Fevereiro de 2024. A notícia de que Lewis Hamilton deixaria a Mercedes para vestir vermelho na Ferrari parou o paddock como poucas movimentações fizeram na história recente da Fórmula 1. Heptacampeão, 103 vitórias, o maior vencedor de todos os tempos chegando à equipe mais icônica do esporte — a expectativa era de uma aliança histórica. O que se viu em 2025, porém, foi uma aritmética bem mais sóbria.

O que Piquet Jr. disse e por que isso gerou tanto barulho

Nelson Piquet Jr. não usou meias palavras ao comentar a situação interna da Ferrari. Para o ex-piloto de Fórmula 1, Hamilton ocupa hoje um posto de coadjuvante na Scuderia, com Charles Leclerc como o piloto de referência da equipe. A declaração circulou rapidamente e dividiu opiniões — afinal, estamos falando de um heptacampeão com currículo que nenhum piloto da história conseguiu igualar em número de vitórias.

"Hamilton é coadjuvante na Ferrari. Leclerc é o principal piloto da equipe", afirmou Piquet Jr., sintetizando em uma frase o que os resultados de 2025 já vinham desenhando ao longo de cada etapa.

A declaração soa provocativa, mas tem base factual. Em 2025, Hamilton encerrou o Campeonato Mundial de Pilotos na sexta colocação, somando 156 pontos. Leclerc terminou na segunda posição, acumulando 244 pontos — uma diferença de 88 pontos entre os dois companheiros de equipe. No esporte de pontuação acumulada, esse gap não é interpretação: é contabilidade.

A temporada de 2025 que Hamilton preferia esquecer

O melhor resultado de Hamilton em toda a temporada de 2025 foi o quarto lugar, repetido em quatro Grandes Prêmios distintos — Emilia-Romagna, Áustria, Inglaterra e Estados Unidos. Quatro vezes no mesmo degrau, um passo abaixo do pódio. Para um piloto da sua grandeza, a ausência do Top 3 em qualquer das etapas do campeonato é um dado que pesa, independentemente da narrativa de adaptação a um carro novo.

Leclerc, nesse mesmo período, mantinha a Ferrari relevante na briga pelo título, acumulando pódios e pontos que faziam a diferença na classificação construtores. A dinâmica interna estava clara: enquanto um piloto lutava pela consistência, o outro carregava a equipe.

Errou. Não o carro, não a estratégia — a adaptação de Hamilton ao SF-24 e ao SF-25 nunca chegou ao nível esperado pela torcida da Scuderia nem pelos analistas que apostavam em uma virada rápida de rendimento.

O início de 2026 e a disputa interna que mudou de figura

A temporada de 2026 trouxe um sinal diferente. No GP da China, segunda etapa do calendário, Hamilton subiu ao pódio na terceira posição — seu primeiro Top 3 com a Ferrari, quebrando um jejum que durou todo o campeonato anterior. Depois, no GP de Miami, o britânico ficou à frente de Leclerc, beneficiado por um erro do monegasco na volta final, que resultou em colisão e punição posterior.

Após quatro etapas de 2026, a disputa interna está tecnicamente empatada. Leclerc chegou ao pódio na Austrália e no Japão, terminando em terceiro em ambas as ocasiões. Hamilton, por sua vez, ficou à frente nas corridas da China e de Miami. O placar de confronto direto entre os dois é de 2 a 2 em finalizações favoráveis — um equilíbrio que o SportNavo acompanha de perto para avaliar se representa uma virada real ou apenas uma flutuação de resultados.

"Hamilton está cobrando atualizações da Ferrari para se aproximar do nível da Mercedes", revelaram fontes próximas ao piloto britânico, sinalizando que o próprio Hamilton reconhece a necessidade de evolução técnica do SF-26.

A questão técnica é central. As regulamentações de 2026 mudaram profundamente o conceito aerodinâmico e os motores da categoria, e a Ferrari precisou reconstruir boa parte da sua filosofia de projeto. Hamilton, acostumado com a engenharia da Mercedes ao longo de mais de uma década, ainda busca o alinhamento perfeito com a cultura de desenvolvimento da Scuderia. Não é um processo simples — e Leclerc, que cresceu dentro da Ferrari, parte com vantagem estrutural nessa adaptação.

A análise de degradação de pneus nas etapas de 2026 também revela uma diferença de abordagem entre os dois pilotos. Hamilton tem optado por estratégias mais conservadoras nos primeiros stints, gerenciando os compostos médios com maior cautela, enquanto Leclerc demonstra maior agressividade nos primeiros setores antes de recalcular o gerenciamento. No Japão, Leclerc fez o pit stop na volta 18 com pneus médios já em degradação visível — uma aposta que se mostrou acertada para a posição final.

Piquet Jr. tem razão nos números de 2025 — isso não há como contestar. Mas reduzir Hamilton a um papel permanente de coadjuvante, ignorando que a temporada de 2026 ainda tem mais de quinze etapas pela frente, é uma leitura que privilegia o recorte em detrimento do quadro completo. O britânico de 41 anos já mostrou em Maranello que consegue subir ao pódio; a questão agora é se consegue fazer isso com consistência suficiente para disputar o campeonato.

O próximo teste vem já no GP do Canadá, marcado para o fim de maio, no Circuito Gilles Villeneuve — uma pista de rua com características técnicas distintas que historicamente favorece pilotos com sensibilidade no volante em baixas velocidades. Hamilton venceu lá sete vezes na carreira. Se há um circuito no calendário onde ele pode inverter a narrativa de vez, é em Montreal.