências, mais três gols em oito partidas pela Copa do Brasil e uma campanha expressiva na Copa Sul-Americana, onde marcou três vezes em dez aparições. Ao todo, foram 55 jogos com a camisa tricolor paulista naquela temporada, somando contribuições diretas que poucos meias do elenco conseguiram igualar.
Aquele São Paulo de 2022 era um time em transição, buscando identidade técnica e consistência. Patrick não era o nome que aparecia nas manchetes, mas era o jogador que aparecia nos resultados — o tipo de função que o futebol moderno aprendeu, tardiamente, a valorizar. Quem acompanhou o Morumbi naquele período viu um meia capaz de aparecer na área sem avisar, de conectar linhas no meio-campo com inteligência e, sobretudo, de se manter disponível quando o grupo mais precisava.
Antes do divisor de águas
O Rio de Janeiro de 1992, onde Patrick nasceu em 29 de julho, produziu gerações de jogadores que precisaram sair da cidade para se encontrar no futebol. A trajetória de Patrick tem essa marca — a de quem construiu carreira longe de casa, acumulando experiências em contextos distintos antes de chegar ao momento de maior visibilidade. Ao longo de 114 jogos acumulados na carreira, com dez gols e sete assistências distribuídas em diferentes competições e clubes, ele foi lapidando um perfil que nunca foi o do meia-artilheiro, mas o do meia-organizador, aquele que serve mais do que finaliza.
A passagem pelo Atlético-MG entre 2023 e início de 2024 trouxe outro tipo de aprendizado. Em um clube que vivia temporadas de alto nível competitivo, Patrick disputou a Libertadores — onze jogos na competição continental, com uma assistência — e contribuiu com 23 aparições na Série A de 2023. Não era um protagonista no Galo, mas a exposição àquele ambiente de exigência máxima, com pressão de resultados e qualidade de elenco elevada, deixou marcas que aparecem no comportamento em campo: a leitura de jogo apurada, a capacidade de se inserir em sistemas táticos variados sem perder a consistência.
Como o futebol mudou ao redor dele
O que exatamente um meia de 33 anos ainda tem a oferecer quando o futebol brasileiro privilegia cada vez mais a velocidade e a verticalidade?
A resposta de Patrick em 2026 tem sido pragmática: experiência como moeda de troca. No Remo, que disputa a Série B em busca de objetivos concretos, um jogador com passagens por Libertadores, Copa Sul-Americana e Série A de alto nível não é apenas mais um nome no elenco — é um ponto de referência para os mais jovens e um termômetro de exigência para o grupo. Com duas assistências em 31 jogos na temporada atual, os números ofensivos são modestos, mas a contribuição de um meia nessa fase da carreira raramente se mede apenas em estatísticas de criação direta. Em matéria do SportNavo, a análise de perfis como o de Patrick exige olhar para o contexto antes de olhar para a planilha.
O futebol brasileiro da Série B tem uma lógica própria: desgaste físico intenso, viagens longas, estádios adversos, pressão de acesso que consome elencos inteiros. Nesse ambiente, um meia que já jogou 31 partidas na temporada sem interrupções significativas demonstra algo que não aparece em qualquer dado estatístico — durabilidade e comprometimento. Patrick completou 33 anos em julho de 2025, e está na fase em que jogadores da sua posição costumam ou desaparecer da Série B ou se tornar referência dentro dela.
O próximo capítulo já começou
A segunda metade do Brasileirão Série B de 2026 vai colocar o Remo diante de decisões táticas que provavelmente passam pelo papel de Patrick. O clube paraense tem histórico de alternância entre as divisões, e a luta por permanência ou por acesso define o tom de cada rodada. Para um meia que já viveu ambientes de pressão em São Paulo e Belo Horizonte, o cenário é diferente em escala, mas não em exigência emocional.
Aos 33 anos, com carreira construída em etapas — algumas luminosas, como aquela temporada de 2022 no Tricolor paulista, outras de adaptação, como os meses iniciais em Minas Gerais — Patrick chega ao Remo não como um fim de linha, mas como alguém que ainda tem capítulos a escrever. A Série B, que muitos tratam como rebaixamento simbólico de carreiras, foi para outros meias brasileiros o ambiente onde se redescobriram. A questão não é se Patrick ainda tem condições. A questão, concreta, é esta: se o Remo chegar às rodadas finais da Série B brigando por uma vaga de acesso, Patrick vai ter acumulado minutos suficientes para ser o meia titular da decisão — ou a pressão do momento vai abrir espaço para um nome mais jovem no meio-campo azulino?












