A bola ainda estava rolando quando Fábio percebeu que havia saído cedo demais. Pedro recebeu perto da linha lateral, girou o corpo em fração de segundo e encobriu o goleiro tricolor com uma frieza que não combina com quem passou boa parte da temporada passada no banco. Era o sétimo minuto do clássico no Maracanã, e o Flamengo já vencia o Fluminense por 1 a 0 no Campeonato Brasileiro.
Pedro contra o Flu tem nome e sobrenome — tem estatística
A interpretação mais fácil sobre Pedro é a do centroavante ressuscitado por Leonardo Jardim: um jogador que virou pivô participativo, que triplicou finalizações, que saiu da sombra para a luz. Tudo isso é verdade e foi amplamente documentado. O que essa narrativa deixa de lado é que, nos clássicos contra o Fluminense em 2026, Pedro não apenas jogou bem — ele foi cirúrgico onde o rival mais dói. No Brasileirão, foram dois gols na vitória por 2 a 1. No Carioca, com o jogo em 0 a 0 no tempo normal, o atacante participou da pressão que culminou na disputa de pênaltis, onde o Flamengo venceu por 5 a 4 com Rossi defendendo duas cobranças. O resultado foi o 40º título estadual da história rubro-negra, o sétimo consecutivo.
No primeiro gol do Brasileirão, a jogada nasceu de um erro de Fábio na saída de bola — Samuel Lino interceptou o passe —, mas a conclusão foi inteiramente de Pedro: percepção espacial, giro rápido e chute colocado enquanto o goleiro ainda tentava se reposicionar. No segundo, já no segundo tempo, Pedro escorou de peito um cruzamento, sem hesitação, sem pose. Dois gols diferentes em natureza, iguais em eficiência. Savarino descontou para o Flu após uma trapalhada de Alex Sandro na área, e a expulsão de Carrascal nos acréscimos deu drama ao jogo, mas não mudou o placar.
A atuação aconteceu sob os olhares de Juan, coordenador técnico da Seleção Brasileira, e Cristiano Nunes, preparador físico da equipe nacional — o que colocou Pedro, inevitavelmente, no radar de Carlo Ancelotti para uma eventual convocação tardia. Não há tragédia nisso para o Fluminense: há contabilidade.
A contra-leitura que o Fluminense prefere não fazer
Existe, contudo, uma leitura alternativa que o contexto exige. O Fluminense chegou ao clássico do Brasileirão sem Lucho Acosta por tempo integral: o argentino levou uma bolada na cabeça com apenas 20 segundos de jogo e pediu substituição aos seis minutos, obrigando o técnico Luis Zubeldía a acionar Ganso precocemente. Sem seu principal articulador, o Flu perdeu o fio condutor do jogo antes mesmo de ele começar de verdade. A pergunta que fica é quanto da eficiência de Pedro dependeu da desordem tricolor e quanto foi mérito próprio — e a resposta honesta é que foram as duas coisas, em proporções que o próprio futebol raramente separa com clareza.

No Carioca, o panorama foi diferente. O 0 a 0 no tempo normal indicou um Fluminense mais organizado, capaz de segurar a pressão rubro-negra durante 90 minutos. Aos 32 minutos do segundo tempo, Arrascaeta chegou fechando na pequena área e cabeceou por cima do travessão — foi a chance mais clara do Flamengo no tempo regulamentar. O Flu tinha saído de bola com competência, criado pressão no início do segundo tempo com Acosta finalizando rasteiro no canto — Rossi espalmou para escanteio —, e mantido o equilíbrio. A decisão nos pênaltis não foi um colapso tricolor: foi uma partida que poderia ter terminado de outro jeito se um detalhe aqui ou ali tivesse sido diferente.
O SportNavo mapeou os confrontos entre os dois clubes em 2026 e o padrão que emerge é o de um Flamengo que, quando Pedro está em ritmo, encontra soluções que nenhum outro jogador do elenco oferece com a mesma consistência. Não é magia — é posicionamento, leitura de jogo e uma relação com o gol que se reconstrói partida a partida.

O que a tabela diz depois dos dois clássicos
Com a vitória por 2 a 1 no Brasileirão, o Flamengo chegou aos 20 pontos e assumiu a vice-liderança da competição, igualando o Fluminense em pontuação mas superando o rival no saldo de gols. O time de Leonardo Jardim se tornou o perseguidor mais próximo do líder Palmeiras. O Fluminense, apesar das duas derrotas para o Fla em 2026, permanece no G6 — o que indica que o clássico foi doloroso, mas não devastador para os tricolores.
A síntese que os números impõem é incômoda para o Fluminense e confortável para o Flamengo: Pedro marcou em todos os clássicos decisivos do ano, Rossi defendeu duas cobranças no Carioca, e o título estadual foi o sétimo consecutivo do Rubro-Negro. Esses fatos coexistem com um Fluminense que ainda é competitivo — que venceu o Fla por 2 a 1 em novembro de 2025, com golaço de Lucho Acosta, quando o tricolor tinha 54 pontos e o rival liderava com 71. A rivalidade, portanto, está viva. Só que em 2026, até aqui, ela tem um nome gravado nos momentos que importam.
O próximo capítulo desta história tem data marcada: o Fluminense visita o Santos na Vila Belmiro no domingo, dia 17 de maio, às 16h, enquanto o Flamengo recebe o Bahia no Maracanã às 19h30 — e até lá, os dois clubes terão compromissos pela Copa Libertadores na quarta e na quinta-feira, respectivamente, o que significa que Pedro poderá chegar ao fim de semana com mais minutos, mais ritmo e, para o alívio da Nação e desconforto tricolor, mais fome.










