A bola sai do pé direito com uma velocidade que surpreende até quem já viu antes. É um cruzamento tenso, tenso, e a torcida do Tottenham Hotspur Stadium já sabe o que vem a seguir. Pedro Porro, camisa 23, não é um lateral que espera a jogada chegar — ele é a jogada. Mas enquanto o espanhol de 26 anos consolida seu nome em Londres, uma questão mais ampla paira sobre ele como névoa londrina: o que falta para que ele seja, de vez, o lateral-direito titular da Espanha rumo à Copa do Mundo de 2026?

O que ele ainda não resolveu

Nascido em Don Benito, no interior da Espanha, Pedro Antonio Porro Sauceda chegou ao futebol europeu de alto nível pelo caminho menos óbvio. Passou pelo Sporting de Lisboa, onde conquistou a Primeira Liga portuguesa de 2020–21, duas edições da Taça da Liga (2020–21 e 2021–22) e a Supertaça Cândido de Oliveira de 2021 — um ciclo vitorioso que o colocou no radar dos grandes clubes. O Tottenham foi buscar exatamente esse perfil: um lateral ofensivo, rápido, capaz de funcionar como ala em sistemas de três zagueiros.

O problema não está em Londres. Está em Madrid — ou melhor, na ausência de Dani Carvajal. Com o veterano do Real Madrid fora de combate por lesão, a lateral direita da seleção espanhola ficou em aberto. Porro estreou pela Fúria em março de 2021 e integrou o elenco vice-campeão da Liga das Nações naquele ano. Em 2025, voltou a ser convocado para a edição seguinte da competição — em que a Espanha perdeu a final para Portugal. Em setembro do mesmo ano, foi titular na vitória por 3 a 0 contra a Bulgária nas Eliminatórias. Os dados estão lá. Mas a titularidade consolidada, essa ainda não veio.

A questão que a imprensa espanhola levantou no início de maio de 2026 é direta: sem Carvajal, quem cobre a lateral direita da Espanha na Copa? Porro é o candidato mais óbvio — e é exatamente por isso que a pressão sobre ele cresce a cada jogo.

Onde está hoje em relação a esse buraco

Nesta temporada, Porro disputou 35 jogos pela Champions League, marcou 3 gols e distribuiu 7 assistências — números que poucos laterais no mundo conseguem apresentar numa mesma campanha. São contribuições diretas para o placar que colocam seu nome entre os defensores mais produtivos ofensivamente da competição.

Para entender o impacto além do óbvio, vale olhar para o xT (expected threat), uma métrica que mede o quanto cada ação de um jogador aumenta a probabilidade de gol da equipe — seja com passes, dribles ou condução de bola. Em termos simples: quanto mais alto o xT, mais perigo real o jogador gera. Laterais com o perfil de Porro costumam acumular xT elevado justamente porque exploram o corredor com frequência e precisão. O espanhol se encaixa nesse padrão com naturalidade.

"Um lateral que entrega sete assistências numa temporada não é um defensor que ataca — é um atacante que defende quando precisa. Porro mudou a forma como o Tottenham pensa o lado direito do campo." — comentarista esportivo especializado em futebol inglês

O empate por 1 a 1 contra o Brighton, em abril de 2026, em casa, mostrou os dois lados da moeda: Porro foi um dos mais ativos na criação, mas o Tottenham não conseguiu converter pressão em resultado. É um microcosmo do que a Espanha também enfrenta quando o escala — muito movimento, muito potencial, mas a consistência defensiva ainda gera dúvidas nos técnicos mais cautelosos.

O que ele ainda não resolveu Pedro Porro e a lacuna que a Espanha esp
O que ele ainda não resolveu Pedro Porro e a lacuna que a Espanha esp

O caminho técnico para tapá-lo

Com 173 cm e 69 kg, Porro não é um lateral construído para duelos físicos prolongados. Sua força está na leitura antecipada, na velocidade de saída e na qualidade do último passe. O que ele precisa afinar — e o que a seleção espanhola observa com lupa — é a consistência defensiva em jogos de alto nível, quando o adversário decide atacar diretamente pelo seu corredor.

No Tottenham, o sistema com três zagueiros protege Porro quando ele avança, dando-lhe liberdade para chegar à linha de fundo sem deixar um buraco enorme atrás. Na seleção, o esquema pode variar — e é aí que a adaptabilidade tática se torna o ponto central do seu desenvolvimento. O técnico espanhol que o convocar para a Copa precisará de um Porro capaz de equilibrar os 7 metros de corrida para frente com os 7 de volta para cobrir o espaço.

A boa notícia: aos 26 anos, ele está exatamente na janela de maturidade de um lateral moderno. Os melhores da posição — Trent Alexander-Arnold, Achraf Hakimi — consolidaram seus perfis ofensivos entre os 24 e os 27 anos, e só depois refinaram o equilíbrio defensivo. Porro está nesse processo, e o volume de jogos nesta temporada — 35 partidas — sugere que a comissão técnica do Tottenham confia no seu fôlego e na sua adaptabilidade.

O que isso destrava na carreira

Se Porro resolver a equação — manter a produção ofensiva e entregar mais solidez defensiva — o que se abre diante dele é considerável. A Copa do Mundo de 2026 acontece em solo americano, e a Espanha chega como uma das favoritas. Uma campanha sólida com a camisa da Fúria, especialmente com Carvajal fora, pode transformar Porro de opção em referência — e isso tem peso no mercado.

No Tottenham, o camisa 23 já é peça estrutural. A conquista da Liga Europa da UEFA de 2024–25 com o clube londrino foi o primeiro troféu europeu de Porro fora de Portugal, e funcionou como prova de que ele consegue performar quando o ambiente exige mais. O próximo passo é fazer isso na maior vitrine do futebol mundial.

O calor de uma Copa do Mundo — a pressão, os holofotes, a velocidade — é diferente de qualquer coisa que a Champions oferece. Mas Pedro Porro já mostrou que sabe crescer quando o palco fica maior. A questão não é se ele tem talento. É se ele vai ter tempo — e espaço — para provar que é o dono definitivo da lateral direita espanhola antes que o torneio comece.