Não foi a torcida que perdeu o controle naquela madrugada no Galeão — foi o Flamengo que, semana após semana, foi cedendo o controle de seu próprio destino continental. Às 3h10 desta sexta-feira, 15 de maio de 2026, o time desembarcou pelo Terminal de Cargas, rota alternativa escolhida justamente para evitar o contato com torcedores e imprensa, após ser eliminado pelo Peñarol nas quartas de final da Libertadores. O placar do jogo de volta, 0 a 0 no Uruguai, somado à derrota por 1 a 0 no Maracanã, consolidou uma queda que já estava anunciada nas entranhas dos números.

A noite no Galeão e o gol que nunca saiu em Montevidéu

Cerca de 20 torcedores esperavam a delegação no Terminal de Cargas e atiraram pipoca nos ônibus que transportavam jogadores e comissão técnica, entoando o cântico "para jogar no Mengo tem que ter disposição". O técnico Tite e a diretoria foram os alvos centrais das críticas verbais. O protesto transcorreu de forma pacífica até a saída dos veículos — quando um grupo estourou rojões nas imediações, o que provocou resposta policial com balas de borracha e bombas de efeito moral.

No Estádio Campeón del Siglo, em Montevidéu, o Flamengo criou oportunidades reais mas carregou a marca que tem definido suas campanhas recentes: incapacidade de converter pressão em gol. A chance mais clara do primeiro tempo surgiu quando Plata recebeu passe de Bruno Henrique dentro da área e ficou parado diante do goleiro adversário. No segundo tempo, após as substituições de Plata — que deu lugar a Gabigol — e de Varela, a produção ofensiva rubro-negra caiu de forma acentuada.

"Péssima Libertadores", resumiu o jornalista Fred Gomes, que acompanhou o jogo no Uruguai, em análise transmitida ao vivo após o apito final.

Seis anos de mata-mata e uma curva que só desce

Para entender a dimensão da crise, é preciso recuar até 2019 e 2022 — os dois títulos continentais do clube na era recente. Naquelas campanhas, o Flamengo venceu seis duelos eliminatórios consecutivos na Libertadores, com aproveitamento superior a 70% nos placares agregados. A partir de 2023, quando caiu diante do Olimpia nas oitavas de final — derrota que gerou comparações imediatas com a eliminação de 2020 nas oitavas para o Racing —, a curva inverteu de vez.

Segundo levantamento do SportNavo, desde a eliminação para o Olimpia em 2023, o Flamengo disputou oito fases eliminatórias em competições continentais e nacionais de alto nível, com aproveitamento de apenas 37,5% — considerando vitórias no tempo normal como critério base. Nenhum clube brasileiro que chegou às quartas de final da Libertadores nos últimos três anos registrou índice tão baixo nesse tipo de confronto.

A comparação com a geração de 1981 é inevitável para quem estudou a história do clube. Naquele ano, o Flamengo de Zico, Júnior e Adílio conquistou a Libertadores e o Mundial Interclubes — derrubando o Liverpool por 3 a 0 no Japão em dezembro daquele mesmo ano. Naquela campanha, o time rubro-negro não foi eliminado em nenhuma fase. O contraste com o presente não é apenas de qualidade individual; é de cultura de mata-mata, de preparo tático para o jogo de dois atos.

Tite, a pressão e o que muda a partir de agora

Tite assumiu o Flamengo em 2023 com o mandato explícito de devolver o clube ao topo continental. Em três temporadas, chegou às quartas de final uma única vez — justamente esta, encerrada com dois jogos sem gol marcado contra o Peñarol uruguaio. O índice de gols marcados pelo Flamengo em fases eliminatórias da Libertadores sob seu comando é de 1,1 por jogo, contra 2,3 registrados nas campanhas vitoriosas de 2019 e 2022 sob Jorge Jesus e Dorival Júnior, respectivamente.

"A diretoria precisa dar respostas", ecoou parte da torcida no Terminal de Cargas, segundo relatos de jornalistas presentes no aeroporto.

A questão que se coloca ao clube não é apenas técnica. O perfil de elenco montado para 2026 apostou em repatriar nomes como Gabigol, mas o centroavante entrou em campo no segundo tempo em Montevidéu e não conseguiu alterar o panorama. A escolha de substituir Plata — que havia criado a melhor chance da partida — por um atacante que voltou ao clube carregando mais história do que forma física atual sintetiza as contradições da gestão esportiva rubro-negra neste ciclo.

A eliminação lança o Flamengo de volta ao foco exclusivo no Campeonato Brasileiro, onde o clube ocupa posição intermediária na tabela de 2026 após o desgaste causado pela dupla frente continental e doméstica. O próximo compromisso é pelo Brasileirão, no domingo, 17 de maio, no Maracanã — uma partida que, sem o peso da Libertadores, testará se a equipe consegue ao menos recuperar a consistência que perdeu nos jogos que mais importavam. É o mesmo cenário que o Flamengo viveu em 2020, quando, eliminado precocemente na Libertadores pelo Racing, direcionou forças para o Brasileirão e terminou vice-campeão atrás do Atlético Mineiro — só que agora a aposta é reconstruir credibilidade com um técnico que já não tem mais margem para erros no ambiente rubro-negro.