A última vez que o Fluminense esteve tão perto de uma eliminação precoce na fase de grupos da Libertadores foi em 2013, quando só avançou na última rodada com combinação de resultados. Nesta terça-feira (19), no Maracanã, o roteiro voltou a ter aquele cheiro de fim — até John Kennedy cruzar a área aos 26 minutos do segundo tempo, encher o pé de canhota e fazer 2 a 1 contra o Bolívar. Sessenta mil pessoas explodiram. E então, menos de quatro minutos depois, o mesmo John Kennedy caminhou em direção ao banco. Cano entrava em seu lugar. A festa parou no meio.

O que a raiva da torcida ignora sobre a situação do Fluminense no Grupo C

O protesto nas redes sociais foi imediato e ruidoso. A narrativa construída pelos torcedores era simples: você tira o herói do jogo no momento em que ele mais está aquecido. Há uma lógica emocional nessa crítica, e ela não deve ser descartada sem análise. Mas há um contexto que a indignação apaga: o Fluminense precisava de três gols de diferença para depender apenas de si na última rodada. Com 2 a 1 no placar aos 30 minutos do segundo tempo, o jogo ainda estava matematicamente em aberto para uma virada — e para a busca de um terceiro gol que tornaria a equação classificatória mais simples.

O auxiliar Maxi Cuberas, que assumiu o comando da equipe por conta da suspensão de Luis Zubeldía (terceiro cartão amarelo no empate com o Independiente Rivadavia), fez a substituição dentro de uma lógica funcional: colocou Germán Cano, centroavante de área com perfil diferente de John Kennedy, justamente para pressionar a saída de bola do Bolívar e criar uma segunda referência ofensiva. A pergunta real não é se a troca foi acertada — é se ela foi bem explicada. E aí vem o problema.

John Kennedy em grande fase, mas o jogo exigia mais do que um nome

Os números de John Kennedy nesta temporada tornam a substituição ainda mais difícil de engolir do ponto de vista emocional. O atacante carioca marcou quatro gols e deu duas assistências nos últimos cinco jogos do Fluminense, uma sequência que o coloca entre os jogadores mais decisivos do elenco no período recente. Na própria partida contra o Bolívar, ele havia perdido uma chance clara no primeiro tempo antes de resolver o jogo no segundo. Retirar um atleta nesse estado de forma é, no mínimo, uma aposta.

A analogia que vem à mente é musical: é como tirar o solista no meio do riff mais importante da noite porque o produtor quer testar outro arranjo. Pode funcionar. Mas o público não vai entender na hora — e o ônus da explicação fica com quem tomou a decisão. Cuberas, interino sem o peso hierárquico de Zubeldía, arcou com essa reação sem ter microfone disponível para contextualizá-la em tempo real.

O que o SportNavo apurou nas fontes que acompanharam o jogo é que a entrada de Cano também tinha relação com o desgaste físico de John Kennedy, que havia percorrido intensa movimentação durante toda a partida numa noite quente no Rio. Mas esse argumento só convence quem já está disposto a ouvir.

O Maracanã viu o jogo ser administrado, não ampliado

Com Cano em campo, o Fluminense não conseguiu ampliar. O argentino, recuperado fisicamente mas ainda em processo de adaptação ao ritmo de jogo, chegou a finalizar em cena de Samuel Xavier, mas sem sucesso. O Bolívar, com o placar em 2 a 1, ainda tentou um último suspiro com Robson nos minutos finais, sem efetividade. O resultado ficou em 2 a 1, o que significa que o Fluminense chega à última rodada empatado em cinco pontos com os bolivianos, mas em desvantagem no confronto direto — critério que vale nesta edição da Libertadores.

Para avançar às oitavas de final, a equipe de Zubeldía precisa vencer o La Guaira no dia 27 de maio, no Maracanã, e ainda torcer para que o Bolívar não triunfe diante do Independiente Rivadavia — já classificado com dez pontos e, portanto, sem pressão alguma para o confronto em La Paz. É uma combinação possível, mas que depende de variáveis externas. Se o Fluminense tivesse feito os três gols que precisava, nada disso seria necessário.

A decisão de Cuberas foi defensável, mas o timing foi péssimo

Defender a substituição de John Kennedy não significa dizer que ela foi brilhante. Significa reconhecer que havia uma racionalidade por trás dela — preservar o atleta, inserir um perfil de área com Cano, manter pressão ofensiva com característica diferente. O problema é que, em situações de alta tensão emocional, a racionalidade tática precisa ser comunicada com clareza. Cuberas não tinha esse canal disponível da mesma forma que Zubeldía teria.

"Aos 25 minutos, John Kennedy fez o gol da vitória, mas foi tirado logo depois e o Tricolor não mudou o panorama do confronto", registrou o Lance! em sua cobertura da partida, sintetizando a frustração que tomou conta do estádio.

A realidade nua é esta: o Fluminense ganhou o jogo com um gol de John Kennedy e não conseguiu ampliar depois que ele saiu. A torcida vai lembrar dessa sequência por muito tempo. Zubeldía, quando retornar ao banco no dia 27 de maio contra o La Guaira, vai precisar de uma vitória limpa para encerrar esse ciclo de tensão que já dura toda a fase de grupos. A conta chegou mais cedo do que deveria — e o Maracanã vai cobrar o troco.