Confesso: eu errei sobre a seleção de 2018. Escrevi, com convicção, que aquele time de Neymar, Coutinho e Gabriel Jesus tinha estrutura suficiente para ir além das quartas de final. Bélgica respondeu com 2 a 1 no placar e com uma lição que o Brasil ainda não digeriu completamente: talento individual não resolve fragilidade coletiva. Seis anos depois, o padrão se repetiu no Qatar com a Croácia. E em 2026, as casas de apostas enxergam exatamente isso.

O que as odds de 9 para 1 dizem sobre o Brasil que Ancelotti construiu

Quando o mercado precifica um time a 9 para 1, ele está dizendo algo que a torcida ainda resiste a ouvir.

A análise feita pelo Blog do Rafael Reis sobre sete casas de apostas consolidadas no Brasil — Sportingbet, Bet365, Betano, Novibet, KTO, Superbet e BetMGM — colocou a seleção de Ancelotti como quarta favorita em todas elas, atrás de França, Espanha e Inglaterra. A Espanha lidera em seis das sete casas, com odds médias de 5,5 para 1 — praticamente metade do risco atribuído ao Brasil. Em cinco delas, o Brasil ainda divide esse quarto posto com a Argentina, atual campeã mundial. Apenas duas casas consideram que Vinícius Júnior e companhia têm chances superiores às de Messi e seus parceiros.

O ranking da Fifa reforça o diagnóstico com frieza cirúrgica: a França lidera com 1.877,32 pontos, a Espanha aparece em segundo com 1.876,40, e o Brasil só aparece na sexta colocação, com 1.761,16 pontos — atrás também de Inglaterra (1.825,97) e Portugal (1.763,83). Não é uma questão de percepção. É matemática acumulada de desempenho.

A pesquisa AtlasIntel, divulgada em 15 de maio e realizada com 964 adultos brasileiros, confirmou que a própria torcida do país pentacampeão elegeu a França como favorita ao título — acima da seleção canarinho. Quando o torcedor local aposta mais na rival do que no próprio time, o sinal é inequívoco.

Duas eliminações nas quartas e as posições que ainda sangram no elenco

O Brasil não chega às semifinais de uma Copa do Mundo há 24 anos — e isso não é coincidência, é padrão.

Em 2018, a Bélgica expôs a dependência excessiva de Neymar e a fragilidade na transição defensiva. Em 2022, a Croácia mostrou que o Brasil não tem resposta quando o adversário compacta o meio-campo e força os pênaltis. Duas quartas de final consecutivas não são azar — são sintoma. E o elenco convocado por Ancelotti para a Copa do Mundo de 2026 ainda carrega parte dessas cicatrizes.

O que as odds de 9 para 1 dizem sobre o Brasil que Ancelotti construiu Por que o
O que as odds de 9 para 1 dizem sobre o Brasil que Ancelotti construiu Por que o

A zaga segue sendo o ponto de maior interrogação. A lateral direita, tema recorrente desde a aposentadoria de Daniel Alves, continua sem um titular óbvio. O meio-campo depende da saúde de Bruno Guimarães — que precisou de dez semanas de trabalho intensivo com o preparador físico Rodrigo Lasmar para chegar ao torneio em condições — e a criatividade entre as linhas ainda orbita em torno de Rodrygo e Vinicius Jr, dois extremos que jogam melhor quando o Brasil tem a bola e sofrem quando precisam defender em bloco baixo.

Segundo o SportNavo acompanhou nos bastidores das últimas convocações, a comissão técnica reconhece que a transição entre meio e ataque ainda não está automatizada no modelo de Ancelotti. O treinador italiano, acostumado a trabalhar com jogadores de alto nível individual no Real Madrid, encontrou no Brasil um elenco talentoso mas com pouco tempo de trabalho coletivo — os 26 convocados iniciarão os treinos nesta semana, com exceção dos envolvidos na final da Liga dos Campeões e na última rodada da fase de grupos da Libertadores.

França e Espanha têm o que o Brasil ainda persegue em termos de estrutura de jogo

Favoritismo não nasce do talento isolado — nasce de sistema, profundidade de elenco e tempo de trabalho.

A França de Deschamps tem Mbappé como referência ofensiva, mas sua força real está na densidade do meio-campo e na capacidade de vencer jogos sem jogar bem. A Espanha de De la Fuente é a campeã europeia de 2024 e opera com um modelo coletivo que independe de um único nome — Pedri, Yamal, Morata e Dani Olmo formam um sistema, não uma constelação de estrelas. São exatamente esses dois modelos que as casas de apostas remuneram melhor: odds de 5,5 para 1 para a Espanha e números semelhantes para a França.

Duas eliminações nas quartas e as posições que ainda sangram no elenco Por que o
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O Brasil estreia no Grupo C contra Marrocos em 13 de junho, nos Estados Unidos, com Haiti e Escócia completando a chave. No papel, é um grupo administrável. Mas Marrocos chegou às semifinais do Qatar 2022 com exatamente o tipo de jogo que incomoda o Brasil: pressão alta, transição rápida e organização defensiva intensa. Antes da viagem à América do Norte, a seleção disputa dois amistosos preparatórios — contra o Panamá no domingo, no Maracanã, e contra o Egito em 6 de junho, em Cleveland.

"Para as principais casas de apostas que atuam no Brasil, a seleção de Carlo Ancelotti viajará para a América do Norte na condição de quarta favorita à conquista do título", apontou o levantamento do Blog do Rafael Reis, que analisou as tabelas de pagamento das sete bets mais consolidadas do mercado nacional.

Vencer a Copa do Mundo com odds de 9 para 1 não é impossível — a Argentina de 2022 chegou ao torneio com cotações parecidas e saiu campeã. Mas Messi tinha 35 anos, um elenco rodado e um sistema tático cristalizado após anos de trabalho com Scaloni. Ancelotti assumiu o Brasil há menos de um ano. O hexacampeonato é possível, mas o mercado — e a própria torcida brasileira, segundo a AtlasIntel — exige que a seleção prove dentro de campo o que ainda não provou nos números: que aprendeu a vencer quando o jogo fica difícil. A primeira resposta chega em 13 de junho, 1.761 pontos no ranking Fifa e uma eliminação nas quartas que não pode virar trilogia.