Quinta-feira, 9 de maio de 2026. A delegação do Flamengo desembarcou no Rio de Janeiro apenas à noite, depois de um dia inteiro de deslocamento que incluiu saída de Cusco, conexão em Arequipa e um voo com atraso causado por ajuste na malha aérea. A vitória por 2 a 0 sobre o Cusco FC pela Libertadores ficou para trás; o que restou foi um clube exausto com um clássico marcado para menos de 48 horas depois.

A CBF, acionada pela Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (Ferj), atendeu ao pedido e deslocou o confronto contra o Fluminense do sábado (11) para o domingo (12), com início às 18h, pela 11ª rodada do Brasileirão. O argumento era concreto: logística de retorno comprovada, um único treino disponível antes do jogo, e a necessidade de preservar o mínimo de equilíbrio competitivo num clássico de alto impacto. A entidade acatou.

Semanas antes, porém, a mesma CBF havia negado ao Flamengo um pedido de natureza diferente — e a resposta que veio foi categórica. O clube queria adiar a primeira partida da semifinal da Copa do Brasil contra o Corinthians, originalmente marcada para 12 de setembro, para o dia 19. A justificativa era a convocação de Cuéllar e Lucas Paquetá para suas respectivas seleções, o que os impediria de atuar na data original. A CBF disse não.

O que a CBF disse em cada decisão e o que isso revela

A nota oficial da entidade para a negativa na Copa do Brasil foi direta ao ponto: "A CBF não considerará qualquer pedido de alteração de datas da Copa do Brasil por entender que o calendário do futebol brasileiro, publicado ainda em setembro de 2017, deve ser cumprido a despeito de resultados ocasionais ocorridos em outras competições." A lógica invocada foi a da previsibilidade — o calendário foi construído com antecedência, os clubes conheciam as datas, e alterá-las por convocações seria abrir um precedente perigoso.

O problema é que o adiamento do clássico contra o Fluminense também envolveu um fator externo ao calendário original: o atraso aéreo após jogo da Libertadores. Se a CBF aplica o princípio da imutabilidade do calendário para a Copa do Brasil, por que o mesmo princípio não vale para o Brasileirão? A apuração do SportNavo indica que a diferença está no argumento utilizado — no caso do Fluminense, a Ferj intermediou o pedido com base em documentação de logística de transporte, enquanto o pedido da Copa do Brasil foi fundamentado em convocações para seleções, situação que a CBF entende como previsível e já contemplada no planejamento anual.

Quando a CBF aceita um pedido de adiamento, ela reconhece que circunstâncias imprevistas podem justificar flexibilidade. Quando rejeita outro com base em critérios fixos, ela sinaliza que nem toda circunstância tem o mesmo peso institucional. O critério, portanto, não é o calendário em si — é a natureza do imprevisto.

A reação de Bandeira e o argumento que ele não conseguiu emplacar

Eduardo Bandeira de Mello, presidente do Flamengo, não escondeu a insatisfação com a negativa na Copa do Brasil. Em declaração pública, foi contundente:

"Estamos muito decepcionados pois a CBF demonstrou que não respeita a competição que ela própria organiza. Está interferindo no equilíbrio técnico do principal torneio mata-mata do futebol brasileiro. A situação já era inadmissível pois a motivação era a realização de amistosos inexpressivos da seleção."

Quando as eliminações na Libertadores liberaram a semana do dia 19 tanto para o Flamengo quanto para o Corinthians, Bandeira voltou à carga com um argumento que parecia razoável do ponto de vista logístico:

"Agora que a data de 19 de setembro está liberada nem isso pode mais ser alegado. O Flamengo será prejudicado tecnicamente por uma decisão arbitrária e descabida."

O Corinthians, no entanto, não tinha interesse no adiamento — e o próprio Bandeira reconheceu isso: "Soube que eles não querem. O que se explica. Eles são beneficiados." A posição corintiana é compreensível: jogar sem Cuéllar e Paquetá no Maracanã representa uma vantagem objetiva. O desfalque pelo lado paulista era apenas Fagner, lateral titular, mas de menor impacto coletivo do que um volante de cobertura e um meia criativo.

Historicamente, a CBF sempre enfrentou pressão dos grandes clubes em períodos de calendário sobrecarregado. Em 2013, quando o Flamengo disputou simultaneamente Brasileirão, Copa do Brasil e Sul-Americana, a discussão sobre datas já era recorrente. A diferença é que, naquela época, o clube não tinha a estrutura de delegação internacional que tem hoje — e os atrasos aéreos em voos internacionais não eram parte do cotidiano das campanhas continentais.

O impacto real no equilíbrio da Copa do Brasil

A semifinal da Copa do Brasil entre Flamengo e Corinthians tem peso histórico considerável. O vencedor do confronto enfrenta o ganhador de Cruzeiro x Palmeiras na grande final, o que coloca em jogo um dos títulos mais relevantes do calendário nacional. Privar o Flamengo de dois titulares convocados — Cuéllar e Paquetá — na partida de ida, no Maracanã, altera a equação tática de forma mensurável.

Quando um clube perde um volante de contenção e um meia criativo simultaneamente por convocação, ele não perde apenas qualidade individual — perde padrão de jogo. Quando o adversário mantém seu elenco completo, exceto por um lateral, a assimetria é evidente. A CBF, ao invocar o princípio do calendário fixo, ignora que o próprio calendário de seleções — que ela também administra — é o agente causador do desequilíbrio.

A partida de volta está mantida para 26 de setembro, na Arena Corinthians. Se o Flamengo sair do Maracanã em desvantagem no placar, o argumento de Bandeira sobre o prejuízo técnico ganhará respaldo nos números — independentemente da posição institucional da CBF.

O Flamengo joga a primeira partida da semifinal no Maracanã sem Cuéllar, Paquetá e Trauco. A Copa do Brasil não espera.