Pode uma seleção participar de uma Copa do Mundo quando seu governo está em conflito armado com o país-sede? A pergunta não é retórica no sentido filosófico — ela tem prazo de resposta: até três semanas antes de 11 de junho de 2026, a Federação de Futebol da República Islâmica do Irã (FFIRI) precisa confirmar à Fifa sua participação formal no torneio. A entidade convocou a federação iraniana para uma reunião em sua sede, em Zurique, a ocorrer até o dia 20 de maio.
O contexto que circunda esse encontro não tem paralelo na história das Copas. Desde que a Fifa expandiu o torneio para 48 seleções e definiu os Estados Unidos como sede principal da edição de 2026, o Irã se classificou pela quarta vez consecutiva para um Mundial — feito que o coloca entre as seleções asiáticas mais regulares desde 1998. Mas a regularidade esportiva contrasta com a instabilidade política: ataques recentes envolvendo Israel, os EUA e o território iraniano elevaram o nível de risco diplomático a um patamar que a Fifa nunca havia gerenciado de forma tão direta.
O incidente no Canadá e o vazio na mesa do Congresso
Durante o Congresso da Fifa em Vancouver, realizado na última semana de abril, a delegação iraniana foi a única ausente entre as 211 federações-membro. O motivo foi objetivo: o governo canadense classifica a Guarda Revolucionária Iraniana como organização terrorista e barrou a entrada de membros da FFIRI ligados ao grupo. O presidente da federação, Mehdi Taj, foi o responsável por solicitar formalmente a reunião com a Fifa para tratar dessas "questões sensíveis" — expressão que abrange desde a emissão de vistos até protocolos de segurança para atletas e comissão técnica durante a estadia nos EUA.
O episódio de Vancouver tem precedente histórico relevante. Em 1978, a Argentina sediou uma Copa em meio a uma ditadura militar, e a Fifa não moveu um voto sequer para deslocar o torneio. Em 2022, o Catar recebeu o Mundial sob críticas estruturais de direitos humanos — e a entidade manteve o calendário intacto. A postura institucional de Gianni Infantino segue essa tradição.
"Quero confirmar, sem ambiguidades, que o Irã vai participar da Copa do Mundo de 2026. E, com certeza, o Irã jogará nos Estados Unidos", declarou Infantino durante o Congresso em Vancouver.
O calendário iraniano na fase de grupos
Caso a reunião de Zurique produza os acordos logísticos necessários, o Irã tem cronograma definido. A seleção ficará concentrada em Tucson, no Arizona, e disputará dois jogos em Los Angeles: no dia 15 de junho enfrenta a Nova Zelândia e no dia 21 de junho mede forças com a Bélgica. Historicamente, o Irã somou apenas três vitórias em 18 partidas de Copa do Mundo — com destaque para o 2 a 1 sobre os EUA em 1998, em Lyon, partida que carregou carga política equivalente à atual. Jogar contra ou perto de equipes americanas em solo americano, portanto, não é novidade absoluta para a federação.
O que a Fifa pode e não pode garantir
A entidade tem instrumentos para pressionar países-sede a concederem vistos e garantias de segurança — isso está previsto nos contratos de organização assinados com os governos dos EUA, Canadá e México. O que a Fifa não controla é o ambiente geopolítico externo: sanções econômicas americanas ao Irã, em vigor desde 1979 em diferentes formatos, impõem restrições bancárias e logísticas que afetam até a transferência de recursos para custear a delegação. O prazo de 20 de maio para a reunião em Zurique é, portanto, mais do que protocolar — é o momento em que a Fifa precisará apresentar soluções concretas para obstáculos que estão fora do campo.

"Há questões sensíveis que precisam ser resolvidas antes de qualquer confirmação", sinalizou Mehdi Taj ao solicitar o encontro com a entidade máxima do futebol.
A reunião em Zurique está marcada para antes de 20 de maio — o Irã estreia em 15 de junho contra a Nova Zelândia, em Los Angeles, com ou sem resolução diplomática completa — a Fifa tem o calendário definido, mas não tem o visto assinado.








