— Pulisic tá no grupo, né? — perguntou um torcedor americano, cerveja na mão, no bar do hotel em Charlotte.
— Tá, mas a questão é quem joga ao lado dele — respondeu o amigo, olhando para o celular.
— Pochettino sabe o que faz. Ou pelo menos é o que a gente espera.

Esse diálogo, repetido em variações por bares de Charlotte a Los Angeles nesta semana, resume o clima em torno da convocação que Mauricio Pochettino divulgou para a Copa do Mundo de 2026. São 26 nomes que compõem um mosaico curioso: jogadores formados nas academias europeias, atletas que ainda constroem carreira na MLS e uma geração de meio-campo com talento incontestável, mas ainda sem o peso de uma grande campanha mundial nas costas.

Os 26 nomes e o que dizem sobre as escolhas de Pochettino

A lista tem o perfil que Pochettino vem desenhando desde que assumiu o comando da seleção americana: uma espinha dorsal europeia com suporte doméstico. Entre os goleiros, Matt Turner, do New England Revolution, acumula experiência de Copa — esteve no Qatar em 2022 — e deve segurar o posto titular. Chris Brady, do Chicago Fire, e Matt Freese, do New York City FC, completam o setor.

Na defesa, o nome mais proeminente é Sergiño Dest, do PSV Eindhoven, lateral com passagem pelo Barcelona entre 2020 e 2022, e Antonee Robinson, do Fulham, titular absoluto na Premier League nesta temporada 2025/2026. Chris Richards, do Crystal Palace, e Auston Trusty, do Celtic, reforçam uma linha de quatro com razoável rodagem no futebol europeu. A presença de Joe Scally, do Borussia Mönchengladbach — 22 anos, lateral direito com mais de 100 jogos pelo clube alemão — sinaliza que Pochettino não prescinde de jovens mesmo nas posições de cobertura.

O meio-campo é o setor mais rico e, paradoxalmente, o mais tenso. Weston McKennie, da Juventus, é o nome de maior currículo, com Série A e Champions League no currículo. Ao lado dele, Tyler Adams, do Bournemouth, funciona como o destruidor que dá liberdade aos demais. A grande aposta criativa é Gio Reyna, do Borussia Mönchengladbach — filho do ex-capitão Claudio Reyna, que esteve na Copa de 2002. Aos 22 anos, Gio carrega o peso simbólico de uma geração inteira. Malik Tillman, do Bayer Leverkusen, e Brenden Aaronson, do Leeds, completam um setor com potencial técnico acima da média histórica americana.

Os 26 nomes e o que dizem sobre as escolhas de Pochettino Pochettino convoca 26
Os 26 nomes e o que dizem sobre as escolhas de Pochettino Pochettino convoca 26

No ataque, Christian Pulisic, do Milan — artilheiro da seleção em atividade, com 30 gols em 75 jogos —, lidera uma linha que conta com Folarin Balogun, do Monaco, e Ricardo Pepi, do PSV, como principais opções de centroavante. Tim Weah, do Olympique de Marselha, e Haji Wright, do Coventry City, ampliam as possibilidades ofensivas. A presença de Alex Zendejas, do Club América, é a única concessão à Liga MX — e representa o vínculo com a diáspora latina que compõe parte do tecido cultural do futebol americano.

Senegal e Alemanha antes do Paraguai — o aquecimento antes da fornalha

Antes de estrear no Grupo D, os Estados Unidos terão dois ensaios de alto nível. No dia 31 de maio, enfrentam Senegal em Charlotte — a mesma cidade onde Tim Ream, veterano de 37 anos convocado pelo Pochettino, defende o Charlotte FC. No dia 6 de junho, o adversário é a Alemanha, em Chicago, numa partida que funcionará como termômetro real: os alemães vivem uma reconstrução sob Julian Nagelsmann e têm jogadores no mesmo circuito europeu que boa parte dos americanos.

O levantamento que o SportNavo fez do calendário da seleção americana mostra que Pochettino terá apenas 12 dias entre o amistoso contra a Alemanha e a estreia oficial contra o Paraguai — 12 de junho, às 22h (horário de Brasília), em Los Angeles. Tempo curto para ajustes táticos, especialmente se o técnico quiser testar variações de esquema.

Pochettino não esconde o modelo que tem em mente. Segundo o próprio técnico em entrevistas à imprensa americana, "a seleção precisa ser corajosa, pressionar alto e não ter medo de jogar contra qualquer adversário em casa". A frase tem o sabor das suas equipes no Tottenham entre 2014 e 2019, quando transformou um time mediano num semifinalista de Champions League em 2019.

"Quero que os jogadores sintam que representam algo maior do que eles mesmos. Este país tem 340 milhões de pessoas e muitos deles vão estar nos estádios. Isso precisa significar algo dentro de campo", declarou Pochettino em coletiva antes da convocação.

O Grupo D e o que muda no mapa do Mundial a partir de 25 de junho

O Grupo D — Estados Unidos, Paraguai, Austrália e Turquia — não é o grupo da morte, mas tampouco é passeio. O Paraguai chega com a geração de Encarnación já aposentada, mas construiu nos últimos anos uma seleção sólida no meio-campo, com Gustavo Gómez como liderança defensiva. A Austrália, que surpreendeu o mundo ao atingir as quartas de final no Qatar 2022 — eliminando a Dinamarca e a Argentina na fase de grupos, perdendo para a Argentina nas oitavas —, tem em Mat Ryan e Mitchell Duke referências que Pochettino precisará neutralizar. A Turquia, por sua vez, tem Hakan Çalhanoğlu como maestro e chega ao Mundial após uma campanha europeia consistente.

A comparação histórica que os analistas americanos evitam fazer, mas que é inevitável: em 1994, quando os Estados Unidos sediaram a Copa pela primeira vez, a seleção era formada majoritariamente por jogadores da liga doméstica — a MLS nem existia, foi fundada em 1996. Aquela equipe de Alexi Lalas e Cobi Jones chegou às oitavas de final e caiu diante do Brasil, com gol de Bebeto. Trinta e dois anos depois, mais da metade dos convocados por Pochettino joga na Europa. A estrutura mudou. O que ainda falta descobrir é se a mentalidade competitiva acompanhou essa evolução.

"Em 1994 éramos uma novidade. Hoje somos um país de futebol. Há uma diferença enorme nisso", disse Pulisic em entrevista ao The Athletic, antes do anúncio da lista.

A segunda rodada — 19 de junho, contra a Austrália, às 16h — e o encerramento da fase de grupos — 25 de junho, contra a Turquia, às 23h, em Los Angeles — definirão se os Estados Unidos avançam como cabeça de grupo ou como um dos melhores terceiros colocados. Pochettino sabe que, numa Copa com 48 seleções e novo formato de grupos, avançar não é o teto: é o piso mínimo esperado por um país anfitrião que investiu décadas construindo essa geração.