Três coisas: desempenho coletivo abaixo do esperado, La Liga já entregue ao Barcelona com semanas de antecedência, e uma temporada sem títulos pela primeira vez em ciclos recentes. Tudo se explica daí.
O Real Madrid venceu o já rebaixado Oviedo por 2 a 0 na noite desta quinta-feira (14), no Santiago Bernabéu, pela 36ª rodada de La Liga. Gols de Gonzalo García e Jude Bellingham. Resultado positivo, ambiente negativo.
O momento das vaias a Mbappé e o que ele representa taticamente
Aos 23 minutos do segundo tempo, Kylian Mbappé entrou no lugar de Gonzalo García. A recepção das arquibancadas foi de vaias audíveis e consistentes. O francês, artilheiro do clube na temporada 2025/26, reagiu com um sorriso — gesto que, dependendo da leitura, pode ser interpretado como indiferença ou desconforto disfarçado.
O problema não é pontual. O Bernabéu já demonstrou insatisfação com Mbappé em múltiplos momentos desta temporada. A questão tática é objetiva: o camisa 10 opera predominantemente como centroavante fixo no esquema de Álvaro Arbeloa, mas sua taxa de envolvimento em transições ofensivas rápidas — o movimento em que o Real Madrid historicamente é mais letal — ficou abaixo da média esperada para o perfil do jogador.
Vini Jr também vaiado — dois protagonistas no mesmo banco dos réus
Vinicius Jr recebeu vaias antes de Mbappé entrar. Na primeira etapa, o brasileiro teve ao menos duas oportunidades claras desperdiçadas: finalizou na própria perna após cruzamento de Alexander-Arnold e, em seguida, perdeu um contra um com o goleiro Escandell após erro na saída de bola do Oviedo.
Quando dois dos jogadores mais caros do elenco são vaiados na mesma partida, o sinal não é sobre indivíduos — é sobre expectativa sistêmica frustrada. A torcida merengue compara o rendimento atual com o ciclo 2021-2023, quando o clube venceu três Champions Leagues em quatro temporadas, com uma estrutura de pressão alta e transição vertical que hoje parece desconfigurada.
O efeito cascata de uma temporada sem títulos
A classificação atual ilustra o cenário: Real Madrid em 2º lugar com 80 pontos, sem possibilidade de alcançar o Barcelona nem de ser ultrapassado pelo Villarreal (3º). Matematicamente, o clube cumpre tabela nas últimas rodadas. Para uma instituição que faturou 11 títulos de Champions League e venceu La Liga nas temporadas 2021/22 e 2023/24, encerrar um ciclo sem conquistas provoca reação proporcional.
O protesto não se limitou aos jogadores. Um torcedor foi retirado de seu lugar por seguranças do estádio após exibir uma faixa com os dizeres "Florentino culpado" — direcionada ao presidente Florentino Pérez. A transmissão captou a cena. O gesto indica que a insatisfação alcança a gestão, não apenas o campo.
A faixa "Florentino culpado" retirada pelos seguranças do Bernabéu sintetiza o que parte da torcida pensa sobre a montagem deste elenco — a responsabilidade pelo ciclo negativo sobe além dos vestiários.
O que muda para o Real Madrid nas rodadas finais
O único dado positivo da noite foi a participação de Bellingham no segundo gol: recebeu de Mbappé na entrada da área, limpou a marcação e finalizou rasteiro com a canhota aos 30 minutos do segundo tempo — uma das poucas jogadas que gerou reação positiva nas arquibancadas. Brahim Díaz foi o mais ativo durante os 90 minutos, com ao menos três finalizações e duas assistências diretas.
Comparativamente, a crise de identidade do Bernabéu com seus atacantes lembra o período 2003-2006, quando o Real Madrid dos Galácticos — Zidane, Ronaldo Fenômeno, Beckham e Figo simultaneamente — não conquistou La Liga em nenhuma das três temporadas completas juntos, gerando vaias frequentes apesar do elenco milionário. A diferença agora é que Mbappé chegou com contrato de longo prazo e o clube apostou sua reestruturação tática em torno dele.
O Real Madrid volta a campo no domingo, dia 17 de maio, contra o Sevilla, às 14h (horário de Brasília), fora de casa — é o mesmo cenário que o Barcelona viveu em 2003 antes de contratar Ronaldinho, quando torcedores vaiavam o elenco mesmo em vitórias, só que agora a aposta é diferente: o clube construiu um projeto em torno de Mbappé e precisará decidir, no mercado de verão, se mantém o sistema ou adapta o atacante.








