Celebrar um gol pode custar até seis partidas de suspensão. Paulinho fez o gesto de silêncio para a torcida do Flamengo no Maracanã no último sábado (23), levou um cartão amarelo na hora — e agora enfrenta um processo no STJD que pode tirá-lo do Palmeiras por um mês inteiro. O paradoxo é esse: o lance que durou três segundos pode ter consequências que se estendem por semanas.

O artigo 258-A e o que ele já puniu antes

A Procuradoria do STJD formalizou a denúncia nesta terça-feira (26) com base no artigo 258-A do CBJD, que tipifica a conduta de "provocar o público durante a partida, prova ou equivalente". A pena prevista vai de 2 a 6 jogos de suspensão — e o intervalo entre o mínimo e o máximo é tão grande quanto a distância entre Porto Alegre e Fortaleza: dá para ir longe dependendo do caminho que o tribunal escolher.

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O mesmo artigo já foi aplicado em casos anteriores no futebol brasileiro. Jogadores punidos por gestos direcionados à torcida adversária costumam receber entre 3 e 4 jogos quando a infração é isolada. O problema de Paulinho é que a situação não ficou isolada.

O árbitro Davi de Oliveira Lacerda registrou na súmula da partida um "risco de tumulto generalizado" após a comemoração. Esse registro é o detalhe que pode fazer o tribunal pender para o teto da pena — e aí vem o problema.

A briga que a câmera registrou e o STJD vai usar

A celebração de Paulinho desencadeou uma confusão entre atletas das duas equipes no gramado do Maracanã. A arbitragem controlou rapidamente, mas a súmula já estava escrita. No STJD, a briga generalizada não é apenas contexto — é agravante.

Quando um gesto individual resulta em confronto físico entre equipes, os tribunais desportivos brasileiros tendem a considerar o impacto coletivo do ato, não apenas a intenção original do atleta. Paulinho pode argumentar que comemorou dentro do que o futebol permite, mas o rastro que a comemoração deixou é documentado e público.

A presidente do Palmeiras, Leila Pereira, foi direta na coletiva de segunda-feira (25):

"Em relação à comemoração, também acontece no meu estádio, acho que faz parte do futebol e do jogo. Quem tem que determinar o que é correto ou não é a arbitragem. Eu não acho desrespeito você comemorar da forma que foi comemorada ontem a vitória do Palmeiras."

O argumento de Leila é válido no campo da opinião — mas o STJD não julga intenção, julga conduta tipificada. E a conduta está descrita na súmula com detalhes suficientes para sustentar a denúncia.

O que o Palmeiras perde se Paulinho ficar fora

O timing da possível suspensão é o pior possível para Abel Ferreira. O Palmeiras tem compromissos imediatos: enfrenta o Junior Barranquilla pela Libertadores no dia 28 de maio, às 19h, e depois recebe a Chapecoense pelo Brasileirão no dia 31. Dependendo da velocidade do julgamento no STJD, Paulinho pode estar fora de ambas.

O atacante fechou o placar em 3 a 0 no Maracanã, partida em que o Flamengo ficou com dez jogadores desde os 21 minutos após o cartão vermelho de Carrascal. Foi o terceiro gol de uma vitória que o comentarista Felipe Melo, da TV Globo e do Seleção SporTV, colocou em perspectiva histórica:

"O Palmeiras tem que comemorar muito essa vitória, porque tem muito tempo que o Palmeiras não vencia o Flamengo. A vitória tem que ser muito comemorada, com pés no chão."

Melo ainda lembrou que o Flamengo venceu o Palmeiras na final da Libertadores mais recente entre os dois clubes, e que o campeonato tem "muito tempo pela frente" — o que coloca a comemoração de Paulinho em um contexto de rivalidade acumulada que o STJD não vai considerar, mas que explica o tamanho da provocação aos olhos de quem estava no estádio.

Quanto tempo o tribunal leva e o que Paulinho pode fazer

Após a denúncia formal desta terça (26), o STJD marca a data do julgamento. O atleta pode apresentar defesa prévia e, se condenado, recorrer ao pleno do tribunal. Na prática, casos como esse costumam ser julgados em duas a três semanas após a denúncia — o que significa que Paulinho pode já estar fora do jogo contra o Coritiba, ainda sem data definida no Brasileirão.

Se a pena ficar em 2 jogos, o impacto é administrável. Se o tribunal considerar a briga generalizada como agravante e chegar a 5 ou 6 partidas, o Palmeiras perde seu camisa 10 em uma fase decisiva tanto na Libertadores quanto no Brasileirão 2026, onde o clube briga pela liderança. O julgamento vai definir se três segundos de comemoração valem um mês fora de campo.