Faltou. Em oito partidas pela Seleção Brasileira — convocações distribuídas entre os ciclos de Fernando Diniz, Dorival Júnior e Carlo Ancelotti —, João Pedro não marcou um único gol, não distribuiu uma assistência sequer. Esse jejum estatístico, contrastando diretamente com os números que o atacante de 24 anos construiu pelo Chelsea na temporada 2025/2026, foi o argumento silencioso que Ancelotti carregou consigo até a manhã desta segunda-feira, 18 de maio, quando fechou definitivamente a lista dos 26 convocados para a Copa do Mundo — apenas cinco horas antes do anúncio no Museu do Amanhã.
A reação de João Pedro e o peso de um sonho interrompido
Nas redes sociais, João Pedro foi direto e elegante ao mesmo tempo.
"Procurei dar o meu melhor a todo o tempo. Infelizmente não foi possível realizar esse sonho de defender meu país em uma Copa do Mundo, mas sigo tranquilo e centrado, como sempre procuro estar. Alegrias e frustrações fazem parte do futebol."O atacante completou dizendo que, a partir de agora, torce pelos convocados para que tragam o hexacampeonato. A maturidade do texto contrasta com a dor que ele representa: ser o artilheiro do Chelsea numa temporada europeia e assistir à Copa pela televisão é um tipo de injustiça que os números não conseguem resolver sozinhos.
A apuração do SportNavo indica que João Pedro figurava entre os cotados até o último ciclo de convocações de Ancelotti, tendo inclusive participado dos amistosos contra França e Croácia, em março, nos Estados Unidos. Naquelas duas partidas, o centroavante também não balançou as redes. O padrão se repetiu — e Ancelotti o registrou.
Neymar entra com menos minutos, João Pedro sai com mais gols
A comparação entre os dois atacantes é o nó central desta convocação. Neymar, que retornou ao Santos após o período no Al Hilal, acumulou minutos escassos na temporada — e chegou a gerar preocupação na própria manhã do anúncio, quando a CBF solicitou exames ao clube após o camisa 10 ter saído de campo no fim de semana com uma pancada na panturrilha. O resultado não apontou problemas, mas a sequência ilustra o risco que Ancelotti decidiu correr conscientemente.
Historicamente, essa não é uma aposta inédita no futebol brasileiro. Em 2002, Luiz Felipe Scolari convocou Ronaldo Fenômeno para o Japão e a Coreia do Sul após uma temporada marcada por lesões e pouquíssimos jogos pelo Inter de Milão. O resultado foi oito gols em sete partidas e o pentacampeonato. A memória coletiva da torcida brasileira carrega esse precedente como justificativa permanente para apostas semelhantes — mas o Fenômeno tinha 25 anos e vinha de duas Copas anteriores com marcas expressivas. Neymar, hoje com 34 anos, chega à Copa de 2026 com um currículo diferente: 79 gols em 128 jogos pela Seleção, o maior artilheiro da história do Brasil, mas também uma sequência recente de lesões que reduziram drasticamente sua participação em campo.
O dilema de Ancelotti, portanto, não era apenas técnico — era geracional. Optar por João Pedro significaria apostar num centroavante eficaz no clube, mas que nunca encontrou o mesmo rendimento com a camisa amarela. Optar por Neymar significava preservar um símbolo e uma referência histórica, assumindo o risco físico como variável aceitável… e aí vem o problema.
A decisão de Ancelotti e o que ela revela sobre a filosofia do técnico
Carlo Ancelotti foi explícito sobre seu processo de trabalho ao conceder entrevista ao Jornal Nacional nesta segunda-feira.
"A lista final foi hoje, às 12h, porque tínhamos que esperar os jogos do final de semana para saber se teríamos algum jogador com problema. Mais ou menos estava fechada, mas no futebol sempre podem aparecer problemas."A declaração revela um técnico que gerencia incerteza até o último instante — e que, ao fechar a lista com Neymar dentro, optou pela experiência acumulada em três Copas do Mundo (2010, 2014 e 2018) em detrimento do desempenho recente de um atacante mais jovem.
O presidente da CBF, Samir Xaud, reforçou que não interfere em convocações.
"Fiquei tão surpreso quanto vocês. Nunca conversei sobre convocação com o Mister. Ele tem autonomia completa. Não cabe a mim discutir futebol com Ancelotti."A transparência de Xaud é relevante: significa que a escolha por Neymar em detrimento de João Pedro foi inteiramente de Ancelotti, sem pressão institucional — o que torna a decisão ainda mais reveladora do perfil do treinador italiano.
Na transmissão ao vivo da TV Globo, o ex-atacante Denílson reagiu ao nome de Neymar com o punho fechado e a frase "Eu falei, eu falei pra você", enquanto cantarolava "Olê, olê, olá, Neymar, Neymar". A cena capturou com precisão a divisão que existe no ambiente do futebol brasileiro: parte dos analistas e torcedores enxerga a convocação de Neymar como um risco calculado; outra parte, como um erro de prioridade.
João Pedro terá 26 anos quando o próximo ciclo de eliminatórias para a Copa de 2030 começar. Seu aproveitamento pelo Chelsea nesta temporada 2025/2026 — artilheiro do clube — garante que ele seguirá no radar da Seleção, desde que resolva o único problema que Ancelotti não conseguiu ignorar: a incapacidade de transferir para o nível internacional o mesmo futebol que pratica no clube. A estreia do Brasil na Copa do Mundo está marcada para 13 de junho, contra Marrocos, em Nova Jersey, pelo Grupo C — que inclui ainda Escócia e Haiti.
Uma receita pode ser perfeita no fogão de casa e travar completamente numa cozinha diferente. João Pedro ainda não encontrou o tempero certo para o ambiente da Seleção — e enquanto isso, Ancelotti serviu o prato que o Brasil conhece de cor.









