Todo mundo sabe que o 1899 Hoffenheim atravessa a Bundesliga 2025/2026 em modo de sobrevivência. O que pouca gente para para analisar é o nome que aparece no relatório de presença com mais regularidade do que qualquer outro no ataque: Paulo Victor de Mileo Vidotti, o atacante da camisa 19, que esteve em campo em 34 jogos desta temporada sem marcar um gol sequer. O paradoxo grita. E é exatamente ele que conta a história.
Onde ele está no jogo global
Sinsheim, interior da Alemanha. O estádio do Hoffenheim tem capacidade para pouco mais de 30 mil pessoas, e nos dias de semana o vento frio que desce do Kraichgau faz a grama tremer antes mesmo do apito inicial. É nesse ambiente — sem glamour de metrópole, sem holofote de Champions — que o atacante se consolidou como presença constante no esquema do clube nesta temporada. Trinta e quatro partidas não acontecem por acaso num elenco que briga contra o rebaixamento. Significa que o técnico confia, que o jogador aparece, que alguma coisa ele entrega mesmo quando o marcador não registra.
No contexto europeu de 2025/2026, atacantes jovens com alto número de aparições e produção ofensiva reduzida formam uma categoria conhecida: o chamado striker de sistema, aquele que trabalha para o coletivo enquanto aguarda o momento de estourar individualmente. Não é posição confortável. É, porém, uma escola.
O que os números dizem na comparação
Comparar um atacante de 34 jogos e zero gols numa temporada com pares da mesma posição na 1899 Hoffenheim exige honestidade antes de veredicto. Os números desta temporada são o que são: presença máxima, produção direta nula. Mas isolar 2025/2026 sem olhar para o que veio antes seria desonesto com a trajetória.
Em temporadas anteriores, o atacante acumulou ao longo de sua carreira 90 jogos, 22 gols e 12 assistências — números que incluem passagens por Köln II, 1. FC Köln, SpVgg Greuther Fürth e o próprio Hoffenheim. O pico de produção registrado foram 10 gols e 6 assistências em 25 jogos pelo 1. FC Köln na 2. Bundesliga em 2024, uma temporada que funcionou como cartão de visita para a Bundesliga. Atacantes da mesma faixa etária que conseguiram uma marca equivalente naquele nível raramente passaram por uma janela inteira sem produção direta logo em seguida — a adaptação ao salto de divisão cobra seu preço, e o preço desta vez tem sido alto.
O SportNavo mapeou o perfil de atacantes jovens que fizeram essa transição 2. Bundesliga–Bundesliga nos últimos ciclos: a média de queda na taxa de finalização por jogo é significativa na primeira temporada completa no nível mais alto. Nenhum dado desta temporada contraria esse padrão.
Onde ele se distingue dos rivais
Decidiu.
Essa é a palavra que resume a mudança mais importante da trajetória do atacante: em 2024, quando o Köln rebaixou da Bundesliga para a 2. Bundesliga após a temporada de 12 jogos sem gols na elite, ele não recuou. Assinou com o Hoffenheim e escolheu continuar no nível mais alto, aceitando o risco de ser coadjuvante antes de ser protagonista. Poucos atacantes jovens com a mesma faixa de produção têm coragem para essa aposta.
O que o diferencia de concorrentes diretos na posição não é o número de gols nesta temporada — é a capacidade de manter relevância tática sem eles. Trinta e quatro partidas numa equipe que luta contra o rebaixamento significam que o jogador cumpre funções que o marcador não captura: pressão alta, movimentações que abrem espaço, disputas de bola que desgastam defesas adversárias. São contribuições invisíveis nos relatórios de gols, mas visíveis nos olhos de qualquer técnico que precisa de volume de trabalho no terço ofensivo.
Sua passagem pela seleção alemã sub-21 nas eliminatórias do Campeonato Europeu Sub-21 da UEFA — duas partidas registradas — também indica que o radar técnico além dos clubes ainda não o perdeu de vista, mesmo numa temporada de produção direta zero.
A trajetória que aponta o teto
A linha de carreira tem uma lógica própria. Formado no sistema do Köln, revelado pelo Köln II na Regionalliga com 4 gols em 7 jogos no mata-mata de rebaixamento de 2022, chegou à Bundesliga ainda jovem pelo clube que o formou. Foram 12 jogos na elite naquele ciclo, sem gols, mas suficientes para mostrar que o corpo e a cabeça suportavam o ambiente. O empréstimo ao Greuther Fürth na temporada seguinte foi o ponto de inflexão: 32 jogos, 6 gols e 5 assistências na 2. Bundesliga construíram a base de confiança que abriu a porta para o Köln apostá-lo de vez em 2024, com resultado expressivo — 10 gols e 6 assistências em 25 partidas.
A trajetória, lida em linha reta, aponta um atacante que aprende por ciclos. O ciclo atual é duro. O Hoffenheim não vive sua melhor fase, o atacante não vive sua melhor fase, e a Bundesliga 2025/2026 não tem dado espaço para romantismo. Mas quem olha para o padrão — Regionalliga, 2. Bundesliga, Bundesliga, crise, retomada — percebe que cada queda foi seguida de uma resposta com dados melhores do que os anteriores.
Nos próximos 12 meses, os cenários realistas são dois: consolidação no Hoffenheim com retomada de produção direta caso o clube sobreviva ao rebaixamento, ou uma nova janela num clube que ofereça contexto tático mais favorável ao perfil de atacante que ele demonstrou ser no Köln em 2024. Nenhum dos dois caminhos é garantido. O que é garantido está no dado mais simples desta temporada inteira.
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