A última vez que um meia europeu vestiu a camisa 10 do Coritiba com regularidade e entregou participações em gol consistentes ao longo de uma temporada inteira, o clube ainda brigava por outros objetivos. Agora, em 2026, é Josué — Josué Filipe Soares Pesqueira, nascido em Valongo, Portugal, em 17 de setembro de 1990 — quem ocupa esse espaço, com 35 anos, 174 cm e a responsabilidade de organizar o jogo alviverde no Brasileirão Série A.

Onde ele pode estar em 2027

Projetar o futuro de um meia de 35 anos é um exercício parecido com analisar os últimos movimentos de um enxadrista experiente: cada peça colocada no tabuleiro carrega peso acumulado de decisões anteriores, e o valor não está mais na velocidade, mas na leitura. Josué fecha 2026 com 34 jogos disputados, 1 gol e 5 assistências na temporada — uma taxa de participação direta em gol que, distribuída por uma campanha completa, representa algo concreto para um jogador na reta final da carreira.

Se o Coritiba encerrar a temporada com desempenho satisfatório na Série A, há cenários reais: renovação para 2027 em papel reduzido de liderança técnica, transição para função híbrida de jogador-referência, ou até encerramento da passagem brasileira e retorno à Europa. O que os números desta temporada indicam é que o rendimento ainda justifica presença em elenco de primeira divisão… mas falta o resto.

Onde ele pode estar em 2027 Por que Josué ainda carrega a camisa 10
Onde ele pode estar em 2027 Por que Josué ainda carrega a camisa 10

O que precisa acontecer até lá

Josué precisa que o Coritiba encontre identidade tática consistente ao redor dele. Um meia organizador de 35 anos funciona melhor quando o sistema protege suas limitações físicas e amplifica sua visão de jogo — e isso exige comprometimento do clube tanto na montagem do elenco quanto na continuidade do comando técnico. Sem essa estrutura, os 5 assistências desta temporada podem ser o teto, não a base.

No plano individual, a manutenção de minutagem elevada ao longo de 34 jogos já é, por si só, um dado relevante: significa que o treinador confia no português para sequências longas, não apenas para intervenções pontuais. O SportNavo identificou que essa regularidade — quase uma partida por rodada — é o principal argumento de Josué para seguir como titular e não como coadjuvante em 2027.

O que já aconteceu na trajetória

Antes de chegar ao Brasil, Josué construiu a parte mais produtiva de sua carreira recente no Legia Warszawa, da Polônia. Na Ekstraklasa de 2022, foram 28 jogos, 10 gols e 5 assistências — um pico ofensivo que o colocou entre os meias mais eficientes da liga polonesa naquele ano. Em 2023, ainda pelo Legia, somou mais 28 partidas na Ekstraklasa com 5 gols e 5 assistências, além de 12 jogos na UEFA Europa Conference League, competição em que marcou 2 vezes e distribuiu 3 passes para gol.

Essa passagem pela Conference League é o turning point mais claro da trajetória recente: jogar competição europeia aos 32 e 33 anos, contra clubes de diferentes ligas, testou e confirmou que Josué tinha repertório técnico para ambientes de alto nível. É como um músico de jazz que, depois de anos em clubes menores, toca pela primeira vez num festival internacional e prova que o vocabulário sempre esteve lá — só faltava o palco certo.

A chegada ao Coritiba em 2024, ainda na Série B, foi uma aposta de adaptação. Naquele ano, disputou 12 jogos com 1 gol e 2 assistências — números modestos, mas suficientes para que o clube decidisse mantê-lo no elenco para a Série A de 2026. A progressão de 12 para 34 jogos entre as duas temporadas brasileiras diz mais sobre a consolidação do português no ambiente do que qualquer estatística isolada.

Os obstáculos no caminho

O principal obstáculo de Josué não é técnico — é demográfico. Meias de 35 anos no Brasileirão Série A são exceção, não regra, e o mercado brasileiro tende a rejuvenescer os elencos com velocidade maior do que as ligas europeias. A cada janela de transferências, o português precisa reafirmar utilidade num ambiente que naturalmente favorece jogadores dez anos mais novos.

Há também a questão da produção ofensiva. O pico de 10 gols na Ekstraklasa de 2022 ficou para trás, e o padrão atual — 1 gol por temporada no Brasil — indica que Josué migrou de um perfil box-to-box para um papel mais de distribuição e inteligência posicional. Isso não é necessariamente negativo, mas estreita o leque de clubes dispostos a escalar um meia 10 que não ameaça a meta adversária com frequência. A camisa 10 carrega expectativa de criação e decisão — e equilibrar essa exigência simbólica com as limitações naturais da idade é o desafio mais silencioso que Josué enfrenta em cada rodada do Brasileirão… e aí vem o problema.

O que precisa acontecer até lá Por que Josué ainda carrega a camisa 10
O que precisa acontecer até lá Por que Josué ainda carrega a camisa 10

Aos 35 anos, com passaporte português e carreira construída entre Polônia e Brasil, Josué representa um perfil raro: o jogador que chegou tarde ao futebol sul-americano, mas chegou com bagagem suficiente para não ser figurante. Os 34 jogos de 2026 são a prova mais recente disso. Se serão os últimos nesse nível ou o trampolim para mais uma renovação, só a sequência da temporada vai responder.