Quando La Casa de Papel estreou na Antena 3 em 2017, a televisão espanhola não produzia um thriller de assalto com aquela densidade narrativa desde El Internado, em 2007. Cada episódio funcionava como uma corrida contra o relógio — o Professor calculava variáveis, a polícia apertava o cerco, e o espectador ficava pregado na tela sem conseguir prever o próximo movimento. Nove anos depois, o universo criado por Álex Pina chegou a 15 de maio de 2026 com Berlim e a Dama com Arminho, segunda temporada do spin-off protagonizado por Pedro Alonso — e o que se vê na tela é a distância cada vez maior entre o que a franquia foi e o que ela se tornou.

O golpe em Sevilha que virou novela de aristocratas

A premissa tinha potencial real. Berlim — nome de guerra de Andrés de Fonollosa — e Damián reúnem a equipe em Sevilha para um assalto que usa como fachada o roubo da Dama com Arminho, obra de Leonardo da Vinci pintada por volta de 1490 e hoje exposta no Museu Nacional de Cracóvia, na Polônia. O alvo verdadeiro é o Duque e a Duquesa de Málaga, um casal da aristocracia espanhola que tentou chantagear Berlim e acabou despertando sua sede de vingança. Trama de assalto com camadas de manipulação política e arte renascentista como cenário — no papel, soa como o melhor da franquia.

O problema está na execução. Segundo a crítica do Observatório do Cinema, a série "parece mais interessada em melodrama do que no próprio roubo". Romances dominam episódios inteiros, os conflitos pessoais entre os membros da equipe consomem espaço que deveria ser ocupado por tensão e planejamento, e as reviravoltas "quase sempre soam mecânicas e previsíveis". O resultado é uma temporada que esquece sistematicamente que deveria ser um thriller.

"Berlim continua sendo um personagem magnético", reconhece a crítica do Observatório do Cinema, "mas agora preso em uma história que parece mais interessada em melodrama do que no próprio roubo."

A comparação com a série original é implacável. Em La Casa de Papel, cada episódio tinha urgência narrativa — o espectador sabia que qualquer erro custaria vidas. Em Berlim e a Dama com Arminho, a urgência foi substituída por subtramas amorosas que "raramente conseguem criar emoção verdadeira", segundo a mesma análise. A relação entre Berlim e Candela, personagem interpretada por Inma Cuesta, ocupa o centro emocional da temporada, mas o final deixa os dois separados — ela reconhece a natureza manipuladora do protagonista e decide não segui-lo.

Pedro Alonso carrega uma franquia que o roteiro não merece

Há um paradoxo claro em Berlim e a Dama com Arminho: o ator mais experiente da produção entrega a performance mais consistente, mas o texto não acompanha. Pedro Alonso retorna ao papel de Andrés de Fonollosa com a mesma precisão que tornou Berlim um dos personagens mais memoráveis da televisão espanhola dos últimos anos — arrogância calculada, charme que esconde frieza, e um humor negro que funciona mesmo quando o roteiro falha ao redor.

O elenco de apoio inclui Michelle Jenner, Tristán Ulloa, Begoña Vargas, Julio Peña Fernández e Joel Sánchez, além da adição de personagens ligados ao mercado clandestino de arte espanhol. A crítica aponta, no entanto, que "a equipe nunca desenvolve a mesma química vista na série original" e que "boa parte do elenco parece existir apenas para alimentar subtramas amorosas". Falta a aquela tensão horizontal entre personagens que fazia a dinâmica de La Casa de Papel funcionar — a desconfiança mútua, os segredos que vazavam no momento errado, a lealdade testada sob pressão extrema.

"Os personagens secundários sofrem. A equipe nunca desenvolve a mesma química vista na série original", resume a análise do Observatório do Cinema sobre a nova temporada.

A produção acerta em aspectos técnicos. A fotografia quente de Sevilha, os cenários luxuosos e a direção estilizada mantêm a identidade visual da franquia. Uma sequência de perseguição de carros está entre os melhores momentos da temporada e demonstra que o universo ainda produz ação visualmente competente quando se concentra nisso. O problema é que esses momentos são ilhas em um mar de drama pessoal que não sustenta o ritmo.

O golpe em Sevilha que virou novela de aristocratas Pedro Alonso salva o que o r
O golpe em Sevilha que virou novela de aristocratas Pedro Alonso salva o que o r

O desgaste de uma fórmula que a Netflix esticou além do limite

A trajetória do universo de La Casa de Papel na Netflix é um estudo de caso sobre os riscos do excesso. A série original encerrou sua quinta e última temporada em dezembro de 2021 com audiência global consolidada. Em 2023, a Netflix lançou Berlim — primeira temporada do spin-off, ambientada em Paris e centrada em um roubo de joias de 44 milhões de euros. Agora, em 2026, chega a segunda temporada com novo cenário, novo golpe e os mesmos problemas estruturais amplificados.

A fórmula de Álex Pina funcionou porque tinha limite. O assalto ao Banco da Espanha durou episódios suficientes para criar tensão sem se tornar repetitivo. O spin-off, ao tentar replicar essa estrutura indefinidamente com personagens secundários da série original, expõe uma limitação fundamental: Berlim era fascinante como enigma. Como protagonista de múltiplas temporadas, os mistérios se dissolvem e o que sobra é um personagem cujos padrões de comportamento — manipulação, romance impossível, golpe dentro do golpe — já não surpreendem.

O Adorocinema aponta que Berlim e a Dama com Arminho "equivale à segunda temporada do spin-off de 2023", mesmo sendo divulgada como título separado — uma decisão de marketing que não disfarça o desgaste narrativo. A série termina com Berlim escapando das autoridades e saindo "emocionalmente diferente" após os acontecimentos com Candela, mas sem qualquer ruptura real com a fórmula estabelecida. O personagem continua incapaz de abandonar sua vida de golpes e manipulação — e a franquia, aparentemente, também.

A Netflix ainda não confirmou uma terceira temporada de Berlim, mas os números de audiência das primeiras semanas de exibição, esperados até o final de junho de 2026, serão o termômetro definitivo sobre o futuro do universo de La Casa de Papel na plataforma. Se a resposta do público repetir o padrão da primeira temporada, Álex Pina terá sua resposta antes de julho.