A Delegacia de Repressão aos Delitos de Intolerância Esportiva (DRADE) indiciou dois torcedores da Portuguesa por injúria racial contra o goleiro Hugo Souza, do Corinthians. O caso ocorreu em 22 de fevereiro de 2024, após a partida válida pelas quartas de final do Campeonato Paulista, quando o arqueiro corintiano defendeu três pênaltis e classificou o Timão.

Sergio de Jesus Paiva e Vinicius Cardoso Cannavina foram identificados pelas autoridades como autores das ofensas racistas. Segundo o inquérito conduzido pelo delegado Cesar Saad, os torcedores proferiram xingamentos como "sem dente", "passa fome" e "piolhento", além de comentários pejorativos sobre o cabelo do jogador enquanto ele se dirigia ao túnel de acesso aos vestiários.

Lei Geral do Esporte endurece punições

Os dois investigados foram indiciados com base no artigo 2º-A da Lei de Racismo (Lei nº 7.716/89), que prevê pena de 2 a 5 anos de reclusão. A Lei Geral do Esporte, sancionada em 2023, ampliou significativamente o arsenal jurídico contra discriminação nos estádios, estabelecendo punições que vão desde multas até perda de mandos de campo.

O artigo 243-G da nova legislação determina que manifestações discriminatórias podem resultar em multa de R$ 100 a R$ 100 mil para pessoas físicas, enquanto clubes podem perder entre 1 e 10 mandos de campo em casa. Conforme levantamento do SportNavo, essas punições representam um endurecimento de até 300% em relação às penalidades anteriores.

Hugo Souza confirmou em depoimento ter ouvido e compreendido as ofensas como racistas. Os dois acusados não compareceram à delegacia para interrogatório, apesar de terem sido regularmente intimados. O relatório foi encaminhado ao Ministério Público para prosseguimento das medidas legais.

STJD intensifica punições nos últimos três anos

Dados do Superior Tribunal de Justiça Desportiva mostram aumento de 180% nos casos julgados por discriminação racial entre 2021 e 2024. Em março passado, o Grêmio perdeu 5 mandos de campo após cânticos racistas contra o Palmeiras na Arena do Grêmio. O Internacional foi punido com 3 jogos sem torcida em setembro por episódio similar envolvendo torcedores do Flamengo.

O procurador do STJD, Caio Porto Ferreira, tem adotado postura mais rígida em casos de discriminação. Em relatório recente sobre outro caso envolvendo o Corinthians, ele destacou a necessidade de "postura firme e pedagógica" para transmitir aos clubes o dever de orientar torcedores sobre respeito e integridade nas competições.

"É essencial que o STJD adote postura firme e pedagógica, transmitindo ao Sport Club Corinthians Paulista a necessidade de orientar seus jogadores quanto ao dever de respeito aos adversários e à integridade da competição"

Tecnologia facilita identificação de infratores

O Corinthians colaborou ativamente com as investigações, fornecendo imagens de segurança que permitiram a identificação dos torcedores da Portuguesa. Câmeras de alta definição instaladas na Neo Química Arena captaram os rostos dos infratores com precisão suficiente para embasar o indiciamento.

A utilização de tecnologia de reconhecimento facial nos estádios brasileiros cresceu 250% desde 2022, segundo dados da Confederação Brasileira de Futebol. O sistema permite rastreamento em tempo real de torcedores banidos e facilita a punição de casos de discriminação como o envolvendo Hugo Souza.

O goleiro corintiano, que se tornou herói da classificação ao defender três pênaltis naquela partida, representa um dos 67% de jogadores negros na Série A do Brasileirão. Estatísticas da CBF indicam que casos de injúria racial envolvendo goleiros aumentaram 45% em 2024, possivelmente pela maior exposição desses atletas durante as partidas.

O Corinthians enfrenta o Palmeiras na próxima quarta-feira, no Allianz Parque, pela semifinal do Paulistão, com Hugo Souza confirmado como titular. O caso dos torcedores da Portuguesa aguarda manifestação do Ministério Público para definição das próximas etapas processuais.