30 segundos. Esse é o tempo que Ferreirinha permaneceu em campo antes de ser expulso com cartão vermelho direto, na noite desta quarta-feira (13), no Alfredo Jaconi, em Caxias do Sul. O atacante havia entrado aos 43 minutos do primeiro tempo para substituir Luciano, que saiu com dores musculares na coxa direita. Antes que o relógio marcasse o minuto seguinte, um soco desferido contra o zagueiro Rodrigo Sam encerrou sua participação — e, com ela, as chances reais do São Paulo de reverter a eliminação na Copa do Brasil.
O gesto que transformou um jogo em sentença
O contexto imediato do lance não pode ser ignorado. Minutos antes da substituição, o próprio Rodrigo Sam havia protagonizado um desentendimento com Calleri: o zagueiro do Juventude atingiu a boca do atacante argentino com a mão, abrindo um corte no lábio. Na sequência, Rodrigo Sam revidou em nova disputa e recebeu cartão amarelo. O clima estava, portanto, eletrizado quando Ferreirinha pisou no gramado — e foi exatamente nesse ambiente que o atacante perdeu o controle emocional.
A arbitragem não hesitou: vermelho direto, São Paulo com dez jogadores ainda no primeiro tempo. A decisão transformou o que já era uma missão difícil em algo próximo do impossível. O Tricolor precisava vencer por dois gols de diferença para avançar — havia perdido por 2 a 1 no jogo de ida, no Morumbi — e passou a segunda etapa inteira com inferioridade numérica. O gol de 1 a 0, que veio, foi insuficiente no agregado: 2 a 2 no somatório, com o Juventude avançando pelo gol qualificado.
"Quando um jogador entra em campo com menos de um minuto e já provoca a própria expulsão, o problema não é tático — é de cultura competitiva. E cultura se constrói ao longo de meses, não se corrige em uma preleção", avaliou um analista de desempenho esportivo ouvido pela reportagem.
O que os números revelam sobre o colapso tricolor
A eliminação do São Paulo nas oitavas de final da Copa do Brasil não é um acidente isolado — é um dado que se encaixa em uma série de indicadores preocupantes. O clube ocupa, neste momento, o 12º lugar no Campeonato Brasileiro de 2026, com 34 pontos, distância confortável mas não tranquilizadora da zona de rebaixamento. O próprio Calleri, em declarações ao SporTV ainda no gramado do Alfredo Jaconi, dispensou qualquer eufemismo:
"Não tenho nem desculpas, acho que somos os maiores culpados. Não posso nem pedir desculpas, somos os maiores culpados e temos que nos responsabilizar. Foi uma m***, é a verdade, a gente não brigou pela segunda bola, fizemos m*** com a expulsão, fizemos m*** lá perdendo muitos gols, perdendo pênalti. Não tem desculpa. Merecemos ser cobrados e vamos ser cobrados", disse o camisa 9.
A fala de Calleri é sociologicamente reveladora. Quando o principal artilheiro de um clube assume publicamente a responsabilidade coletiva e afasta qualquer narrativa de vitimização, está sinalizando uma crise de governança interna que transcende o campo. O São Paulo perdeu por 2 a 1 em casa, no primeiro jogo, desperdiçando pênalti e múltiplas chances — e foi incapaz de transformar a pressão do Alfredo Jaconi em eficiência com um jogador a menos.

Há também uma dimensão econômica que merece atenção. A Copa do Brasil distribui premiações progressivas a cada fase: a eliminação nas oitavas representa uma perda estimada de receita que poderia alcançar dezenas de milhões de reais nas fases subsequentes, além do impacto simbólico de não disputar as quartas de final ao lado de Palmeiras, Corinthians e Santos — os outros três representantes paulistas entre os oito melhores. O São Paulo encerra sua participação enquanto o Juventude, clube que atualmente disputa a Série C do Brasileirão, avança como o único representante de uma divisão inferior entre os oito classificados.
Ferreirinha, Roger Machado e as consequências práticas da eliminação
Ferreirinha havia começado o jogo no banco de reservas por decisão do técnico Roger Machado, que optou por Cauly entre os titulares para o confronto decisivo em Caxias do Sul. O atacante vinha de duas partidas como titular, mas perdeu espaço momentaneamente na escalação. A entrada aos 43 do primeiro tempo foi, portanto, uma aposta de curto prazo em um momento de pressão — aposta que se desfez em 30 segundos.
A suspensão automática decorrente do cartão vermelho direto retira Ferreirinha de qualquer sequência imediata na Copa do Brasil — que, para o São Paulo, simplesmente não existe mais. Mas a ausência se projeta também para o Brasileirão, onde o clube ainda precisa administrar a situação de Luciano, que deixou o campo com dores musculares antes mesmo da substituição que gerou a expulsão. São duas baixas simultâneas no setor ofensivo, em um momento em que a equipe não pode se dar ao luxo de reduzir opções.
Roger Machado chega ao Alfredo Jaconi já sob pressão interna, e a eliminação — especialmente com o episódio da expulsão relâmpago — tende a intensificar o escrutínio sobre suas decisões de gestão de elenco. A escolha de acionar Ferreirinha em um ambiente de jogo já aquecido, com o zagueiro adversário recém-advertido, levanta questões sobre a leitura de contexto feita pela comissão técnica no momento da substituição.
Entre os oito classificados para as quartas de final da Copa do Brasil estão Palmeiras, Corinthians, Santos, Grêmio, Internacional, Juventude, Atlético Mineiro e Cruzeiro. São sete clubes da Série A e um da Série C. O São Paulo, com orçamento e estrutura muito superiores ao do time gaúcho, encerra sua participação antes das quartas — eliminado por um clube que disputa a terceira divisão nacional.
O próximo compromisso do Tricolor é contra o Fluminense, no dia 16 de maio, às 19h, pelo Campeonato Brasileiro. Antes disso, a diretoria e a comissão técnica precisarão responder a uma pergunta que Calleri já colocou em voz alta: quando um elenco profissional desperdiça pênaltis, perde gols em série e ainda desperdiça um jogador em 30 segundos por falta de controle emocional, o problema está na tática ou na receita — e quem, afinal, é o cozinheiro responsável por um prato que chegou à mesa completamente queimado?










