Se um jogador profissional recebesse uma notificação no celular informando que sua Copa do Mundo havia acabado antes mesmo de começar, qual seria o impacto psicológico mensurável sobre seu desempenho nas semanas seguintes? A pergunta não é retórica — ela está no centro do debate que Mauricio Pochettino abriu involuntariamente ao anunciar, nesta terça-feira, 27 de maio, a lista final de 26 convocados dos Estados Unidos para a Copa do Mundo de 2026. Os atletas que ficaram de fora souberam da decisão por e-mail.

O precedente que Pochettino ignorou — ou escolheu ignorar

A história do futebol registra episódios igualmente polêmicos de comunicação fria entre comissões técnicas e atletas. Em 1994, quando a seleção dos Estados Unidos surpreendeu o mundo ao chegar às oitavas de final em seu próprio território, o técnico Bora Milutinovic conduzia conversas individuais com cada jogador cortado — uma prática que, à época, era considerada protocolo mínimo de respeito institucional. Três décadas depois, o mesmo país-sede recebe uma abordagem diametralmente oposta de seu treinador, num contexto em que a Copa será disputada em 16 cidades distribuídas entre EUA, México e Canadá, com a expectativa de gerar mais de US$ 11 bilhões em receita direta.

Pochettino, em coletiva realizada em Nova York, defendeu sua escolha com um argumento pessoal:

"Eu era um jogador. Quando não fui convocado, não queria que o treinador me ligasse."

A declaração é reveladora — não pelo que diz sobre os cortados, mas pelo que expõe sobre o modelo de gestão emocional que o argentino carrega de sua própria trajetória. Pochettino construiu carreira como zagueiro no Espanyol e no PSG antes de se tornar um dos técnicos mais valorizados da Europa, passando por Southampton, Tottenham, PSG e Chelsea. Sua experiência é vasta, mas projetá-la sobre atletas de outra geração, outra cultura e outro contexto socioeconômico é um salto metodológico que merece escrutínio.

O que a pesquisa sobre comunicação esportiva revela

Estudos conduzidos pelo Sport and Exercise Psychology Research Lab da Universidade de Birmingham indicam que a percepção de justiça processual — ou seja, a forma como uma decisão é comunicada, independentemente do seu conteúdo — afeta diretamente o índice de comprometimento futuro do atleta com a instituição. Em termos práticos: um jogador cortado por e-mail tem probabilidade estatisticamente maior de rejeitar convocações futuras ou de demonstrar menor engajamento em períodos de pré-seleção. Para uma seleção que ainda está em processo de construção de identidade coletiva, esse custo invisível pode ser mais relevante do que qualquer análise tática.

A métrica conhecida como Perceived Organizational Support (POS) — que mede, em termos simplificados, o quanto um profissional sente que a organização se preocupa com seu bem-estar — é um dos indicadores mais robustos para prever retenção de talentos em ambientes de alta performance. Quando a comunicação institucional é percebida como impessoal, o POS despenca, e com ele a disposição do atleta de se sacrificar pelo grupo em momentos críticos.

"Há uma diferença enorme entre eficiência e frieza. Um e-mail pode ser eficiente, mas raramente é humano o suficiente para uma notícia que muda a carreira de alguém", observou um psicólogo esportivo ouvido pelo SportNavo.

Pochettino e a lógica do foco coletivo

O técnico foi além em sua defesa, argumentando que discutir os jogadores não convocados seria desrespeitoso com quem conquistou a vaga. "Não podemos falar sobre os jogadores que não estão na lista, porque acho que é muito desrespeitoso com os jogadores que fizeram a lista", declarou. A lógica é compreensível do ponto de vista da gestão de grupo — concentrar a narrativa nos 26 convocados evita que o ambiente seja contaminado por especulações e ressentimentos. Mas ela também revela uma visão utilitária do atleta: uma vez descartado, ele deixa de existir no campo de visão institucional.

Essa tensão entre eficiência gerencial e cuidado humano não é exclusiva do futebol. Empresas de tecnologia do Vale do Silício enfrentaram escrutínio similar ao demitir funcionários por e-mail ou videoconferência durante a pandemia — e os estudos de caso subsequentes mostraram que a reputação empregadora dessas organizações sofreu danos mensuráveis por anos. No futebol, onde o mercado de transferências é global e as redes de relacionamento entre agentes, técnicos e dirigentes são densas, a forma como um treinador trata seus dispensados circula rapidamente nos bastidores.

O que a pesquisa sobre comunicação esportiva revela Pochettino manda e-mail para
O que a pesquisa sobre comunicação esportiva revela Pochettino manda e-mail para

O que está em jogo para a seleção americana além do campo

A Copa do Mundo de 2026 representa para os Estados Unidos muito mais do que um torneio esportivo. O país investiu aproximadamente US$ 50 milhões em infraestrutura de comunicação e hospitalidade para receber os jogos, e a seleção nacional funciona como vitrine de um projeto de popularização do futebol num mercado que ainda disputa atenção com NFL, NBA e MLB. A forma como a comissão técnica conduz suas relações internas compõe a narrativa pública do projeto — e narrativas importam para patrocinadores, para audiência e para o recrutamento das próximas gerações de jogadores.

Pochettino tem até o dia da estreia dos Estados Unidos na Copa para demonstrar que sua lista de 26 nomes foi construída com critério técnico sólido. A convocação foi anunciada em Nova York, e o grupo começa a se preparar para os primeiros jogos do torneio, que terá início em junho de 2026. Se os resultados dentro de campo validarem as escolhas, o debate sobre e-mails tende a ser esquecido. Se a campanha decepcionar, a frieza da comunicação será lembrada como sintoma de um projeto que nunca teve alma.