Confesso: eu errei sobre Phillips Julian em 2024. Achei que era mais um forward americano de rotação, desses que enchem planilha mas não movem agulha. Hoje, olhando para o que ele está construindo nos Chicago Bulls, preciso admitir o erro em voz alta — porque ignorar o que está acontecendo seria desonestidade analítica.

A assinatura técnica que o identifica

Há forwards na NBA que existem para cumprir função. E há os que existem para criar função. Phillips Julian, camisa 15 de Chicago, pertence à segunda categoria — e esta temporada 2025/2026 está sendo o argumento mais sólido que ele já apresentou para essa tese.

Trinta e um jogos. Trinta e cinco pontos marcados. Onze assistências. A proporção é o que chama atenção: mais de uma assistência para cada três pontos anotados. Não é o perfil de um forward que apenas recebe e finaliza. É o perfil de alguém que lê o jogo enquanto o jogo ainda está se formando. Na avaliação do SportNavo, essa combinação de eficiência ofensiva com capacidade de distribuição coloca Julian numa categoria rara entre os forwards americanos desta geração.

A assinatura técnica dele é justamente essa: transitar entre os papéis de finalizador e facilitador sem perder eficiência em nenhum dos dois. Quando o sistema pede que ele pontue, ele pontua. Quando pede que ele construa, ele constrói. Poucos jogadores na posição fazem isso com a mesma fluidez.

Como ele aprendeu a fazer aquilo

Nenhum jogador nasce com leitura de jogo. Ela é construída em treino, repetição e — principalmente — em erro. O percurso de Julian até os Bulls é o percurso de alguém que aprendeu cada fundamento na ordem certa: primeiro entender o movimento sem bola, depois entender o que fazer com ela.

A posição de forward exige versatilidade física e intelectual ao mesmo tempo. Você precisa defender no perímetro, mas também no garrafão. Você precisa arremessar de média distância, mas também criar em isolamento. Julian foi moldado por essa exigência múltipla — e o resultado aparece nos números desta temporada como consequência natural de um processo longo, não como acidente de forma.

O que diferencia os forwards que duram dos que desaparecem é a capacidade de se adaptar quando o sistema muda ao redor deles. Julian demonstrou essa adaptabilidade ao longo da carreira, e é por isso que ele está aqui, relevante, no momento em que os Bulls mais precisam de produção consistente.

Como ele aprimorou ao longo dos anos

A diferença entre o Julian que chegou à liga e o Julian desta temporada tem o tamanho da distância entre Recife e Porto Alegre — geograficamente são 3.200 quilômetros, mas em termos de desenvolvimento de jogador, é exatamente essa a proporção que separa um atleta promissor de um forward confiável em nível de NBA.

O aprimoramento mais evidente está na tomada de decisão. Em 31 jogos nesta temporada, ele acumula 11 assistências — um número que revela não apenas visão de jogo, mas a confiança do treinador em deixá-lo operar como criador dentro das jogadas. Assistências para um forward não são automaticamente positivas; elas só aparecem quando o técnico confia que aquele jogador vai tomar a decisão certa sob pressão.

A evolução ofensiva — 35 pontos em 31 jogos — mostra consistência de produção, não pico isolado. Não é uma noite de graça contra time sem defesa. É uma linha de temporada que sustenta a tese de que Julian encontrou um nível de jogo que consegue replicar com regularidade.

Como aplica em jogos diferentes

O teste real de qualquer forward não é o que ele faz nos jogos favoráveis. É o que ele faz quando o placar está apertado, quando o adversário fecha o garrafão e quando o sistema de jogo precisa ser improvisado. É nesse contexto que a versatilidade de Julian se torna o ativo mais valioso que ele oferece aos Bulls.

Com 11 assistências distribuídas ao longo de 31 partidas, ele provou que consegue funcionar como válvula de escape quando a armação principal está marcada. Com 35 pontos acumulados, provou que não é jogador de uma única função. A combinação dos dois dados, numa só temporada, é o retrato de um forward que entende que seu valor aumenta quanto mais imprevisível ele for para a defesa adversária.

Para os próximos 12 meses, o caminho mais realista para Julian é consolidar exatamente esse papel: o forward que os Bulls acionam quando precisam de produção qualificada, não apenas de presença em quadra. Se ele mantiver esse ritmo até o fim da temporada 2025/2026, terá construído o argumento contratual mais sólido de sua carreira — e, mais que isso, terá provado que o erro de análise que cometi em 2024 foi meu, não dele.

Está entregando números que poucos esperavam — falta agora o Bulls inteiro crescer ao redor dele.