Há percursos no futebol que desafiam a linearidade. O de Keanu Baccus é um deles: nascido em Durban, na África do Sul, naturalizado australiano antes de completar um ano de vida, formado nos campos de west Sydney e hoje vistindo a camisa 25 da Juventus na Champions League. Na temporada 2025/2026, o meia de 27 anos já acumula 38 partidas, 4 gols e 7 assistências — números que colocam em xeque qualquer narrativa de que ele seria apenas um nome exótico no plantel bianconero.

Das ruas de Sydney ao futebol profissional

Keanu Kole Baccus cresceu em Kings Langley, no oeste de Sydney, região conhecida por revelar talentos para o futebol australiano. Ainda criança, foi o goleiro Mark Schwarzer — um dos maiores nomes do esporte no país — quem lhe serviu de inspiração para encarar o futebol como profissão. Esse detalhe biográfico não é trivial: Schwarzer construiu carreira longa na Premier League justamente por reunir consistência técnica e mentalidade competitiva, atributos que mais tarde se tornariam marcas registradas do próprio Baccus.

A transição para o futebol de alto nível ganhou contornos internacionais quando o meia representou a Austrália nos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020, disputados em 2021. A experiência olímpica no nível sub-23 foi um divisor de águas: expôs Baccus a ritmos e adversários de outro calibre, acelerando seu desenvolvimento tático.

A Copa do Mundo que mudou tudo

A verdadeira virada no arco de carreira de Baccus aconteceu em 2022. Em setembro daquele ano, ele estreou pela seleção principal australiana num amistoso contra a Nova Zelândia — entrando no segundo tempo como reserva. A confirmação de que havia chegado para ficar veio em 8 de novembro de 2022, com a convocação para a Copa do Mundo no Catar.

No torneio, Baccus atuou como opção saindo do banco nos três primeiros jogos da Austrália. A grande oportunidade surgiu nas oitavas de final, diante da Argentina de Lionel Messi. Com o país eliminado e o adversário em alto nível, Baccus foi titular — uma prova de confiança do então técnico australiano em momento de máxima pressão. A derrota encerrou o sonho do Mundial, mas o desempenho naquela partida funcionou como vitrine para olheiros europeus.

O caminho até a Juventus passou antes pelo St Mirren, da Escócia, onde Baccus consolidou consistência e ganhou minutagem regular no futebol europeu. Esse período escocês foi decisivo para lapidar a compreensão tática do jogador em ligas físicas e de alta intensidade — um currículo que claramente pesou na hora da contratação pelo clube de Turim.

Números que importam nesta temporada

Os 38 jogos disputados por Baccus na temporada 2025/2026 pela Juventus já o colocam entre os meias com maior minutagem no plantel. Mais reveladores do que a quantidade de partidas, porém, são os 7 passes para gol — marca que reflete função ofensiva clara num sistema que exige meias com capacidade de ligação entre as linhas.

Um levantamento do SportNavo sobre meias australianos na Champions League mostra que Baccus é, nesta temporada, o representante do país oceânico com maior número de participações diretas em gols na competição — dado que illustra tanto a raridade do feito quanto a solidez da temporada que está fazendo.

Das ruas de Sydney ao futebol profissional Por que Keanu Baccus virou peça-chave
Das ruas de Sydney ao futebol profissional Por que Keanu Baccus virou peça-chave

Os 4 gols marcados também merecem atenção: para um meia de características mais organizadoras, chegar a esse número na Champions League indica que o jogador soube explorar também chegadas ao ataque, ampliando seu repertório ofensivo de maneira mensurável.

Estilo de jogo e função tática

Com 178 cm e 70 kg, Baccus não é o meia de físico avassalador comum na Europa contemporânea. Sua eficiência vem de outro lugar: da leitura do espaço, da capacidade de circular entre linhas e da versatilidade que lhe permite atuar em diferentes funções no meio-campo sem perder coerência.

Essa versatilidade foi moldada ao longo da carreira. Nos Jogos Olímpicos, operou em sistemas que exigiam transição rápida. Na Escócia, adaptou-se a um futebol mais direto e físico. Na Juventus, encontrou a síntese: um contexto tático sofisticado que valoriza meias tecnicamente precisos e capazes de sustentar a posse sem abrir mão da capacidade de desequilibrar.

Comparado com pares na mesma posição dentro da Champions League 2025/2026, Baccus se destaca menos pela imposição individual e mais pela regularidade de contribuição — padrão de jogador que técnicos experientes valorizam em competições de longa duração, onde consistência supera lampejos de brilho isolado.

O que esperar nos próximos doze meses

A análise do SportNavo aponta três cenários plausíveis para Baccus nos próximos 12 meses. O primeiro, e mais provável dado o atual nível de entrosamento com o elenco da Juventus, é a consolidação no clube italiano com renovação contratual — o que seria a chancela definitiva de que a aposta bianconera no meia australiano se confirmou.

O segundo cenário envolve a seleção australiana: com a Copa do Mundo de 2026 se aproximando no horizonte, Baccus — que já conhece a competição por dentro — tem tudo para ser peça central no meio-campo dos Socceroos. Seu desempenho na Champions League eleva seu status dentro do grupo nacional e potencializa sua influência nas convocações.

O terceiro cenário é o mais incerto, mas não irrealista: um clube de liga ainda mais competitiva demonstrando interesse. Um meia com 7 assistências na Champions League e passaporte para circular livremente na Europa tem valor de mercado crescente — e os próximos meses dirão se a Juventus pretende segurar ou negociar esse ativo.

O que a trajetória de Keanu Baccus ensina, acima de tudo, é que caminhos tortuosos podem levar a destinos precisos. Do jardim de infância em Kings Langley à Allianz Stadium, em Turim, cada etapa foi necessária. O meia australiano não chegou à Champions League por acaso — chegou por acúmulo.