Diz-se que o aproveitamento de pontos é a única métrica que importa quando um clube boliviano chega à Copa Sudamericana. Essa premissa, confortável e preguiçosa, ignora a variável mais decisiva de qualquer campanha continental: o modelo de jogo que o treinador consegue instalar antes que o torneio comece a cobrar. Erwin Sánchez Freking, 56 anos, boliviano de nascimento e de convicções táticas, entende isso melhor do que a maioria dos nomes que circulam pelo circuito sul-americano neste momento.

O esquema que ele sempre busca rodar

Sánchez Freking pertence a uma geração de treinadores sul-americanos que cresceu assistindo ao futebol europeu dos anos 1990 — época em que o pressing organizado ainda não tinha nome sofisticado, mas já determinava quem controlava o jogo. O Arrigo Sacchi do Milan de 1988 a 1990 foi o primeiro a demonstrar, com dados empíricos, que uma linha defensiva alta e compacta podia sufocar adversários tecnicamente superiores: o Milan daquela era venceu duas Copas dos Campeões consecutivas sem ter o jogador individualmente mais talentoso em nenhuma posição. Essa lógica — organização coletiva sobreposta ao talento individual — é o fio condutor do trabalho de Sánchez Freking.

O boliviano prefere estruturas que permitam transições rápidas, com linhas próximas entre si e um bloco médio que se compacta sem abrir mão da saída de bola pelo chão. Não é o gegenpressing de Klopp em sua versão mais agressiva, mas tampouco é o futebol de espera que se associa, equivocadamente, ao futebol boliviano. Há uma inteligência posicional no que ele propõe — algo que, em Barcelona, chamariam de juego de posición adaptado às limitações de elenco.

Como ele monta o time dentro desse esquema

À frente do Blooming, Sánchez Freking trabalha com o que o clube oferece — e essa restrição, longe de ser um obstáculo, revela muito sobre seu método. Treinadores que dependem de elencos ricos raramente desenvolvem soluções táticas sofisticadas; os que constroem com pouco, por necessidade, tornam-se inventivos. O boliviano opera nessa segunda categoria.

Sua montagem preferida parte de uma defesa de quatro, com dois volantes de perfis distintos: um de contenção e outro de distribuição. Essa dualidade no meio-campo não é acidente — é a peça que permite ao time sair jogando sem expor a linha defensiva. O corredor central fica protegido, e as jogadas de progressão passam pelos laterais, que sobem com critério. Em competição continental, onde os espaços são menores e o ritmo é mais alto do que na liga doméstica boliviana, essa estrutura exige disciplina coletiva acima de qualquer atributo individual.

As decisões de banco de Sánchez Freking seguem uma lógica conservadora no sentido tático — ele não troca posicionamento por improvisação. Substituições chegam para reforçar princípios, não para abandoná-los. Quando o placar pressiona, ele prefere ajustar linhas do que mudar o esquema inteiro, o que transmite ao elenco uma sensação de estabilidade que clubes menores raramente encontram em competições eliminatórias.

Onde o esquema funciona melhor (e onde quebra)

O modelo de Sánchez Freking tem virtudes claras em contextos específicos. Contra adversários que gostam de ter a bola — times que praticam variações de tiki-taka ou que dependem de circulação lenta para criar — o bloco compacto do boliviano funciona como armadilha: deixa o rival circular na periferia e fecha os caminhos centrais. A Copa Sudamericana, por sua natureza eliminatória, favorece quem sabe defender bem e aproveitar os poucos momentos de desequilíbrio.

As fragilidades aparecem quando o adversário tem velocidade nas transições e qualidade técnica nos extremos. Um pressing alto bem executado — como o que times argentinos e brasileiros melhor estruturados praticam — pode encontrar espaços nas costas dos laterais do Blooming, especialmente se o time não conseguir subir as linhas com velocidade suficiente para anular o contra-ataque. É o ponto de tensão que Sánchez Freking precisa resolver no palco continental, onde as margens de erro são inexistentes.

Há também a questão da altitude. Santa Cruz de la Sierra, sede do Blooming, não oferece o mesmo benefício geográfico que La Paz — e isso significa que o clube não pode depender do fator físico para neutralizar rivais. O esquema precisa funcionar pelo mérito tático, não pela biologia. Essa exigência, paradoxalmente, torna o trabalho de Sánchez Freking mais interessante de analisar: o que ele produz é resultado de método, não de vantagem ambiental.

Os jogadores que ele privilegia para fazer funcionar

Sánchez Freking tem preferência declarada por jogadores inteligentes posicionalmente em detrimento de atletas de maior explosão física mas menor leitura de jogo. Em matéria do SportNavo publicada anteriormente sobre o futebol boliviano, essa característica já aparecia como marca registrada de treinadores formados no circuito doméstico do país — onde o elenco raramente tem profundidade, e o técnico precisa extrair o máximo de cada titular.

Erwin Sánchez Freking (Blooming)
Erwin Sánchez Freking (Blooming)

O volante de distribuição é a peça central do sistema. Sem um jogador capaz de girar sob pressão e encontrar o terceiro homem no timing certo, o esquema perde fluidez e o time fica preso no campo defensivo. O segundo elemento que Sánchez Freking valoriza é o atacante de referência — não necessariamente um centroavante clássico, mas alguém que segure a bola e permita que os meias cheguem de trás. É uma lógica que remete ao futebol europeu dos anos 2000, quando o target man ainda era peça fundamental antes que o falso nove de Guardiola redefinisse a função do número 9.

O que une todos os perfis que o boliviano privilegia é a capacidade de manter a estrutura coletiva mesmo sob pressão. Não é talento que ele persegue primeiro — é comprometimento com o sistema. Essa hierarquia de valores, aplicada a um clube como o Blooming na Copa Sudamericana de 2026, define os limites e as possibilidades do que está sendo construído em Santa Cruz.

Erwin Sánchez Freking tem 56 anos. É a idade em que treinadores ou já consolidaram um método reconhecível ou desapareceram do circuito. Ele ainda está no jogo — e isso, por si só, já é um dado que merece atenção.