Três dados: 219,8 km percorridos, madrugada fechada na Serra da Mantiqueira, estrada rural sem suporte imediato. É a partir dessas três variáveis que se entende o que aconteceu com Eliana Tamietti durante o Bikingman Brasil — e por que o evento deveria ser lido como um problema estrutural, não como um episódio isolado.
O que o percurso do Bikingman Brasil exige de cada atleta
O trajeto oficial da edição em que Eliana competia somava aproximadamente 555 quilômetros, com largada e chegada em São José dos Campos (SP). O roteiro corta o interior paulista e avança pelo Sul de Minas, atravessando a região da Serra da Mantiqueira — um dos blocos de altitude mais exigentes do Sudeste brasileiro.
Vinícius Martins, diretor de prova do Bikingman no Brasil, descreve a lógica de traçado com precisão geográfica:
"Para ter a melhor vista, você precisa subir o morro e olhar de cima. Então a gente sempre escolhe regiões montanhosas, com muita subida e descida."
As vias utilizadas não são trilhas de mountain bike nem rodovias federais monitoradas. São, na maioria, antigas rotas de tropeiros — estradas com inclinações acentuadas, abertas há décadas, sem acostamento padronizado e com tráfego imprevisível em horários noturnos. Martins reconhece a especificidade do terreno:
"São antigas estradas de tropeiros, abertas há muito tempo, com subidas muito inclinadas. A Mantiqueira sobe muito rápido e desce por vales, por isso é uma região tão desafiadora para os ciclistas."
Do ponto de vista operacional, o evento prioriza estradas secundárias para reduzir o contato com tráfego pesado. A intenção é defensável. O problema é que estradas secundárias em regiões montanhosas, percorridas às 2h da manhã por atletas que podem carregar mais de 40 horas de esforço acumulado, não são necessariamente mais seguras — são apenas menos movimentadas.
O custo real de entrar numa prova de ultradistância
Provas de ultraciclismo no Brasil ainda operam num modelo financeiro pulverizado. As inscrições para eventos da categoria Bikingman variam entre R$ 800 e R$ 2.200 dependendo da edição e da antecedência da compra. Esse valor cobre rastreamento por GPS — tecnologia que registrou os 219,8 km de Eliana antes do incidente —, suporte de rota e acesso a pontos de controle. O que ele não cobre, na maioria dos casos, é assistência médica dedicada ao longo de todo o trajeto.
Decidiu. A pergunta que o mercado de ultraciclismo ainda não respondeu é quem paga pela infraestrutura de emergência quando a prova atravessa zonas rurais de difícil acesso.
Num modelo comparativo, provas de triathlon de longa distância como o Ironman cobram inscrições entre R$ 2.500 e R$ 4.500 e incluem equipes médicas posicionadas a cada setor do percurso. A diferença de custo operacional é expressiva: estima-se que a cobertura médica de uma prova Ironman de 226 km consuma entre 15% e 22% do orçamento total do evento. Para um ultraciclismo de 555 km em área rural, esse percentual precisaria ser ainda maior — o que tornaria o modelo de precificação atual inviável sem ajuste.
Segundo apuração do SportNavo, não existe no Brasil regulamentação federal específica para provas de ultraciclismo que obrigue a presença de equipes médicas em intervalos fixos de percurso. A Confederação Brasileira de Ciclismo (CBC) estabelece diretrizes gerais para competições, mas a fiscalização de eventos de ultradistância em estradas rurais permanece fragmentada entre organizadores privados e órgãos municipais.
Quem absorve o risco quando o atleta vai além do limite
O perfil dos competidores de ultraciclismo no Brasil é predominantemente de atletas amadores de alta performance — profissionais liberais, executivos e empreendedores entre 30 e 55 anos que investem entre R$ 15.000 e R$ 60.000 anuais em equipamento, treinamento e inscrições. Não são atletas profissionais com suporte de equipe. Pedalam, em grande parte, sem carro de apoio individual.
Eliana Tamietti era representativa desse grupo. Atleta experiente, participava de uma prova que ela conhecia e para a qual havia se preparado. Havia completado quase 40% do percurso total quando os dados de GPS deixaram de avançar.
O modelo de responsabilidade contratual nessas provas transfere o risco ao atleta através de termos de ciência de risco assinados na inscrição. Juridicamente, esses documentos limitam a exposição dos organizadores — mas não eliminam a responsabilidade civil em casos de omissão de suporte. Advogados especializados em direito desportivo apontam que a ausência de protocolos documentados de resposta a emergências pode configurar negligência, independentemente do termo assinado.
O que precisa mudar para que o Bikingman Brasil continue existindo
O ultraciclismo é um dos segmentos de maior crescimento no esporte amador brasileiro. Entre 2020 e 2025, o número de inscrições em provas de ultradistância no país cresceu aproximadamente 140%, segundo dados de plataformas de inscrição online. A demanda existe. O modelo de gestão de risco não acompanhou esse crescimento.
Três ajustes são tecnicamente viáveis sem inviabilizar a prova:
- Postos médicos móveis a cada 80–100 km de percurso, com paramédico e desfibrilador, custo estimado de R$ 12.000 a R$ 18.000 por edição;
- Janelas de corte noturno obrigatórias entre 0h e 4h em trechos de altitude acima de 900 metros — reduz a exposição ao risco sem eliminar o caráter de ultradistância;
- Protocolo de ativação de emergência por GPS com tempo máximo de resposta contratualizado, integrando os dados de rastreamento já utilizados pela organização a centrais de resgate regionais.
O custo incremental desses três itens, diluído sobre uma base de 150 a 300 inscritos por edição, representa acréscimo de R$ 80 a R$ 180 por atleta na taxa de inscrição. Um ajuste financeiramente absorvível para o perfil socioeconômico do público que compete nessa categoria.
A próxima edição do Bikingman Brasil ainda não tem data confirmada. A organização informou que está em processo de revisão dos protocolos de segurança após o incidente com Eliana Tamietti. É o mesmo cenário que o triathlon amador brasileiro viveu em 2014 após mortes em provas de águas abertas — só que agora a aposta é diferente: o ultraciclismo tem dados de GPS em tempo real, tecnologia que o triathlon da época não tinha, e desperdiçar essa vantagem operacional seria um erro que o mercado não pode se dar ao luxo de repetir.








