10% dos brasileiros. É o tamanho da fatia que, segundo pesquisa do Centro de Estudos Aplicados de Marketing (CEAM) da ESPM-SP, afirma que não torcerá exclusivamente pelo Brasil na Copa do Mundo 2026. O estudo ouviu 400 torcedores de todas as regiões do país — e o número, embora pareça pequeno, esconde uma lógica que a CBF não pode ignorar: esse índice não é de indiferença, é de decepção acumulada.

O diagnóstico do momento

A pesquisa do CEAM traça um retrato incômodo. Entre os torcedores que avaliam o desempenho atual da Seleção com nota 4 ou menos, a fidelidade desaba para 57,4% — quase 43 pontos percentuais abaixo do índice geral. Em outras palavras, quando o time decepciona, quase metade dos mais críticos já não se compromete com a verde-amarela. O destino alternativo tem endereço certo: 3% migrariam para seleções europeias e 2,5% cruzariam a fronteira histórica para torcer pela Argentina, a maior rival do futebol sul-americano.

A diferença entre esses dois grupos — os 3% pró-Europa e os 2,5% pró-Argentina — pode parecer residual, mas a distância entre eles é do tamanho do Nordeste ao Sul do Brasil: culturalmente, torcer pela Argentina representa uma ruptura simbólica que nenhuma pesquisa de audiência consegue capturar plenamente. Para 67% dos entrevistados, a Seleção já foi muito mais importante no passado, e entre os torcedores acima de 70 anos esse sentimento de perda é absoluto — 100% deles afirmam que o Brasil de hoje não se compara aos esquadrões que viram ao longo da vida.

"São jovens ainda sem passado para cobrar. O Brasil os ama porque ainda não tem motivo para não amar", explicou Eduardo Mesquita, pesquisador do CEAM, ao se referir a Endrick, Estêvão e Luiz Henrique — os únicos nomes de consenso positivo no atual ciclo.

Os fatores que explicam o quadro

A análise do SportNavo sobre os dados do CEAM aponta três camadas sobrepostas de desgaste. A primeira é geracional: torcedores mais velhos carregam na memória a régua de Zico, Ronaldo e Ronaldinho, e qualquer comparação com o elenco atual sai desfavorável. A segunda é individual: Neymar, o jogador mais polarizador do estudo, é considerado indispensável por 56% dos entrevistados, mas 30,5% — cerca de um terço da torcida — simplesmente não o convocariam. A terceira, e mais estrutural, é de resultado: o lateral Danilo e o meia Lucas Paquetá registram índices de rejeição que superam suas aprovações, algo impensável em ciclos anteriores para titulares consolidados.

Esse triângulo de fatores — nostalgia, polarização individual e rejeição a nomes estabelecidos — cria um ambiente em que a fidelidade ao escudo deixa de ser automática. O torcedor brasileiro, historicamente o mais passional do mundo, começa a se comportar como consumidor: avalia entrega e, se não encontra, troca de produto. O mercado de apostas esportivas, que movimentou R$ 150 bilhões no Brasil em 2025 segundo a Secretaria de Prêmios e Apostas, reforça essa lógica transacional: o torcedor que aposta em seleções estrangeiras já normalizou a ideia de "não precisar" do Brasil para sentir emoção numa Copa.

Segundo Eduardo Mesquita, do CEAM, "a desconfiança nasce de uma desconexão geracional" — e os dados confirmam: entre os jovens de 18 a 34 anos, Neymar ainda é o grande ídolo, enquanto veteranos elevam o nível de exigência ao comparar o atual camisa 10 com lendas históricas.

Os cenários possíveis daqui

Carlo Ancelotti herda esse cenário com uma janela curta para reverter percepções. A Copa do Mundo 2026 começa em junho, nos Estados Unidos, Canadá e México, e o técnico italiano tem nas mãos exatamente os três nomes que o estudo aponta como pontos de consenso: Endrick, Estêvão e Luiz Henrique. A aposta na juventude não é apenas esportiva — é de reengajamento emocional com uma torcida que perdeu referências e precisa de novos ídolos para voltar a se identificar com a camisa amarela.

A CBF, por sua vez, enfrenta um problema de marca que vai além de resultados em campo. Se 10% dos brasileiros já declaram abertamente que não torcem exclusivamente pelo Brasil, o potencial de crescimento desse número após uma eventual eliminação precoce é real. O estudo do CEAM não mede o que acontece depois de um fracasso — mas a lógica dos dados sugere que a fidelidade de quem avalia o time com nota 4 ou menos pode despencar ainda mais em caso de queda nas oitavas ou quartas de final.

A pergunta que fica para as próximas semanas, quando Ancelotti anunciar a lista de convocados, é direta e concreta: se Neymar for cortado — e 30,5% da torcida quer exatamente isso —, os 10% que já demonstram desapego voltam a se engajar, ou a exclusão do maior nome do ciclo aprofunda ainda mais a sensação de que a Seleção perdeu sua identidade?