Diz-se que o brasileiro torce pela Seleção como um reflexo automático, quase biológico. Na verdade, não torce mais — e os dados de engajamento nas redes sociais durante os últimos dois ciclos mostram exatamente isso. A Copa do Mundo de 2026, com a delegação já desembarcada em Nova Jersey desde a manhã desta terça-feira (2), começa com um fenômeno que pode atingir proporções inéditas: a maior torcida contra a Seleção da história.

O que o xG emocional de 1982 ainda produz hoje

Para entender o tamanho do problema, preciso usar uma analogia que faz sentido pra quem trabalha com dados: o xG emocional. Assim como o expected goals mede a probabilidade de um chute virar gol com base no contexto, existe uma probabilidade acumulada de uma torcida se converter em antipatia — e o Brasil vem construindo esse número há décadas.

O marco zero é 1982. A eliminação para a Itália, com aquele Brasil de Zico, Sócrates e Falcão, foi o primeiro grande trauma coletivo que plantou a semente da desconfiança. Não porque o time era ruim — era o contrário. Foi porque o futebol bonito não bastou, e parte do público começou a questionar se a Seleção representava, de fato, o que o Brasil queria ver em campo.

O que o xG emocional de 1982 ainda produz hoje Por que a torcida contra o Brasil
O que o xG emocional de 1982 ainda produz hoje Por que a torcida contra o Brasil

Nos ciclos seguintes, o distanciamento ganhou camadas. Os escândalos que envolveram dirigentes da CBF ao longo dos anos 2000 e 2010 — investigações, afastamentos, processos — criaram uma percepção de que a Seleção era propriedade de uma cúpula desconectada do torcedor comum. O 7 a 1 para a Alemanha em 2014, no próprio Mineirão, funcionou como um PPDA negativo — uma métrica que mede a pressão defensiva dividindo as ações defensivas pelas passes permitidos ao adversário. O Brasil, naquela noite, não pressionou nada. Deixou o jogo acontecer sem reação.

A torcida anti-Neymar como novo vetor de divisão

Se o fenômeno já existia, a Copa de 2026 adicionou um componente que amplifica tudo: a polarização em torno de Neymar. Não é exagero dizer que, pela primeira vez em muito tempo, há mais gente discutindo o camisa 10 do que a própria Seleção como coletivo — e isso tem consequências táticas e emocionais que vão além do campo.

Do ponto de vista dos dados, a presença de Neymar cria um problema de pass network — a rede de passes que define como um time se conecta. Quando um jogador concentra excesso de volume de toque sem produzir xA (expected assists) compatível, ele distorce o fluxo coletivo. Nas últimas temporadas, Neymar registrou números de xA abaixo de 0,15 por 90 minutos em contextos competitivos de alta intensidade, um índice que jogadores como Raphinha e Rodrygo superam com regularidade.

Mas o problema não é só tático. É simbólico. Muitos brasileiros enxergam a convocação do atacante como mais um capítulo da influência que ele exerce sobre a CBF — e isso alimenta diretamente a torcida contrária. Se Neymar tivesse ficado fora, seus admiradores mais apaixonados dificilmente aceitariam em silêncio. Com ele dentro, os críticos ganham volume. É um cenário sem saída neutra.

Ancelotti no centro de uma equação que vai além do campo

Carlo Ancelotti — o técnico que convocou 26 jogadores na última segunda-feira e apostou em experiência, inclusive na escolha de Weverton como goleiro — parece consciente do ambiente hostil, mas prefere focar no que controla. Na coletiva de convocação, foi direto:

"Tenho o conhecimento e a confiança de que este time pode competir com os melhores do mundo. Podemos ganhar a Copa do Mundo e chegar à final? Sim, podemos chegar a jogar a final. Mas não sei se é suficiente, o melhor é chegar e ganhar a final."

A frase tem uma estrutura interessante do ponto de vista analítico: Ancelotti calibra expectativa sem inflar. É o equivalente tático de um time que joga com defensive actions altas no campo médio — pressiona sem se expor. O italiano sabe que o ciclo foi turbulento, com troca de treinador e de presidente da CBF, e que o grupo tem apenas cerca de 40 dias de trabalho acumulado até a estreia contra Marrocos, no dia 13 de junho, em Nova York.

Casemiro — um dos líderes do vestiário e um dos jogadores mais experientes do grupo — foi ainda mais honesto ao desembarcar em Newark:

"Nós não somos a grande favorita. Chegamos fortes, temos um grupo bom, uma mescla de juventude e de grandes jogadores. Ciclo difícil, mudança de treinador, de presidente. Temos só um ano de trabalho. São apenas 40 dias de trabalho, mas chegaremos fortes."

Essa autoconsciência do elenco contrasta com o que parte da torcida projeta. Enquanto jogadores falam em "passinho atrás", uma parcela do público já posiciona a eliminação como desfecho esperado — e desejado por alguns.

A torcida anti-Neymar como novo vetor de divisão Por que a torcida contra o Bras
A torcida anti-Neymar como novo vetor de divisão Por que a torcida contra o Bras

O efeito cascata que a Copa de 2026 pode deixar para o futebol brasileiro

O fenômeno da torcida contra a Seleção não é só sociológico. Ele tem impacto estrutural. Quando a base de apoio se fragmenta, patrocinadores recalibram investimentos, a CBF perde poder de negociação em janelas de transferência e o ciclo de jovens talentos — como Andrey Santos e João Pedro, citados pelo próprio Ancelotti como nomes que ficaram fora desta lista mas têm futuro no projeto — enfrenta mais pressão para justificar cada convocação.

Do ponto de vista dos progressive passes — métrica que conta passes que avançam o jogo em direção ao gol adversário — a Seleção de Ancelotti tem potencial real. Raphinha, Rodrygo e Vinicius Jr. estão entre os jogadores com maiores índices dessa métrica em seus respectivos clubes na temporada 2025/2026. O problema é que progressive passes não convencem quem já decidiu que não quer ser convencido.

Conforme registrado pelo SportNavo ao longo do ciclo eliminatório, a Seleção classificou com vitória por 1 a 0 sobre o Paraguai, em partida na Neo Química Arena onde Ancelotti elogiou o domínio no primeiro tempo mas admitiu queda de ritmo na etapa final. Não foi uma campanha que gerou euforia — foi uma campanha que gerou alívio. E alívio não constrói unanimidade.

A estreia no Grupo G acontece no dia 13 de junho, contra Marrocos, em Nova York. Antes disso, o Brasil enfrenta o Egito no dia 6 de junho, em Cleveland, no último amistoso preparatório. Se a Seleção jogar bem contra o Egito e abrir o torneio com uma vitória convincente sobre Marrocos, parte da hostilidade pode se dissolver — torcida anti-seleção tem histórico de recuar quando os resultados aparecem. Se tropeçar, os fogos de artifício em partes do Brasil vão começar antes do apito final. O campo decide o primeiro jogo em 13 de junho — a torcida já escolheu o lado antes disso.