Diz-se que as grandes comemorações do futebol são improvisadas, nascidas no calor do momento. A de Kylian Mbappé no MetLife Stadium, nesta terça-feira (16), foi exatamente o oposto: ensaiada, combinada e entregue com a precisão de quem já sabe que vai marcar. Depois de abrir o placar para a França contra o Senegal, o camisa 10 correu até a beira do campo e simulou tocar uma flauta transversal diante de 80 mil pessoas — um gesto que, em segundos, se tornou a imagem mais comentada da Copa do Mundo 2026.
A flauta que Mbappé prometeu tocar se marcasse
A origem do gesto remonta ao sábado (13), quando a Fox Sports publicou um vídeo de entrevista com o apresentador britânico James Corden. Na conversa, Mbappé revelou que aprendeu a tocar flauta transversal ainda criança. "Meus pais queriam que eu explorasse muitas coisas e mantivesse minha mente aberta", contou o atacante. "Tentei tocar por um ou dois anos e foi divertido." Corden, com o timing de apresentador experiente, esticou o braço, entregou uma flauta para o francês e sugeriu que aquele fosse o gesto da próxima comemoração. Mbappé respondeu na hora: "Contra Senegal, se eu marcar." Marcou. Duas vezes.
Quem acompanhou as comemorações icônicas dos anos 1990 vai lembrar que Roger Milla dançou ao redor do poste da bandeira de escanteio no Mundial de 1990 — uma cena que o mundo nunca esqueceu. Bebeto embalou o filho imaginário em 1994. Klinsman mergulhou no gramado em 1990. Cada geração produz o seu símbolo visual. A flauta de Mbappé entrou nessa tradição com uma diferença: foi a primeira comemoração de Copa do Mundo combinada ao vivo numa entrevista de TV, dias antes de acontecer. É o futebol do século XXI — parte esporte, parte entretenimento planejado.
14 gols e Klose cada vez mais próximo
A comemoração musical não apagou o peso histórico dos dois gols. Mbappé chegou a 14 tentos em Copas do Mundo — quatro em 2018, oito em 2022 e dois nesta edição —, ultrapassando Pelé e Lionel Messi, ambos com 13. O francês agora está empatado com Gerd Müller, que marcou dez gols no Mundial de 1970 e outros quatro em 1974, e está a um gol de Ronaldo Fenômeno, artilheiro de três Copas (1998, 2002 e 2006) com 15 tentos. O recorde absoluto de Miroslav Klose, 16 gols em 24 partidas ao longo de quatro Mundiais (2002, 2006, 2010 e 2014), está a dois gols de distância. A França ainda tem, no mínimo, mais dois jogos na fase de grupos — contra o Iraque, na segunda-feira (22), e contra a Noruega, na sexta (26).
Para contextualizar o que esse número representa: Klose precisou de quatro Copas e 24 partidas para chegar a 16 gols. Mbappé tem 14 em apenas três edições. Se mantiver a média de 4,67 gols por Copa, encerra este Mundial como recordista absoluto. É a trajetória mais acelerada da história do torneio — mais do que a de Ronaldo Fenômeno, que chegou a 15 gols, e mais do que a de Gerd Müller, que em 1970 marcou dez numa única edição, feito que resistiu por décadas como o maior número individual numa Copa. Mbappé marcou oito em 2022, o segundo melhor resultado individual da história, atrás apenas de Müller.
Uma vitória complicada que a imprensa europeia não ignorou
A França venceu por 3 a 1, mas o placar final não conta toda a história. O Senegal foi superior no primeiro tempo — finalizou cinco vezes, acertou a trave com Nikolas Jackson aos 25 minutos e registrou apenas um chute a gol sofrido, o menor número da história francesa em fases de grupos, segundo a plataforma Opta. O próprio técnico Didier Deschamps reconheceu o desconforto: "É um alívio, estávamos um pouco apreensivos, um pouco tensos no início. Quando conseguimos jogar com um pouco mais de liberdade, as coisas melhoraram." Michael Olise, do Bayern de Munique, foi eleito o craque da partida pela assistência que originou o primeiro gol francês.
Na Europa, a repercussão foi imediata. O L'Équipe destacou que Mbappé se tornou o maior artilheiro da história da seleção francesa com 58 gols, superando Olivier Giroud (57). O Marca, da Espanha, sintetizou a dupla Mbappé-Olise com a frase "Olise propõe e Mbappé dispõe". O AS foi mais direto: "A França tem duas bestas." Já a Gazzetta dello Sport, sem Itália no torneio, publicou que "França e Mbappé assustam a Copa do Mundo". Em matéria do SportNavo, esse eco europeu tem um paralelo claro: foi exatamente assim que a imprensa do continente reagiu à estreia de Ronaldo Fenômeno em 1994 e à de Zidane em 1998 — surpresa misturada com reconhecimento de que algo grande estava acontecendo.
Mbappé e os críticos — uma relação que ele recusa administrar
Depois do apito final, Mbappé foi direto sobre as cobranças que acumulou ao longo da temporada no Real Madrid:
"Não estou jogando por vingança. Se eu quisesse calar todos os críticos, teria que jogar até os 80 anos. Estou apenas focado em dar o meu melhor pelo meu país. Só isso."
A frase tem a estrutura de quem já ensaiou a resposta — não porque seja falsa, mas porque Mbappé aprendeu, desde os 19 anos em 2018, que a relação com a mídia é parte do trabalho. Há um paralelo histórico aqui: Ronaldo Fenômeno viveu sob pressão permanente após a crise convulsiva na véspera da final de 1998 e respondeu com a artilharia de 2002. Zidane foi expulso na final de 2006 e saiu do futebol como ídolo absoluto mesmo assim. O futebol europeu tem uma longa tradição de craques que constroem a narrativa da própria carreira dentro de campo — Mbappé segue esse roteiro com consciência.
O atacante também avaliou o desempenho coletivo sem euforia:

"Acho que não estamos totalmente presentes, mas é muito bom começar a competição com mais tranquilidade. Numa Copa do Mundo nunca estamos tranquilos. As equipes são fortes; sabemos que todos querem ganhar e fazer um bom jogo."
A França estreia com três pontos, liderança momentânea do Grupo I e um Mbappé a dois gols do recorde de Klose — o próximo teste chega na segunda-feira (22), contra o Iraque, no Lincoln Financial Field, na Filadélfia, às 18h (de Brasília). A flauta foi tocada — falta a sinfonia completa.










