Como uma cidade consegue entrar em colapso sanitário justamente no ano em que o estado ao redor apresenta queda de 43,6% nos casos de dengue? A resposta não é simples, e os dados de Alagoinhas, no nordeste baiano, exigem uma leitura mais cuidadosa do que os números estaduais sugerem à primeira vista.

A Bahia registrou, até 4 de maio, aproximadamente 9,1 mil casos prováveis de dengue — contra 16.146 no mesmo intervalo de 2025, segundo boletim da Secretaria da Saúde do Estado (Sesab). No Brasil, a redução foi ainda mais expressiva: cerca de 227,5 mil ocorrências prováveis até o início de abril, volume 75% inferior ao mesmo período do ano passado. Números que confortam. Mas que escondem bolsões críticos.

Seis municípios baianos em epidemia e o peso dos dados de Alagoinhas

A Vigilância Epidemiológica da Sesab, cujos dados foram divulgados pelo Conselho Estadual de Saúde (CES), classifica seis municípios baianos em situação de epidemia neste momento: Araci, Campo Alegre de Lourdes, Maraú, Remanso, Uauá e Alagoinhas. Outros 43 municípios permanecem em nível de alerta para arboviroses — um mapa que indica que a circulação viral está longe de ser residual.

Alagoinhas se destaca pelo volume e pela formalização do problema. Entre 1º de janeiro e 29 de abril, o município contabilizou 1.374 notificações suspeitas de dengue, chikungunya e zika. Dos casos já confirmados, 65 são de dengue, 129 de chikungunya e quatro de zika. Outros 650 exames ainda aguardam resultado laboratorial — o que significa que o retrato final pode ser consideravelmente mais grave. Decidiu-se, então, pelo decreto de emergência em saúde pública, com validade inicial de 30 dias, abrindo caminho para contratações emergenciais, aquisição de materiais e ampliação das campanhas de conscientização.

Metade dos imóveis sem vistoria — a aritmética do fracasso preventivo

Não há tragédia: há contabilidade. Dos cerca de 60 mil imóveis previstos para inspeção pelos agentes de combate às endemias em Alagoinhas, aproximadamente 29 mil estavam fechados ou sem autorização dos moradores para entrada das equipes. Quase metade do território urbano, portanto, permaneceu inacessível — e o Aedes aegypti não respeita portões trancados.

O virologista Gúbio Soares, cientista que primeiro detectou o vírus da zika no Brasil, contextualiza o mecanismo por trás desses surtos localizados:

"No caso desses municípios, é provável que os pacientes sejam pessoas que nunca tiveram contato com os vírus da dengue, chikungunya e zika. Por não terem resposta imune, são infectadas e o vírus se espalha. A epidemia é caracterizada por um aumento abrupto de casos e isso pode se espalhar em cidades vizinhas."

O especialista também atribui parte da queda geral dos casos a condições climáticas — especificamente à redução de chuvas em relação ao período anterior —, o que reforça a leitura de que os números favoráveis no agregado estadual não eliminam o risco em municípios com populações imunologicamente virgens para determinados sorotipos.

Ações do estado e os grupos prioritários no protocolo de resposta

A Sesab estruturou um conjunto de medidas emergenciais e de médio prazo que inclui distribuição de larvicidas, equipamentos, medicamentos e carros fumacês para os municípios afetados. Uma das iniciativas mais específicas é a aquisição de repelentes destinados a gestantes cadastradas na atenção básica — grupo de maior risco para complicações associadas ao vírus zika, que já soma quatro casos confirmados apenas em Alagoinhas.

A Bahia contabiliza, no total, 121 casos graves de dengue e dois óbitos confirmados em 2026. As mortes ocorreram em Juazeiro e Jequié, envolvendo pacientes de 33 e 61 anos, respectivamente. O presidente do CES, Marcos Sampaio, reconhece a melhora relativa, mas calibra o tom:

"Em alerta temos cerca de 43 municípios, mas em epidemia seis. O cenário era muito mais preocupante no ano passado, mas a dengue sempre requer cuidado. Os números estão abaixo do que foi em 2025, mas isso não significa que não seja necessário um cuidado maior."

O que Alagoinhas ensina para o restante da temporada epidemiológica

A lição mais direta do caso de Alagoinhas é estrutural: a redução estadual de casos não protege municípios com baixa cobertura de vistoria, populações sem imunidade prévia e infraestrutura de resposta insuficiente. Gúbio Soares reforça que o aumento de casos aponta que "os vírus continuam ativos na população e que todas as medidas de campanha de prevenção devem continuar ativas, especialmente em períodos de chuva" — e o calendário de chuvas no nordeste baiano ainda reserva meses críticos.

O decreto de emergência em Alagoinhas vence em 30 dias. Caso os 650 exames laboratoriais pendentes confirmem uma proporção elevada de casos positivos, a prefeitura deverá avaliar a renovação das medidas e o reforço das equipes de campo — desta vez com estratégias que consigam alcançar os quase 29 mil imóveis que permaneceram fechados na primeira rodada de inspeções.