Em 2002, Luiz Felipe Scolari tomou uma decisão que parecia arriscada: levou Kaká para a Copa do Mundo com apenas 20 anos, sem ser titular absoluto em nenhum clube. O jovem meia entrou em campo poucas vezes, mas a experiência moldou o jogador que viria a ser Bola de Ouro cinco anos depois. Agora, às vésperas de anunciar os 26 convocados para a Copa do Mundo de 2026, Carlo Ancelotti enfrenta dilemas parecidos — e um deles tem endereço fixo na Gávea.

O treinador italiano embarca neste domingo (17) para Curitiba, onde acompanhará pessoalmente o confronto entre Flamengo e Athletico-PR, às 19h30 (horário de Brasília), na Arena da Baixada, válido pela 16ª rodada do Campeonato Brasileiro. Trata-se da última observação presencial de Ancelotti antes de divulgar a lista oficial na segunda-feira (18), às 17h, num evento da CBF no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro.

O centroavante que nunca foi convocado mas não para de marcar

O nome que mais pesa na cabeça do técnico é Pedro. O camisa 9 do Flamengo nunca foi chamado por Ancelotti em nenhuma das convocações anteriores — nem nas Eliminatórias, nem nos amistosos de março contra França e Croácia, disputados nos Estados Unidos. Mesmo assim, os números desta temporada tornaram qualquer exclusão difícil de justificar publicamente.

Nos últimos 17 jogos do Flamengo em 2026, Pedro balançou as redes nove vezes e deu duas assistências — uma participação direta em gol a cada 1,6 partida, média que poucos centroavantes do Brasileirão conseguem sustentar. A análise do SportNavo aponta que essa regularidade coloca o atleta entre os três atacantes mais produtivos do torneio no recorte dos últimos dois meses.

Um dado complica ainda mais a situação de Ancelotti: a posição de centroavante é, historicamente, a mais escassa em qualidade na Seleção Brasileira desde a aposentadoria de Ronaldo, em 2011. Levar um atacante nessa fase seria repetir a lógica de Scolari com Kaká em 2002 — um investimento no presente com retorno garantido no futuro.

Os rubro-negros com vaga mais próxima da confirmação

Enquanto Pedro aguarda o veredicto, outros nomes do Flamengo têm situação mais consolidada. Danilo, lateral-direito de 33 anos com passagens por Manchester City e Juventus, é apontado como presença praticamente garantida na lista final. A versatilidade do jogador — capaz de atuar também como zagueiro central — foi destacada pela ex-atacante Cristiane Rozeira, que participa da cobertura da Copa do Mundo pela Globo.

"Copa é Copa. O Brasil talvez não chegue como o grande favorito, mas tem totais condições de disputar o título", avaliou Cristiane, que também ressaltou o diferencial de Danilo como fator de equilíbrio no sistema defensivo de Ancelotti.

Léo Pereira e Alex Sandro integram o grupo dos bem cotados, ambos como opções para o setor defensivo. Já Samuel Lino e Léo Ortiz são classificados como candidatos que correm por fora — jogadores com capacidade técnica reconhecida, mas que precisariam de desempenho excepcional neste domingo para virar o jogo a seu favor nas últimas horas antes da convocação.

Paquetá tenta reconquistar a vaga que perdeu em março

Fora do Flamengo há anos, Lucas Paquetá vive uma situação diferente dos companheiros de base rubro-negra. O meia participou dos dois últimos jogos do Brasil nas Eliminatórias Sul-Americanas sob o comando de Ancelotti, mas ficou de fora da convocação de março — justamente quando a disputa por vagas no meio-campo estava mais acirrada.

"Eu sempre tento dar o meu melhor, estar trabalhando em alto nível e buscar evoluir sempre. Por onde passei, nos clubes, os treinadores que tive sempre tentei performar da melhor maneira dentro das minhas qualidades e virtudes. E o Ancelotti é um excelente treinador", disse Paquetá em entrevista à Flamengo TV, num recado transparente ao técnico da Seleção.

A declaração funciona como carta aberta, mas Ancelotti tem histórico de priorizar desempenho em campo acima de declarações públicas. O fato de o treinador não ter ido pessoalmente observar Paquetá em nenhum jogo recente é um indicador que os bastidores da CBF monitoram com atenção.

O que o precedente de 2002 ensina sobre a decisão de amanhã

A comparação com a Copa de 2002 não é apenas nostálgica. Naquele torneio, Scolari levou dois centroavantes — Ronaldo e Luizão — além de Edilson como opção ofensiva. A pluralidade no ataque foi decisiva para que o Brasil conseguisse variar o jogo em diferentes contextos táticos ao longo do torneio. Ancelotti, que montou equipes campeãs europeias com elencos profundos e versáteis, compreende essa lógica melhor do que qualquer outro técnico da atualidade.

Pedro, formado nas categorias de base do Fluminense — onde estreou profissionalmente aos 18 anos na Série A de 2016 — e consolidado no Flamengo a partir de 2020, representa exatamente o perfil de jogador que amadureceu em campo antes de chegar ao radar da Seleção. Seus números nesta temporada não deixam espaço para dúvida sobre a qualidade, apenas sobre a preferência tática do treinador.

Às 17h de segunda-feira (18), no Museu do Amanhã, Ancelotti encerra a espera. A Arena da Baixada, neste domingo à noite, é o último capítulo antes dessa resposta — e Pedro entra em campo sabendo que o italiano estará nas arquibancadas, caderno de anotações na mão.