O silêncio de São Januário durou menos que o empate de 2 a 2 com o Paysandu, na última rodada da Copa do Brasil. Mas uma pergunta ficou suspensa no ar depois do apito final: onde estava o nome de Léo Jardim na pré-lista de 55 convocados que Carlo Ancelotti enviou à Fifa para a Copa do Mundo de 2026? O próprio goleiro do Vasco não soube responder com precisão — e a honestidade da declaração diz muito sobre a opacidade dos critérios adotados pela nova comissão técnica da Seleção.

"Eu tinha essa expectativa, sei que eu tenho condições de poder estar naquela pré-lista, mas a gente sabe que tem diversos fatores que envolvem a decisão. Mas o que eu posso fazer é continuar fazendo meu trabalho aqui no clube e sempre buscar estar na minha melhor forma", afirmou Léo Jardim após a partida.

A fala carrega a resignação de quem foi convocado no ciclo anterior — Dorival Júnior chegou a chamar o arqueiro em 2024 — e agora se vê diante de uma nova gestão com prioridades distintas. Não é a primeira vez na história da Seleção que a troca de treinador redesenha completamente a hierarquia entre os goleiros: em 1994, Taffarel era titular indiscutível sob Parreira, mas chegou ao Mundial com concorrência acirrada de Zetti e Gilmar; em 2006, Felipão escalou Dida mesmo com a pressão pública por Marcos, campeão da Libertadores naquele ano.

A lógica de Ancelotti para a posição de goleiro não é a mesma de Dorival

Frase que resume a seção: Ancelotti não convoca goleiros — ele escolhe sistemas de jogo e depois encaixa os perfis.

O italiano de 66 anos construiu sua carreira priorizando goleiros que dominam a saída de bola e organizam a linha defensiva com comandos precisos. No Real Madrid, Thibaut Courtois era peça central não apenas pelas defesas, mas pela capacidade de iniciar jogadas com os pés — estatística que o belga liderou entre os goleiros da Champions League em múltiplas temporadas. Esse modelo de goleiro-libero, popularizado por Manuel Neuer no Bayern de Munique a partir de 2011, tornou-se referência global e influencia diretamente a visão de Ancelotti sobre a posição.

No contexto brasileiro, como o SportNavo mapeou ao longo do ciclo preparatório para 2026, os nomes que melhor se encaixam nesse perfil são Ederson, do Manchester City — titular da Seleção em boa parte dos últimos anos —, Bento, do Al-Qadsiah, e Weverton, do Palmeiras. Alisson Becker, do Liverpool, segue como referência histórica, mas enfrenta oscilações físicas que abriram espaço para a disputa. Léo Jardim, tecnicamente competente, opera num modelo mais reativo, adequado ao estilo defensivo do Vasco, mas distante do perfil de construção que Ancelotti valoriza.

Há um dado que contextualiza a discussão: desde a Copa de 2018, quando Alisson assumiu a titularidade definitiva, o Brasil sofreu 1,1 gol por jogo em Copas do Mundo — média que inclui a eliminação nas quartas de 2022 para a Croácia, após pênaltis. A busca por um goleiro que una reflexos, liderança e qualidade com os pés não é capricho estético; é resposta a uma tendência tática que domina o futebol europeu de alto nível.

A defesa de Léo Jardim tem mérito, mas o Vasco complica o argumento

Quatro jogos consecutivos sofrendo gols — esse é o número que pesa contra Léo Jardim no momento em que Ancelotti avalia sua pré-lista.

O próprio goleiro reconheceu a fragilidade defensiva da equipe carioca com uma franqueza incomum no futebol brasileiro. "Quando a gente consegue sair na frente e não sofre gols, o jogo fica muito mais tranquilo. Infelizmente, ainda estamos oscilando bastante e sofrendo gols que acabam complicando as partidas", disse o arqueiro após o empate com o Paysandu. A declaração é honesta, mas funciona como argumento contrário à convocação: um goleiro que admite instabilidade defensiva sistemática dificilmente convence uma comissão técnica a incluí-lo numa lista de 55 nomes.

A comparação histórica é pertinente. Marcos, por exemplo, foi preterido por Felipão em 2006 mesmo após ser eleito melhor goleiro do mundo em 2002 — o técnico alegou que o arqueiro do Palmeiras não se encaixava no estilo de jogo proposto. Rogério Ceni, ídolo do São Paulo com 131 gols marcados ao longo da carreira, jamais foi titular absoluto da Seleção justamente porque os treinadores da época priorizavam goleiros com perfil defensivo mais convencional. A história da Seleção é repleta de excelentes goleiros que não encontraram o momento certo com o técnico certo.

No Rio de Janeiro de hoje, no compasso agitado de quem tenta equilibrar Copa do Brasil e Brasileirão, Léo Jardim carrega o peso de ser o melhor jogador de uma equipe que ainda busca consistência. Isso é reconhecimento, mas também armadilha: o goleiro brilha individualmente em jogos que o time deixa complicar, o que amplifica sua visibilidade mas também expõe a fragilidade coletiva à sua volta.

O que Léo Jardim precisaria fazer para entrar na lista final dos 23

A pré-lista não é sentença — é o ponto de partida de uma negociação técnica que vai até julho.

Ancelotti tem até o início de junho para cortar os 55 nomes e chegar aos 23 definitivos. Nesse intervalo, lesões, quedas de rendimento e surpresas de última hora já reescreveram listas históricas. Em 2002, Ronaldo Fenômeno entrou em forma apenas nos meses finais do ciclo e terminou artilheiro do torneio com oito gols — o maior número de um jogador numa única edição desde Fontaine, em 1958, com 13 tentos. A Copa do Mundo tem esse poder de inverter prognósticos.

Para Léo Jardim, o caminho passa por dois fatores objetivos: manter o Vasco com solidez defensiva nas próximas semanas — o clube disputa Copa do Brasil e Brasileirão 2026 simultaneamente — e torcer para que algum dos goleiros da pré-lista apresente queda de rendimento ou problema físico. Weverton tem 37 anos; Alisson acumula histórico de lesões musculares; Bento ainda constrói regularidade no futebol árabe. A janela existe, mas é estreita.

O Vasco volta a campo pelo Brasileirão Série A no próximo final de semana, e cada partida de Léo Jardim será observada pela comissão técnica da CBF. Se o arqueiro conseguir manter o gol em zero por pelo menos três rodadas consecutivas, o argumento técnico para uma convocação de última hora ganha substância real — e a conversa sobre os critérios de Ancelotti para goleiros precisará ser reaberta.