Diz-se que Pep Guardiola construiu no Manchester City o projeto mais bem-sucedido do futebol moderno. Na verdade, ele construiu algo mais raro — e mais frágil — do que qualquer estatística consegue capturar: um método. Não um time. Um método. E é exatamente isso que torna a despedida de domingo, contra o Aston Villa no Etihad Stadium, tão diferente de qualquer outra saída de treinador na história da Premier League.

A confirmação veio primeiro pelos vestiários, não pelas câmeras. Guardiola reuniu o elenco e comunicou pessoalmente que não seguirá no clube após o encerramento da temporada 2025/2026. Segundo o The Athletic e o The Guardian, a diretoria Citizens já trabalha com Enzo Maresca como substituto — o técnico italiano, demitido pelo Chelsea em janeiro deste ano, teria um acordo encaminhado por três temporadas.

O que Ferguson levou 27 anos para construir, Guardiola refez em 10

Quando Alex Ferguson deixou o Manchester United em 2013, carregava 13 títulos de Premier League e duas Champions League em 27 anos de clube. Guardiola, em exatamente 10 temporadas no City, acumula 20 troféus — entre eles cinco Premier Leagues e uma Liga dos Campeões, conquistada em 2023 em Istambul contra a Internazionale. A velocidade é diferente. O modelo, também. Ferguson construía por acumulação e instinto; Guardiola por sistema e obsessão com o espaço.

O espanhol, curiosamente, evitou confirmar publicamente a saída até o último momento. Antes e depois da final da FA Cup — encerrada com título do City sobre o Chelsea —, limitou-se a dizer:

"Mais um ano de contrato"
sem jamais esclarecer se aquele seria o último. É o tipo de ambiguidade calculada que quem acompanhou o Guardiola do Barcelona reconhece: ele raramente anuncia o fim. Ele simplesmente termina.

Nesta temporada, o City já garantiu a Copa da Liga Inglesa e a Copa da Inglaterra. A equipe ainda disputa matematicamente o título do Campeonato Inglês, o que tornaria a despedida ainda mais cinematográfica — cinco Premier Leagues em 10 anos seria o legado perfeito para um homem que transformou o pressing alto e o tiki-taka em linguagem corrente nas cabines de transmissão de todo o planeta.

O gegenpressing que virou gramática no futebol inglês

Quando Guardiola chegou ao Etihad em 2016, vindo do Bayern de Munique, o futebol inglês ainda debatia se o gegenpressing de Klopp era modismo ou revolução. Guardiola não entrou nessa discussão. Simplesmente instalou uma outra linguagem: posse com pressão, laterais como meias, goleiro como construtor. O City de 2017/2018 — o famoso centurions, com 100 pontos na Premier League — é o episódio mais próximo de futebol perfeito que a Inglaterra já produziu.

O que para o torcedor argentino é intensidade física e coletividade raivosa — pense no Atlético de Simeone —, para o torcedor inglês passou a ser posicionamento e controle de ritmo com a bola. Guardiola não apenas venceu na Inglaterra: ele mudou o que os ingleses entendem por domínio de uma partida. Isso não se mede em troféus. Mede-se nos esquemas táticos dos clubes das divisões inferiores que, hoje, tentam reproduzir o que viram no Etihad.

Maresca herda um projeto — não um legado

Enzo Maresca tem 44 anos, nasceu em Pontecagnano, na Campânia, e fez carreira como volante em clubes como Sevilla, West Brom e Fiorentina. Como treinador, ficou conhecido pelo trabalho no Leicester City, que levou de volta à Premier League em 2023/2024, antes de aceitar o convite do Chelsea — aventura encerrada de forma abrupta em janeiro de 2026. O italiano estudou sob Guardiola no City B e conhece a metodologia por dentro. Mas conhecer o método de Guardiola não é o mesmo que ter a autoridade para impô-lo.

Ferguson teve quatro sucessores no United e nenhum chegou perto. Não porque fossem medíocres — Moyes, Van Gaal, Mourinho e Solskjær são nomes de peso — mas porque uma era não se herda, se reconstrói do zero. Maresca vai encontrar um elenco envelhecido em alguns setores, com contratos pesados e um Etihad acostumado a vencer de forma específica. O desafio não é tático. É cultural.

O que Ferguson levou 27 anos para construir, Guardiola refez em 10 Pep Guardiola
O que Ferguson levou 27 anos para construir, Guardiola refez em 10 Pep Guardiola
"Guardiola comunicou os jogadores que não permanecerá no City", confirmaram o The Athletic e o The Guardian, descrevendo uma reunião direta e sem dramaturgia — à imagem do próprio treinador.

O domingo no Etihad e o que vem depois para Guardiola

A partida de despedida está marcada para este domingo contra o Aston Villa, às 12h (horário de Brasília), no Etihad Stadium, pela última rodada da Premier League 2025/2026. O City entra em campo ainda com chances de título — o que tornaria o adeus de Guardiola uma sexta conquista na competição, número que nenhum treinador alcançou antes na história do futebol inglês.

Guardiola, especulado como candidato à seleção italiana, chega ao encerramento com 20 troféus em Manchester, incluindo a conquista do triplete em 2022/2023 — Premier League, FA Cup e Champions League na mesma temporada. O catalão tem 55 anos e nunca ficou mais de um ciclo sem clube. O próximo capítulo já circula nos corredores de Coverciano, sede da Federação Italiana de Futebol, onde a Azzurra busca um nome de peso para o próximo ciclo de Copa do Mundo. Se Guardiola aceitar, será a primeira vez em sua carreira que dirigirá uma seleção nacional — e o futebol de seleções jamais foi o mesmo depois que ele passou por um clube.