O silêncio do banco de reservas diz mais sobre um treinador do que qualquer entrevista coletiva — e Cláudio Tencati é o tipo de técnico que comunica mais pelo posicionamento dos seus do que pelo gesto dramático à beira do gramado.

Como começou a carreira de treinador

Nascido em 9 de dezembro de 1973, Tencati pertence a uma geração de treinadores brasileiros que aprendeu o ofício nas divisões inferiores, onde a margem para erro é estreita e o orçamento, mais estreito ainda. Essa escola tem nome: é a Série B, a Série C, os campeonatos estaduais do interior, ambientes que forjam um tipo específico de treinador — aquele que sabe fazer muito com pouco. Não é romantismo; é pragmatismo estrutural. Quem passa anos gerindo elencos enxutos desenvolve uma leitura de jogo diferente de quem estreia em clubes com departamentos técnicos robustos.

A trajetória de Tencati no comando técnico ainda está sendo catalogada em detalhes pela imprensa especializada, mas o acúmulo de passagens pelo futebol do interior paulista e paranaense deixou uma marca reconhecível: a capacidade de montar equipes coesas sem depender de individualidades.

A filosofia que define seu trabalho

Tencati não é um treinador de sistema único. Ele adapta a estrutura ao elenco disponível, mas há princípios que se repetem independentemente do clube. O primeiro deles é a compactação defensiva — suas equipes tendem a defender em bloco médio-baixo, dificultando linhas de passe entre as linhas adversárias. O segundo é a velocidade de transição: quando recupera a bola, o time de Tencati busca chegar ao terço ofensivo em poucos toques, antes que o adversário organize a marcação.

Esse modelo não é espetacular no sentido estético, mas é funcional. Na Brasileirão Série B, onde a diferença entre o acesso e o rebaixamento frequentemente se define em pontos de disputa direta, ter uma equipe difícil de ser batida vale tanto quanto ter uma equipe que encanta. Tencati parece compreender essa aritmética com clareza.

O equilíbrio entre linhas é outra marca registrada. Suas equipes raramente ficam esticadas — o espaço entre defesa e ataque costuma ser curto, o que reduz os canais para contra-ataques adversários, mas exige alto nível de concentração coletiva durante os 90 minutos.

As passagens que moldaram o estilo

Sem uma lista exaustiva de clubes anteriores disponível para análise, o que se pode dizer com precisão é que Tencati chegou ao Botafogo SP com um currículo construído fora dos grandes centros midiáticos do futebol brasileiro. Isso tem implicações diretas no seu método: treinadores que passaram anos trabalhando sem cobertura diária aprendem a isolar o elenco do ruído externo. A gestão do vestiário, nesses casos, tende a ser mais direta e menos dependente de aprovação pública.

Há um paralelo histórico que vale registrar. Treinadores como Paulo Bonamigo, que construiu carreira sólida no interior do Brasil antes de alcançar visibilidade nacional, e Márcio Fernandes, que passou anos moldando equipes de médio porte antes de revelar seu método ao grande público, compartilham com Tencati esse perfil de formação longa e discreta. Não é comparação de resultados — é comparação de trajetória formativa.

O que o levantamento do SportNavo sobre treinadores da Série B de 2026 revela é que esse perfil — técnicos com mais de uma década de trabalho nas divisões de acesso — representa mais de 40% dos comandantes da competição nesta temporada, o que sugere que o mercado reconhece o valor dessa escola específica.

O momento atual no time

A Brasileirão Série B de 2026 é uma das mais equilibradas dos últimos anos. Com vinte clubes disputando vagas de acesso e brigando para fugir do rebaixamento, o campeonato não perdoa sequências negativas. Tencati está à frente de um Botafogo SP que historicamente oscila entre os dois objetivos — ora candidato ao acesso, ora preocupado com a degola — e essa dualidade exige do treinador uma capacidade de gerenciar expectativas dentro e fora do clube.

A pressão sobre treinadores de Série B tem características próprias. Diferente do que ocorre na elite, onde a demissão pode vir após três derrotas seguidas, nas divisões de acesso há uma tolerância ligeiramente maior com ciclos de trabalho — desde que o técnico demonstre evolução tática identificável. Tencati, por seu histórico de construção paciente, tende a ser avaliado mais pelo processo do que pelo resultado imediato de cada rodada.

A gestão do elenco em um clube como o Botafogo SP, com recursos limitados para o mercado, demanda também habilidade para manter jogadores motivados em situações de irregularidade. Essa é uma das competências menos visíveis de um treinador, mas uma das mais determinantes para o desempenho ao longo de um campeonato de trinta e oito rodadas.

O que pode vir nas próximas temporadas

Treinadores que constroem trabalho consistente na Série B invariavelmente chegam a um momento de definição: ou o clube que comandam sobe de divisão e eles ganham exposição na elite, ou o trabalho atrai interesse de outros projetos. Tencati está nesse ponto da carreira.

A Série B tem funcionado historicamente como vitrine para técnicos que o mercado ainda não precificou corretamente. Doriva, antes de suas passagens por clubes de Série A, passou anos sendo subestimado exatamente por trabalhar fora dos holofotes. O mecanismo é o mesmo: bons resultados nas divisões de acesso eventualmente forçam uma reavaliação do mercado.

Como começou a carreira de treinador Por que Cláudio Tencati é peça-chave da
Como começou a carreira de treinador Por que Cláudio Tencati é peça-chave da

Para Tencati, as próximas semanas da Série B de 2026 representam uma janela de afirmação. Um ciclo positivo de resultados pode consolidar sua posição no Botafogo SP e ampliar sua visibilidade nacional. Um ciclo negativo pode pressionar a diretoria a tomar decisões que redefinam o projeto.

A questão concreta que fica é esta: se o Botafogo SP entrar na zona de acesso até o final do primeiro turno da Série B de 2026, Tencati terá capital político suficiente para manter o trabalho até dezembro — ou a pressão por resultados imediatos vai encurtar esse prazo independentemente da posição na tabela?