Quando o árbitro apitou o encerramento do empate por 1 a 1 entre San Lorenzo e Santos, no Nuevo Gasómetro em Buenos Aires, na noite de terça-feira (28), Neymar ficou parado por alguns segundos no gramado. Ao redor dele, jogadores adversários disputavam sua camisa e camiseta. Nas arquibancadas, parte da torcida do clube argentino ainda cantava seu nome. O capitão alvinegro escolheu responder com um vídeo em espanhol, gravado para as redes sociais do San Lorenzo, que viralizou ainda durante a madrugada.
Uma recepção que ele nunca tinha vivido
A declaração de Neymar foi direta e reveladora.
"Nunca vou esquecer do carinho que me deram. Torcida incrível, cantou durante todo o jogo. Me receberam muito bem, nunca havia vivido isso fora do Brasil", afirmou o jogador, em espanhol, no vídeo publicado pelo clube portenho.
A afirmação tem peso quando se considera a trajetória internacional do camisa 10. Neymar atuou por quatro temporadas no Barcelona, onde conviveu com torcidas mediterrâneas passionais, e por seis anos no Paris Saint-Germain, ambiente marcado por uma relação tensa com parte da torcida. Na Al Hilal, na Arábia Saudita, o contexto cultural era completamente distinto. Em nenhum desses capítulos, segundo suas próprias palavras, algo comparável havia acontecido.
Antes mesmo da bola rolar, o afeto já estava visível: um menino se emocionou ao entrar no gramado ao lado do atacante durante a cerimônia de abertura, e Neymar retribuiu com gestos de carinho que correram as redes sociais. A cena, captada pelas câmeras, sintetizou a atmosfera daquela noite no estádio da Vila del Parque.
O jogo que ficou em segundo plano para o Santos
Dentro de campo, o Santos viveu uma noite de alívio parcial. O Peixe saiu atrás aos 26 minutos do primeiro tempo, quando um vacilo de Willian Arão no meio-campo resultou no gol de Cuello. A reação veio cinco minutos depois, numa jogada construída por Rollheiser e Neymar: o camisa 10 invadiu a área pela esquerda, devolveu para o argentino, que ajeitou para Gabigol finalizar de canhota. O nono gol do ex-Flamengo na temporada 2026 restabeleceu a igualdade.
O segundo tempo foi de equilíbrio sem criatividade. O técnico Cuca sacou Rollheiser — principal destaque alvinegro na etapa inicial — para a entrada de Barreal, o que esfriou o ímpeto ofensivo do Santos. O time terminou a terceira rodada da fase de grupos da Sul-Americana com apenas dois pontos em nove possíveis, na lanterna do Grupo D. O San Lorenzo, com cinco pontos, manteve a liderança da chave.
Cuca avaliou o desempenho de Neymar com equilíbrio.
"Neymar melhorou na segunda etapa, onde encontrou mais espaço para jogar. No primeiro tempo foi muito bem marcado, apesar que no primeiro gol ele também participou diretamente. No segundo tempo fez jogadas inteligentes, ele é inteligente, busca o passe que poucos conseguem", analisou o treinador em entrevista coletiva.
A sombra do racismo sobre a mesma noite
O contraste da noite no Nuevo Gasómetro foi brutal. Enquanto boa parte das arquibancadas reverenciava Neymar com cânticos, um torcedor do San Lorenzo foi flagrado pelas câmeras proferindo insultos e gestos racistas em direção ao setor ocupado pelos torcedores brasileiros — incluindo a imitação de macacos. As imagens circularam nas redes sociais ainda durante a partida e geraram repercussão imediata.
Até o encerramento do jogo, o San Lorenzo não havia se pronunciado oficialmente sobre o caso. A expectativa é que a Conmebol instaure processo disciplinar contra o clube mandante. O departamento jurídico do Santos monitora a situação para formalizar uma queixa junto à entidade sul-americana. Conforme levantamento do SportNavo, episódios similares envolvendo torcedores argentinos contra delegações brasileiras se repetem com frequência preocupante nas competições da Conmebol, e as punições históricas — majoritariamente multas financeiras — não têm se mostrado suficientes para coibir o comportamento.

O episódio expõe uma contradição flagrante: o mesmo ambiente que produziu uma das recepções mais calorosas que Neymar disse ter vivido fora do Brasil também abrigou, na mesma noite, um ato de discriminação racial contra seus compatriotas. A análise do SportNavo indica que a idolatria ao craque individual e a hostilidade dirigida à torcida adversária coexistem num mesmo recorte das arquibancadas argentinas — fenômeno que as federações sul-americanas ainda não conseguiram endereçar com eficácia.
Convocação e o próximo desafio
O próprio Cuca aproveitou a coletiva para defender a presença de Neymar na lista de Carlo Ancelotti para a Copa do Mundo, que será disputada nos Estados Unidos, México e Canadá.
"Eu vejo o Neymar cada vez mais forte para ser convocado para a Seleção. Eu torço para que isso aconteça, como brasileiro que sou", declarou o técnico, que também destacou o carinho argentino: "Quando o jogo acabou eles aplaudiram Neymar, dou os parabéns por essa bela manifestação".
O Santos volta a campo no sábado (2), às 18h30, no Allianz Parque, contra o Palmeiras pela 14ª rodada do Campeonato Brasileiro. Cuca admitiu não saber se poderá contar com Neymar e Gabigol no gramado sintético da arena palmeirense — questão que o craque e o artilheiro têm reservas históricas. O clássico, no entanto, já aguarda respostas dentro das quatro linhas.








