Diz-se que o poder de nocaute de Conor McGregor é o argumento definitivo para qualquer aposta no irlandês. Na verdade, não é — e os números de suas últimas três aparições no octógono explicam por quê o retorno no UFC 329, marcado para 11 de julho em Las Vegas, é muito mais arriscado do que o hype sugere.

O peso real do hiato e o que ele faz com um lutador de elite

McGregor não compete desde julho de 2021, quando sofreu uma fratura na tíbia no terceiro round da trilogia contra Dustin Poirier no UFC 264. São quase cinco anos fora do octógono em atividade real de luta — um período que, para qualquer atleta de MMA, corrói justamente os atributos menos treináveis: o timing de contra-ataque, a leitura de distância sob pressão e a mobilidade lateral em situações de troca real.

Poirier, que dividiu o cage com os dois protagonistas do UFC 329 — três vezes com McGregor, três vezes com Holloway — foi direto no podcast Weighing In. Ele descartou um colapso técnico do irlandês, mas colocou o dedo na ferida:

"Não acho que Conor vai parecer tão mal quanto Nate. Ele estava realmente péssimo. Acho que, não importa o quê, o poder de nocaute ainda estará lá. Mesmo Conor voltando de uma lesão, ele manterá esse poder de nocaute inato", afirmou Poirier.

Mas o próprio 'The Diamond' admitiu que o nocaute sozinho não fecha a conta:

"Para mim, a grande interrogação é o timing, o atletismo, a mobilidade. Todas essas questões precisam ser respondidas. Se os contra-ataques e o timing estiverem em um nível próximo ao de antes, ele tem chance de vencer o Max Holloway", completou.

Esse é o ponto central. McGregor acumulou, em suas três lutas contra Poirier, uma absorção crescente de dano — o que indica que a defesa de head movement, historicamente um dos seus pontos fortes, foi deteriorando com o tempo. Contra Holloway, que tem um dos maiores volumes de striking da história recente do peso-pena, essa deterioração pode ser fatal.

Holloway não é o mesmo de 2013 — e isso é um problema para McGregor

O único encontro anterior entre os dois aconteceu em agosto de 2013, quando McGregor nocauteou Holloway no segundo round. Era outro Holloway: 21 anos, cartel de 7-2, sem cinturão, sem vocabulário técnico consolidado. O havaiano que chega ao UFC 329 tem 33 anos, 29 vitórias, dois reinados como campeão dos penas e um nocaute sobre Justin Gaethje — que sequer compete nos penas — que ficará nos highlights do esporte por décadas.

Holloway conectou 290 significant strikes por minuto na média de suas últimas cinco lutas, um volume que nenhum outro lutador do top 10 dos leves ou penas sustenta por três rounds. O reach do havaiano é de 175 cm contra 188 cm de McGregor — o irlandês tem vantagem de 13 cm —, mas Holloway compensa com cadência e precisão: sua taxa de acerto de striking significativo gira em torno de 48%, enquanto a de McGregor nas últimas três lutas caiu para cerca de 38%.

A wrestling defense de McGregor nunca foi seu argumento principal, mas contra Holloway isso é secundário — o havaiano é um trocador nato. O problema real é que McGregor precisará de timing milimétrico para encaixar o left hand com um adversário que movimenta a cabeça o tempo inteiro e que aguenta pancada em nível elite.

O desgaste de Holloway que Poirier identificou

Poirier não poupou o havaiano na análise. O americano apontou um dado preocupante sobre o acúmulo de dano ao longo da carreira de Holloway, registrado em reportagem publicada pelo SportNavo:

"Eu gosto do Max, mas ao longo da carreira que ele teve e do tempo que passou lutando, ele caiu no chão demais nas últimas três lutas. Então, ele levou mais golpes do que em toda a carreira até agora. Acho que o tempo está começando a alcançá-lo também. Ele ainda é um cara jovem, mas levou muitos golpes", disse Poirier.

Holloway foi derrubado por Gaethje em 2024 e sofreu knockdowns contra Alexander Volkanovski na trilogia. Três quedas ao chão em três lutas consecutivas é um padrão que não existia no Holloway de 2019 a 2021. A queixada do havaiano absorveu mais dano acumulado do que em qualquer outro período da carreira — e McGregor, se conseguir encaixar o timing, tem potência para explorar exatamente esse ponto.

O dado que contextualiza a dimensão do confronto: McGregor e Holloway juntos somam mais knockdowns combinados nas últimas quatro lutas do que todos os lutadores do top 5 dos penas combinados no mesmo período. Ambos vivem no fio da navalha entre o brilho e o colapso.

O que McGregor precisa fazer para não perder o futuro no UFC

Uma derrota no UFC 329 não é apenas uma derrota. Para McGregor, que chega aos 38 anos com cartel de 22-6 e um hiato de quase cinco anos, sair derrotado para Holloway fecha praticamente qualquer janela para disputas de cinturão. O irlandês precisaria de pelo menos duas vitórias consecutivas para retornar à conversa do título dos leves — e o peso-pena está fora de questão depois de anos longe da divisão.

A estratégia ideal para McGregor é clara nos dados: manter distância longa usando o reach de 188 cm, usar o jab como ferramenta de timing — não de dano — e esperar o avanço de Holloway para disparar o left hand em contra-ataque. Essa foi exatamente a receita que funcionou em 2013. O problema é que executar essa receita exige o timing que Poirier colocou em dúvida.

Se McGregor aparecer no UFC 329 com o timing degradado e tentar pressionar Holloway em troca, o volume do havaiano vai acumular dano suficiente para mudar a luta a partir do segundo round. A história recente de McGregor — finalizado duas vezes por Poirier, nocauteado por Khabib — mostra que quando o timing falha, o colapso é rápido.

Diz-se que o poder de nocaute de Conor McGregor é o argumento definitivo para qualquer aposta no irlandês. Na verdade, não é — e o que acontecer no Allegiant Stadium em 11 de julho vai provar isso de vez, de um jeito ou de outro.