A bola saiu pelo ângulo, o estádio respirou fundo, e o número 6 do Criciúma ficou parado por três segundos no meio do campo — não de cansaço, mas daquele silêncio interno de quem percebeu que poderia ter feito mais.
O que ele ainda não resolveu
Marcinho — nome de campo de Márcio Miranda Freitas Rocha da Silva, nascido em 8 de junho de 1995 — completará 31 anos durante esta temporada do Brasileirão Série A, e carrega consigo uma contradição que define seu momento: é, ao mesmo tempo, um dos defensores mais participativos do elenco catarinense e um jogador que ainda não encontrou consistência plena nos momentos de maior pressão. Não se trata de falta de qualidade — os números desta temporada provam o contrário. O problema é de outra ordem: Marcinho ainda não consolidou sua identidade dentro de campo como um zagueiro de referência, aquele que os companheiros buscam instintivamente nos momentos críticos, não apenas nos de transição.
Com 176 centímetros e 76 quilogramas, ele não é o zagueiro imponente que intimida pelo físico. Sua vantagem sempre foi a leitura de jogo e a capacidade de iniciar jogadas — atributos raros numa posição que o senso comum ainda associa apenas à destruição. Mas há uma lacuna que persiste: nos momentos em que o Criciúma mais precisa de um líder defensivo, Marcinho ainda oscila entre o papel de organizador e o de executor, sem assumir definitivamente nenhum dos dois.

Onde está hoje em relação a esse buraco
Os dados desta temporada são, ao mesmo tempo, a prova do problema e do potencial. Em 30 jogos pelo Criciúma no Brasileirão Série A 2026, Marcinho somou 2 gols e 5 assistências — números que, para um zagueiro, representam uma contribuição ofensiva rara. Para ter uma referência concreta: 5 assistências num único campeonato colocam Marcinho entre os defensores mais criativos da Série A, superando a produção de assistências de vários meias titulares de times da parte de baixo da tabela nesta mesma edição do torneio.
O paradoxo é que essa mesma capacidade de criar — de sair com a bola, de encontrar o passe que rompe linhas — é o que alimenta sua instabilidade posicional. Marcinho avança quando deveria segurar, busca a jogada de efeito quando a situação pede o simples. O talento está lá; o controle sobre quando usá-lo, ainda não.
Há, nesse perfil, uma semelhança curiosa com trajetórias de jogadores que chegaram à maturidade tardia no futebol brasileiro — defensores que passaram anos sendo classificados como "promessas irregulares" antes de encontrar o técnico ou o sistema certo para transformar irregularidade em característica. Marcinho ainda está nesse processo.
O caminho técnico para tapá-lo
A solução para a lacuna de Marcinho não está em suprimir o que ele tem de diferente — estaria em disciplinar o momento de uso. Um zagueiro que distribui 5 assistências numa temporada não deve ser corrigido para se tornar um destruidor convencional. Deve, isso sim, aprender a hierarquizar situações: quando o jogo pede contenção, conter; quando pede transição, transitar com a velocidade que já demonstra ter.

Tecnicamente, o caminho passa por dois eixos. O primeiro é o posicionamento defensivo nos momentos em que o time está comprimido — situações em que sua tendência de antecipar o jogo ofensivo o deixa fora de posição. O segundo — e talvez mais delicado — é o desenvolvimento de uma comunicação mais assertiva com o setor defensivo: Marcinho precisa assumir a voz da zaga, não apenas o passe de saída.
Aos 31 anos, ele não tem mais o tempo que tinha aos 25 para experimentar. Mas tem algo que compensa: a experiência acumulada de quem passou por sistemas táticos diferentes e sobreviveu — o que, no futebol brasileiro, já é currículo.
O que isso destrava na carreira
Se Marcinho resolver essa equação — e há razões concretas para acreditar que pode —, o que se abre diante dele é uma janela que poucos zagueiros de sua geração ainda têm disponível. Um defensor de 31 anos que marca gol, distribui assistência e sai jogando com qualidade é exatamente o perfil que clubes de médio porte da Série A buscam quando precisam de liderança sem gastar em estrelas.
O Criciúma — que disputa a elite do futebol brasileiro num contexto de pressão permanente pela permanência — é o laboratório perfeito para esse salto. A pressão do rebaixamento, paradoxalmente, é o melhor ambiente para um jogador como Marcinho descobrir quem ele realmente é dentro de campo. Não há espaço para a indefinição quando cada ponto vale uma temporada inteira.
Nos próximos 12 meses, os cenários são claros: se mantiver a produção atual e resolver a oscilação nos momentos críticos, Marcinho tem perfil para atrair interesse de clubes maiores da Série A — ou, no mínimo, renovar com o Criciúma numa posição de protagonismo que ainda não é totalmente sua. Se a inconsistência persistir, o risco é outro: o de ser lembrado como um jogador de números bonitos que nunca transformou estatística em status.
Conforme analisado em matéria do SportNavo, jogadores nessa encruzilhada raramente precisam de talento adicional — precisam de clareza. E Marcinho, com o número 6 nas costas e 30 jogos de evidência numa temporada ainda em curso, parece estar mais perto dessa clareza do que em qualquer outro momento da carreira.










