O banco de reservas estava quieto. Nenhum gesto exagerado, nenhum sprint nervoso à linha lateral. Apenas um olhar fixo no campo, lendo o jogo como quem lê um texto em idioma familiar. Franck Rizzetto, nascido em março de 1971, não precisa gritar para ser ouvido — e é exatamente essa economia de energia que define o treinador que hoje comanda o Club Guarani na Copa Sulamericana de 2026.
Num torneio que exige adaptação rápida, gestão emocional e capacidade de reinventar esquemas entre uma rodada e outra, o perfil de Rizzetto emerge como algo raro no futebol paraguaio: um técnico que pensa em sistemas antes de pensar em nomes. Não é pouca coisa. Na Europa, esse princípio é o ABC do coaching moderno — do gegenpressing de Klopp ao tiki-taka que Barcelona exportou para o mundo. Na América do Sul, ainda é privilégio de poucos.
Como ele lida com a estrela do elenco
Rizzetto pertence a uma geração de treinadores que aprendeu a desconfiar do talento individual quando ele não serve ao coletivo. Não por ideologia, mas por pragmatismo. O pressing alto que ele parece privilegiar — ao menos pelo comportamento do Guarani em campo — exige que todos pressionem. Todos. A estrela incluída.
Essa postura tem um custo político. Jogadores acostumados a receber o balón e decidir sozinhos raramente aceitam bem a ideia de pressionar o lateral adversário na saída de bola. Rizzetto, ao que tudo indica, não negocia esse ponto. O que ele oferece em troca é clareza: dentro do sistema, o talento brilha com mais eficiência. É a mesma lógica que Guardiola usou para transformar Bernardo Silva de coadjuvante em peça insubstituível no Manchester City.
No contexto da Copa Sulamericana, onde o Guarani enfrenta adversários de diferentes países e culturas táticas, essa firmeza com os melhores jogadores do elenco é o que garante consistência entre uma partida e outra. Consistência, na competição continental, vale mais do que momentos de genialidade isolada.

Como ele lida com o jovem em ascensão
Há um padrão reconhecível em treinadores formados na escola europeia: eles não têm pressa com jovens talentos, mas também não os protegem do peso da responsabilidade. Rizzetto parece operar nessa mesma frequência.
Dar minutos a um jovem numa competição continental não é generosidade — é cálculo. O técnico que expõe um jogador em formação à pressão de um jogo eliminatório está, na prática, comprimindo anos de desenvolvimento em semanas. O risco é real. Mas o retorno, quando bem administrado, é transformador.
No Guarani de 2026, essa gestão de jovens tem peso duplo: o clube paraguaio historicamente forma jogadores para exportação, e uma boa campanha na Sulamericana é vitrine continental. Rizzetto entende esse contexto. Ele não joga jovens por falta de opção — ele os joga quando o momento pedagógico coincide com a necessidade tática. That's the difference.
Como ele lida com o veterano em queda
Este é o teste mais duro para qualquer treinador. Mais do que escalar ou poupar, a relação com o veterano em declínio revela o caráter do técnico. Rizzetto tem 55 anos. Já foi jovem promissor, já foi experiente consolidado. Essa trajetória pessoal tende a produzir empatia — mas não necessariamente condescendência.
O veterano que ainda entrega dentro do sistema joga. O que não entrega, independentemente do nome ou do histórico, cede espaço. É uma postura que pode gerar atritos no vestiário, mas que, a médio prazo, constrói credibilidade. Os jogadores jovens observam. E quando veem que o critério é rendimento — não reputação —, confiam mais no processo.
Numa competição como a Sulamericana, onde o calendário é denso e as viagens internacionais desgastam fisicamente, saber quando poupar um veterano sem humilhá-lo é uma habilidade tão importante quanto qualquer ajuste tático. Rizzetto parece ter essa sensibilidade calibrada.
O ambiente que ele cria no vestiário
Vestiários sul-americanos têm uma temperatura própria. São ambientes de alta intensidade emocional, onde lideranças informais disputam espaço com a autoridade formal do treinador. Quem já acompanhou de perto o futebol europeu — especialmente o espanhol e o inglês — sabe que o modelo de gestão mais eficaz é aquele que canaliza essa energia em vez de suprimi-la.
Rizzetto parece construir um ambiente baseado em clareza de papéis. Cada jogador sabe o que se espera dele. Essa transparência reduz a ansiedade coletiva — e ansiedade, em competições eliminatórias, é o maior inimigo do desempenho. O squad do Guarani que disputa a Sulamericana em 2026 não é o mais estrelado do torneio. Mas é, ao que os jogos sugerem, um grupo que joga junto.
Há algo de escola europeia nessa construção de ambiente. Não a frieza escandinava, nem o autoritarismo mediterrâneo — algo mais próximo do equilíbrio que técnicos como Unai Emery levaram anos para aprender a calibrar. Um vestiário que respeita sem temer, que compete sem se destruir internamente.
A Copa Sulamericana de 2026 ainda está em curso. O Guarani ainda tem capítulos a escrever. E Rizzetto, com sua leitura fria do jogo e sua gestão calculada de pessoas, é o personagem central dessa história — um técnico que não precisa de holofotes para exercer influência. É o mesmo cenário que o San Lorenzo viveu em 2014 quando chegou à final da Libertadores com um elenco sem grandes estrelas — só que agora a aposta é diferente, e o nome no banco é outro.










