Quinta-feira, 29 de maio de 2026. A poucos dias do apito inicial da Copa do Mundo, um estudo produzido por estudantes da Escola de Matemática Aplicada da Fundação Getúlio Vargas (FGV) jogou um balde de água fria no otimismo verde-amarelo: o Brasil aparece com menos de 10% de probabilidade de título, ficando atrás não só de Espanha, Argentina e Inglaterra, mas também de Colômbia e Marrocos.
O modelo aponta a Espanha como favorita absoluta, com 15,57% de chance de levantar a taça. A Argentina vem logo atrás, com 14,2%, seguida pela Inglaterra, com 13,8%. O Brasil, pentacampeão mundial, não chega a dois dígitos — e esse número tem uma explicação técnica bastante concreta.

Como o modelo da FGV calcula as probabilidades
O estudo foi desenvolvido por alunos da Escola de Matemática Aplicada da FGV e utiliza dados de desempenho recente das seleções para simular milhares de cenários possíveis no torneio. O ponto central do modelo — e o que mais interessa para quem gosta de análise de dados — é que ele não se baseia apenas em ranking FIFA ou histórico de títulos. Ele pondera desempenho ofensivo e defensivo recente, o que na prática se aproxima de métricas como xG (expected goals) e PPDA (passes permitidos por ação defensiva).
O xG mede a qualidade das chances criadas com base na posição do chute, distância e contexto da jogada — não apenas se o gol foi marcado. Uma seleção que cria chances de alto xG consistentemente tende a ser mais perigosa do que outra que depende de finalizações de baixa probabilidade. Já o PPDA indica o quanto uma equipe pressiona: quanto menor o índice, mais agressiva é a marcação no campo adversário. Espanha e Argentina, por exemplo, têm apresentado PPDA baixo nas últimas janelas de jogos — o que se traduz diretamente em maior chance de título nos modelos probabilísticos.
"O modelo leva em conta o desempenho recente das seleções, ponderando resultados e qualidade dos adversários enfrentados", explicaram os pesquisadores da FGV ao divulgar o estudo.
O que prejudica o Brasil nos dados estatísticos
Quando você olha os números recentes da Seleção Brasileira com olhos de analista, alguns padrões ficam evidentes. O Brasil teve dificuldades em converter domínio territorial em gols — um problema clássico de xG baixo para a quantidade de posse de bola. Times que criam muitas chances de baixa qualidade (finalizações de fora da área, cruzamentos sem receptor posicionado) acumulam xG inferior ao esperado, e isso pesa nos modelos estatísticos.
Outro fator que aparece nos dados é a fragilidade nas defensive actions — ações defensivas que incluem interceptações, duelos ganhos e bloqueios por 90 minutos. Uma seleção com poucos defensive actions por jogo tende a ser mais vulnerável a contra-ataques, o que penaliza sua probabilidade em modelos que simulam jogos contra times de alto nível técnico.
- Espanha (15,57%) — alta taxa de progressive passes por jogo, PPDA entre os três melhores do torneio, xG consistente acima de 1,8 por partida nas eliminatórias europeias
- Argentina (14,2%) — eficiência ofensiva elevada, com xG convertido em gols numa taxa acima da média; Messi como gerador de xA (expected assists) fora do padrão
- Inglaterra (13,8%) — volume de progressive passes — passes que avançam pelo menos 10 metros em direção ao gol — entre os maiores do torneio
- Brasil (menos de 10%) — xG abaixo do esperado para o nível técnico do elenco, com inconsistência nas defensive actions em jogos fora de casa
Colômbia e Marrocos, que aparecem à frente do Brasil no modelo — o que gerou espanto nas redes sociais —, têm algo em comum: compactação defensiva alta e transições rápidas. Marrocos, em particular, vem de uma Copa do Mundo 2022 em que apresentou o menor PPDA entre os times africanos e um dos maiores índices de defensive actions por 90 minutos do torneio inteiro. Esses dados ficam registrados e alimentam modelos como o da FGV.
Colômbia e Marrocos não são surpresa para quem lê os dados
Para quem acompanha futebol por métricas, a posição de Colômbia e Marrocos não é um absurdo. A Colômbia chegou à final da Copa América 2024 — perdendo apenas nos pênaltis para a Argentina — com um dos melhores pass networks do torneio: uma rede de passes bem distribuída, sem dependência excessiva de um único jogador para a saída de bola. Isso reduz a vulnerabilidade tática e aumenta a resiliência em jogos eliminatórios.
Marrocos, por sua vez, tem Walid Regragui — o técnico que conduziu o time às semifinais do Catar — construindo um sistema baseado em bloco baixo, transição vertical e alta densidade de defensive actions na faixa dos 30 metros. Esse estilo é extremamente difícil de ser modelado como "fraco" por algoritmos que valorizam consistência defensiva.

"Os modelos estatísticos não têm preconceito com tradição. Eles leem o que aconteceu nos últimos 24 meses de jogos, e Marrocos e Colômbia produziram dados muito sólidos nesse período", resumiu um dos pesquisadores envolvidos no estudo da FGV.
O Brasil ainda pode mudar esse cenário antes da Copa
Modelos probabilísticos — e o da FGV não é diferente — são fotografias do momento. Eles capturam o desempenho recente e projetam probabilidades, mas não são prognósticos definitivos. A Seleção Brasileira tem um elenco com xA potencial altíssimo: Vinicius Jr. e Rodrygo, juntos, geraram mais de 18 xA combinados na temporada 2025/2026 pelo Real Madrid — um número que coloca os dois entre os dez jogadores com maior geração de chances esperadas da Europa nesta temporada.
O problema identificado pelo modelo não é o talento individual. É a consistência coletiva — a capacidade de transformar esses números individuais em desempenho sistêmico da equipe. Progressive passes bem executados, PPDA baixo no campo adversário e defensive actions em volume adequado são métricas de time, não de estrela.
A Copa do Mundo começa com o Brasil estreando no Grupo D — e a resposta para a pergunta que o modelo da FGV levanta vai aparecer em campo: será que Ancelotti consegue transformar o talento individual do elenco em um sistema coletivo que produza xG consistente acima de 2,0 por jogo, o patamar que os modelos associam às seleções com maior chance real de título?












